A Paixão de Cristo!

...VIII.  O Crucificado

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Getsêmani

 

Em companhia dos discípulos, fez o Salvador vagarosamente o caminho para o jardim de Getsêmani. A Lua pascoal, clara e cheia, brilhava num céu sem nuvens. Silenciara a cidade de tendas de peregrinos.

Jesus estivera conversando animadamente com os discípulos, instruindo-os; mas ao aproximar-Se do Getsêmani, tornou-Se estranhamente mudo. Muitas vezes lá estivera, para meditar e orar; mas nunca com o coração tão cheio de tristeza como nessa noite de Sua última agonia. Durante Sua vida na Terra, andara à luz da presença de Deus. Quando em conflito com homens que eram inspirados pelo próprio espírito de Satanás, podia dizer: "Aquele que Me enviou está comigo; o Pai não Me tem deixado só, porque Eu faço sempre o que Lhe agrada." João 8:29. Agora, porém, parecia excluído da luz da mantenedora presença de Deus. Era então contado entre os transgressores. Devia suportar a culpa da humanidade caída. Sobre Aquele que não conheceu pecado, devia pesar a iniqüidade da raça caída. Tão terrível Lhe parece o pecado, tão grande o peso da culpa que deve levar sobre Si, que é tentado a temer que ele O separe para sempre do amor do Pai. Sentindo quão terrível é a ira de Deus contra a transgressão, exclama: "A Minha alma está profundamente triste até à morte." Mar. 14:34.

Ao aproximarem-se do jardim, os discípulos notaram a mudança que se operara em seu Mestre. Nunca dantes O tinham visto

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tão indizivelmente triste e silencioso. À medida que avançava, mais se aprofundava essa estranha tristeza; todavia, não ousavam interrogá-Lo quanto a causa da mesma. Seu corpo cambaleava como se estivesse prestes a cair. Ao chegar ao jardim, os discípulos, ansiosos, procuraram o lugar habitual do retiro do Mestre, para que Ele pudesse descansar. Cada passo que dava agora, fazia-o com extremo esforço. Gemia alto, como sob a opressão de terrível fardo. Por duas vezes os companheiros O sustiveram, do contrário teria tombado por terra.

Próximo à entrada do horto, Jesus deixou todos os discípulos, com exceção de três, pedindo-lhes que orassem por si mesmos e por Ele. Em companhia de Pedro, Tiago e João, penetrou nos mais retirados recessos do mesmo horto. Esses três discípulos eram os mais íntimos companheiros de Cristo. Contemplaram-Lhe a glória no monte da transfiguração; viram Moisés e Elias conversando com Ele; ouviram a voz do Céu; agora, em Sua grande luta, Cristo os desejava ter perto de Si. Muitas vezes passaram a noite ao Seu lado nesse retiro. Nessas ocasiões, depois de um período de vigília e oração, costumavam dormir imperturbados a pequena distância do Mestre, até que os despertava pela manhã, para irem novamente ao trabalho. Agora, porém, desejava que passassem a noite com Ele em oração. No entanto, não podia admitir que nem mesmo eles testemunhassem a agonia que devia suportar.

"Ficai aqui", disse-lhes, "e velai comigo." Mat. 26:38.

Foi a uma pequena distância deles - não tão afastado que O não pudessem ver e ouvir - e caiu prostrado por terra. Sentia que, pelo pecado, estava sendo separado do Pai. O abismo era tão largo, tão negro, tão profundo, que Seu espírito tremeu diante dele. Para escapar a essa agonia, não deve exercer Seu poder divino. Como homem, cumpre-Lhe sofrer as conseqüências do pecado do homem. Como homem, deve suportar a ira divina contra a transgressão.

Cristo Se achava então em atitude diversa daquela em que sempre estivera. Seus sofrimentos podem melhor ser descritos nas palavras do profeta: "Ó espada, ergue-te contra o Meu Pastor e contra o varão que é Meu companheiro, diz o Senhor dos Exércitos." Zac. 13:7. Como substituto e refém do pecador, estava Cristo sofrendo sob a justiça divina. Viu o que significa justiça. Até então, fora como um intercessor por outros; agora, ansiava alguém que por Ele intercedesse.

Ao sentir Cristo interrompida Sua unidade com o Pai, temia que, em Sua natureza humana, não fosse capaz de resistir ao vindouro conflito com os poderes das trevas. No deserto da tentação, estivera em jogo o destino da raça humana. Cristo saíra então vitorioso. Agora viera o tentador para a derradeira e tremenda

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luta. Para isso se preparara ele durante os três anos de ministério de Cristo. Tudo estava em jogo para ele. Falhasse aqui, e estava perdida sua esperança de domínio; os reinos do mundo tornar-se-iam afinal possessão de Cristo; ele próprio seria derrotado e expulso. Mas se Cristo pudesse ser vencido, a Terra se tornaria para sempre o reino de Satanás, e a raça humana estaria perpetuamente em seu poder. Com os resultados do conflito perante Si, a alma de Cristo Se encheu de terror da separação de Deus. Satanás dizia-Lhe que, se Se tornasse o penhor de um mundo pecaminoso, seria eterna a separação. Ele Se identificaria com o reino de Satanás, e nunca mais seria um com Deus.

E que se lucraria com esse sacrifício? Quão desesperadas pareciam a culpa e a ingratidão humanas! Satanás apertava o Redentor, apresentando a situação justamente em seus piores aspectos: "A nação que pretende achar-se acima de todas as outras quanto às vantagens temporais e espirituais, rejeitou-Te. Procuram destruir-Te, a Ti, fundamento, centro e selo das promessas que lhes foram feitas como povo particular. Um de Teus próprios discípulos, que tem ouvido Tuas instruções e sido um dos de mais destaque nas atividades da igreja, trair-Te-á. Um de Teus mais zelosos seguidores Te há de negar. Todos Te abandonarão." Cristo repeliu esse pensamento com todo Seu ser. Que aqueles a quem empreendera salvar, aqueles a quem tanto amava, se unissem aos tramas de Satanás - isto Lhe traspassava a alma. Terrível era o conflito. Media-se pela culpa da nação, de Seus acusadores e traidor, pela culpa de um mundo imerso na impiedade. Os pecados dos homens pesavam duramente sobre Cristo, e esmagava-Lhe a alma o sentimento da ira divina.

Contemplai-O considerando o preço a ser pago pela alma humana. Em Sua agonia, apega-Se ao solo frio, como a impedir de ser levado para longe de Deus. O enregelante orvalho da noite cai-Lhe sobre o corpo curvado, mas não atenta para isso. De Seus pálidos lábios irrompe o amargo brado: "Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice." Mas mesmo então acrescenta: "Todavia não como Eu quero, mas como Tu queres." Mat. 26:39.

O coração humano anseia simpatia no sofrimento. Esse anseio, experimentou-o Cristo até ao mais profundo de Seu ser. Na suprema angústia de Sua alma, foi ter com os discípulos, com o aflitivo desejo de ouvir algumas palavras reconfortantes daqueles a quem tantas vezes concedera bênçãos e conforto, e protegera na dor e na aflição. Aquele que para eles tivera sempre expressões de simpatia, sofria agora sobre-humana dor, e

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almejava saber que estavam orando por Ele e por si mesmos. Quão negra se Lhe afigurava a malignidade do pecado! Terrível foi a tentação de deixar que a raça humana sofresse as conseqüências de sua própria culpa, e ficasse Ele inocente diante de Deus. Se tão-somente soubesse que os discípulos compreendiam e avaliavam isso, seria fortalecido. Erguendo-Se num doloroso esforço, dirigiu-Se cambaleante ao lugar onde deixara os companheiros. Mas "achou-os adormecidos". Mat. 26:40. Houvesse-os encontrado em oração, e ter-Se-ia sentido aliviado. Estivessem buscando refúgio em Deus, para que as forças satânicas não prevalecessem sobre eles, e Jesus Se teria sentido confortado por sua firme fé. Mas não deram ouvidos à repetida advertência: "Vigiai e orai." Mat. 26:41. A princípio ficaram perturbados ao ver o Mestre, de ordinário tão calmo e de tanta compostura, lutando com uma dor que estava além da compreensão. Tinham orado enquanto ouviram os grandes clamores do Sofredor. Não pretendiam abandonar seu Senhor, mas pareciam paralisados por um torpor que teriam sacudido de si, caso houvessem continuado a rogar a Deus. Não compreendiam a necessidade de vigilância e fervorosa súplica, a fim de resistir à tentação.

Mesmo antes de Se dirigir para o horto, Jesus dissera aos discípulos: "Todos vós esta noite vos escandalizareis em Mim." Haviam-Lhe assegurado firmemente que O acompanhariam à prisão e à morte. E o pobre, presunçoso Pedro acrescentara: "Ainda que todos se escandalizem em Ti, eu nunca me escandalizarei." Mar. 14:27 e 29. Mas os discípulos confiavam em si mesmos. Não olharam

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para o poderoso Ajudador, como Cristo os aconselhara a fazer. Assim, quando o Salvador Se encontrava em mais necessidade das simpatias e orações deles, foram achados dormindo. Mesmo Pedro dormia.

E João, o amorável discípulo que se reclinara ao peito de Jesus, estava adormecido. Certamente o amor de João por seu Mestre o deveria ter mantido desperto. Suas fervorosas orações se deveriam ter misturado às do amado Salvador, no momento de Sua suprema aflição. O Redentor passara noites inteiras orando pelos discípulos, para que sua fé não desfalecesse. Fizesse Jesus agora a Tiago e a João a pergunta que uma vez lhes dirigira: "Podeis vós beber o cálice que Eu hei de beber, e ser batizados com o batismo com que Eu sou batizado?" e eles não teriam ousado responder: "Podemos." Mat. 20:22.

Os discípulos acordaram à voz de Jesus, porém mal O conheceram, tão mudado estava Seu semblante pela angústia. Dirigindo-Se a Pedro, disse Jesus: "Simão, dormes? Não podes vigiar uma hora? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca." Mar. 14:37 e 38. A fraqueza dos discípulos despertou a simpatia de Jesus. Temia que não fossem capazes de resistir à prova que lhes sobreviria em Sua entrega e morte. Não os reprovou, mas disse: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação." Mesmo em Sua grande agonia, buscava desculpar-lhes a fraqueza. "O espírito na verdade está pronto", disse, "mas a carne é fraca." Novamente foi o Filho de Deus tomado de sobre-humana aflição e, desfalecido e exausto, arrastou-Se outra vez para o lugar de Sua luta anterior. Seu sofrimento era ainda maior que antes. Ao sobrevir-Lhe a agonia da alma, "Seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão". Luc. 22:44. Os ciprestes e as palmeiras foram as silenciosas testemunhas de Sua angústia. Dos folhudos ramos caía denso orvalho sobre Seu corpo prostrado, como se a natureza chorasse sobre seu Autor sozinho em luta contra os poderes das trevas.

Pouco tempo antes, Jesus Se mostrara qual vigoroso cedro, resistindo à tempestade da oposição que desencadeava contra Ele sua fúria. Vontades obstinadas e corações cheios de maldade e sutileza, em vão lutaram para O confundir e oprimir. Apresentara-Se em divina majestade, como o Filho de Deus. Agora era como uma cana açoitada e pendida por furiosa tempestade. Vencedor, aproximara-Se da consumação de Sua obra, havendo conquistado a cada passo a vitória sobre os poderes das trevas. Como já glorificado, afirmara ter unidade com Deus. Com firmes

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acentos entoara Seus cânticos de louvor. Dirigira aos discípulos palavras de ânimo e ternura. Agora chegara a hora do poder das trevas. Agora se Lhe ouvia a voz no silêncio da noite, não em notas de triunfo, mas plena de humana angústia. As palavras do Salvador foram levadas aos ouvidos dos entorpecidos discípulos: "Meu Pai, se este cálice não pode passar de Mim sem Eu o beber, faça-se a Tua vontade." Mat. 26:42.

O primeiro impulso dos discípulos foi ir ter com Ele; mas pedira-lhes que ficassem ali, velando em oração. Quando Jesus chegou a eles, achou-os ainda adormecidos. De novo sentira Ele o anseio da companhia, de algumas palavras dos discípulos, que trouxessem alívio e quebrassem o encanto das trevas que quase O venciam. Mas seus olhos estavam carregados; "e não sabiam que responder-Lhe". Mar. 14:40. Sua presença os despertou. Viram-Lhe o rosto manchado com o suor sanguinolento da agonia, e encheram-se de temor. Sua angústia mental, não a podiam compreender. "O Seu parecer estava tão desfigurado, mais do que o dos outros filhos dos homens." Isa. 52:14.

Voltando, Jesus tornou a procurar o Seu retiro, caindo prostrado, vencido pelo horror de uma grande treva. A humanidade do Filho de Deus tremia naquela probante hora. Não orava agora pelos discípulos, para que a fé deles não desfalecesse, mas por Sua própria alma assediada de tentação e angústia. O tremendo momento chegara - aquele momento que decidiria o destino do mundo. Na balança oscilava a sorte da humanidade. Cristo ainda podia, mesmo então, recusar beber o cálice reservado ao homem culpado. Ainda não era demasiado tarde. Poderia enxugar da fronte o suor de sangue, e deixar perecer o homem em sua iniqüidade. Poderia dizer: Receba o pecador o castigo de seu pecado, e Eu voltarei a Meu Pai. Beberá o Filho de Deus o amargo cálice da humilhação e da agonia? Sofrerá o Inocente as conseqüências da maldição do pecado, para salvar o criminoso? Trêmulas caem as palavras dos pálidos lábios de Jesus: "Pai Meu, se este cálice não pode passar de Mim sem Eu o beber, faça-se a Tua vontade." Mat. 26:42.

Três vezes proferiu essa oração. Três vezes recuou Sua humanidade do derradeiro, supremo sacrifício. Surge, porém, então, a história da raça humana diante do Redentor do mundo. Vê que os transgressores da lei, se deixados a si mesmos, têm de perecer. Vê o desamparo do homem. Vê o poder do pecado. As misérias e os ais do mundo condenado erguem-se ante Ele.

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Contempla-lhe a sorte iminente, e decide-Se. Salvará o homem custe o que custar de Sua parte. Aceita Seu batismo de sangue, para que, por meio dEle, milhões de almas a perecer obtenham a vida eterna. Deixou as cortes celestiais, onde tudo é pureza, felicidade e glória para salvar a única ovelha perdida, o único mundo caído pela transgressão. E não Se desviará de Sua missão. Tornar-Se-á a propiciação de uma raça que quis pecar. Sua prece agora respira apenas submissão: "Se este cálice não pode passar de Mim sem Eu o beber, faça-se a Tua vontade." Mat. 26:42.

Havendo tomado a decisão, cai moribundo no solo do qual Se erguera parcialmente. Onde se achavam então os discípulos, para pôr ternamente as mãos sob a cabeça do desfalecido Mestre, e banhar aquela fronte, na verdade mais desfigurada que a dos outros filhos dos homens? O Salvador pisou sozinho o lagar, e do povo nenhum com Ele havia.

Mas Deus sofria com Seu Filho. Anjos contemplavam a agonia do Salvador. Viam seu Senhor circundado de legiões das forças satânicas, Sua natureza vergada ao peso de misterioso pavor que todo O fazia tremer. Houve silêncio no Céu. Nenhuma harpa soava. Pudessem os mortais ter testemunhado o assombro das hostes angélicas quando, em silenciosa dor, observavam o Pai retirando de Seu bem-amado Filho os raios de luz, amor e glória, e melhor compreenderiam quão ofensivo é aos Seus olhos o pecado.

Os mundos não caídos e os anjos celestiais vigiavam com intenso interesse o conflito que se aproximava do desfecho. Satanás e suas hostes do mal, as legiões da apostasia, seguiam muito atentamente essa grande crise na obra da redenção. Os poderes do bem e do mal aguardavam para ver qual a resposta que seria dada à oração de Cristo - três vezes repetida. Os anjos anelavam trazer alívio ao divino Sofredor, mas isso não podia ser. Nenhum meio de escape havia para o Filho de Deus. Nessa horrível crise, quando tudo estava em jogo, quando o misterioso cálice tremia nas mãos do Sofredor, abriu-se o Céu, surgiu uma luz por entre a tempestuosa treva da hora da crise, e o poderoso anjo que se acha na presença de Deus, ocupando a posição da qual Satanás caíra, veio para junto de Cristo. O anjo não veio para tomar-Lhe o cálice das mãos, mas para fortalecê-Lo a fim de que o bebesse, com a certeza do amor do Pai. Veio para dar força ao divino-humano Suplicante. Ele Lhe apontou os Céus abertos, falando-Lhe das almas que seriam salvas em resultado de Seus sofrimentos. Afirmou-Lhe que Seu Pai é maior e mais poderoso que Satanás, que Sua morte redundaria na sua inteira derrota, e que o reino deste mundo seria dado aos santos do Altíssimo. Disse-Lhe que Ele veria o trabalho de Sua alma, e ficaria satisfeito,

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pois contemplaria uma multidão de membros da família humana salvos, eternamente salvos.

A agonia de Cristo não cessou, mas Sua depressão e desânimo O deixaram. A tempestade não amainou de maneira alguma, mas Aquele que dela era objeto estava fortalecido para lhe enfrentar a fúria. Saiu calmo e sereno. Uma paz celestial pairava-Lhe no rosto manchado de sangue. Suportara aquilo que criatura alguma humana jamais poderia sofrer; pois provara os sofrimentos da morte por todos os homens.

Os adormecidos discípulos foram subitamente despertados pela luz que circundava o Salvador. Viram o anjo inclinado sobre o prostrado Mestre. Viram-no erguer a cabeça do Salvador sobre seu seio, e apontar para o Céu. Ouviram-lhe a voz, qual música suave, proferindo palavras de conforto e esperança. Os discípulos recordaram a cena do monte da transfiguração. Lembraram a glória que, no templo, envolvera a Jesus, e a voz de Deus, que falara da nuvem. Agora se revelava aquela mesma glória, e não tiveram mais temor pelo Mestre. Ele Se achava sob o cuidado de Deus; um poderoso anjo fora enviado para O proteger. Novamente os discípulos, em sua fadiga, cedem àquele estranho torpor que os domina. Novamente Jesus vai os encontrar adormecidos.

Contemplando-os dolorosamente, diz Ele: "Dormi agora, e repousai; eis que é chegada a hora, e o Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores."

Mesmo ao proferir essas palavras, ouviu as pisadas da turba que vinha em Sua procura, e disse: "Levantai-vos, partamos; eis que é chegado o que Me trai." Mat. 26:45 e 46.

Nenhum vestígio de Sua recente agonia se podia divisar ao adiantar-Se Jesus para enfrentar o traidor. Achando-Se à frente dos discípulos, disse: "A quem buscais?" Responderam: "A Jesus Nazareno." Jesus disse: "Sou Eu." João 18:4-6. Ao serem proferidas essas palavras, o anjo que há pouco estivera confortando a Jesus interpôs-se entre Ele e a multidão. Uma luz divina iluminou o rosto do Salvador, e uma como que pomba pairou sobre Ele. Em presença dessa divina glória, a turba assassina não pôde permanecer um momento. Cambalearam em recuo. Sacerdotes, anciãos, soldados e o próprio Judas caíram como mortos por terra.

O anjo retirou-se, e dissipou-se a luz. Jesus tivera oportunidade de escapar, mas permaneceu, calmo e senhor de Si. Como pessoa glorificada, ficou em meio daquele bando endurecido, agora prostrado e impotente a Seus pés. Os discípulos contemplavam tudo silenciosos, com admiração e respeitoso temor.

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Rapidamente, porém, mudou a cena. A turba ergueu-se. Os soldados romanos, os sacerdotes e Judas reuniram-se em redor de Cristo. Pareciam envergonhados de sua fraqueza, e receosos de que Ele ainda escapasse. Novamente fez o Redentor a pergunta: "A quem buscais?" Tinham tido a prova de que Aquele que Se achava diante deles era o Filho de Deus, mas não se queriam convencer. À pergunta: "A quem buscais?" tornaram a responder: "A Jesus Nazareno." O Salvador disse então: "Já vos disse que sou Eu; se pois Me buscais a Mim, deixai ir estes" (João 18:7 e 8) - e apontou aos discípulos. Sabia quão fraca era a fé deles, e buscou protegê-los contra a tentação e a prova. Por eles estava pronto a Se sacrificar.

Judas, o traidor, não esqueceu a parte que devia desempenhar. Quando a turba penetrou no horto, fora ele que a conduzira, seguido de perto pelo sumo sacerdote. Aos perseguidores de Jesus dera um sinal, dizendo: "O que eu beijar é esse; prendei-O." Mat. 26:48. Pretende então não ter parte nenhuma com eles. Achegando-se a Jesus, toma-Lhe a mão como um amigo familiar. Com as palavras:

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"Eu Te saúdo, Rabi", ele O beija repetidamente e parece chorar, como sentindo com Ele o perigo que corria.

Jesus lhe disse: "Amigo, a que vieste?" Mat. 26:50. A voz tremia-Lhe de dor, ao acrescentar: "Judas, com um beijo traís o Filho do homem?" Luc. 22:48. Esse apelo deveria ter despertado a consciência do traidor, e tocado seu obstinado coração; mas a honra, a fidelidade e a brandura humana o haviam abandonado. Permaneceu ousado e em desafio, não mostrando nenhuma disposição de abrandar-se. Entregara-se a Satanás, e não tinha poder para lhe resistir. Jesus não recusou o beijo do traidor.

A massa tornou-se ousada, ao ver Judas tocar a pessoa dAquele que tão pouco antes fora glorificado diante de seus olhos. Apoderaram-se, pois, de Jesus e começaram a atar aquelas preciosas mãos que sempre se haviam empregado em fazer bem.

Os discípulos haviam julgado que o Mestre não sofreria ser aprisionado. Pois o mesmo poder que fizera com que os da turba caíssem como mortos, mantê-los-ia impotentes até que Jesus e Seus companheiros escapassem. Ficaram decepcionados e indignados, ao verem as cordas trazidas para ligar as mãos dAquele a quem amavam. Em sua indignação, Pedro puxou precipitadamente da espada e procurou defender o Mestre, mas apenas cortou uma orelha do servo do sumo sacerdote. Quando Jesus viu o que fora feito, soltou as mãos - ainda que firmemente presas pelos soldados romanos - e dizendo: "Deixai-os; basta" (Luc. 22:51), tocou a orelha, e esta sarou instantaneamente. Disse então a Pedro: "Mete no seu lugar a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão. Ou pensas tu que Eu não poderia agora orar a Meu Pai, e que Ele não Me daria mais de doze legiões de anjos?" (Mat. 26:52 e 53) - uma legião em lugar de cada um dos discípulos. Oh! por que, pensaram os discípulos, não Se salva Ele a Si mesmo e a nós? Respondendo a seu pensamento não expresso, acrescentou: "Como pois se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?" Mat. 26:54. "Não beberei Eu o cálice que o Pai Me deu?"

A dignidade oficial dos guias judaicos não os impediu de se unirem à perseguição de Jesus. Sua prisão era coisa demasiado importante para ser confiada a subordinados; os astutos sacerdotes e anciãos se juntaram à polícia do templo e à plebe, para seguir Judas ao Getsêmani. Que companhia para aqueles dignitários se lhe unirem - uma turba ávida de excitação e armada com toda espécie de instrumentos, como para perseguir um animal selvagem!

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Voltando-se para os sacerdotes e anciãos, Cristo neles fixou o penetrante olhar. As palavras que Ele proferiu, jamais as esqueceriam, enquanto vivessem. Foram como setas agudas do Todo-poderoso. Com dignidade, disse: Saístes contra Mim como para um ladrão ou salteador, com espadas e varapaus. Todos os dias Me assentava, ensinando no templo. Tínheis oportunidade de deitar-Me as mãos, e nada fizestes. A noite é mais adequada para vossa obra. "Mas esta é a vossa hora e o poder das trevas." Luc. 22:53.

Os discípulos ficaram aterrorizados, ao ver que Jesus permitia que O prendessem e ligassem. Escandalizaram-se de que Ele suportasse essa humilhação, feita a Si e a eles. Não Lhe podiam entender a conduta, e censuraram-nO por Se submeter à turba. Em sua indignação e temor, Pedro propôs que se salvassem a si mesmos. Seguindo essa sugestão, "todos os discípulos, deixando-O, fugiram". Mas Cristo predissera essa deserção. "Eis que chega a hora", dissera, "e já se aproxima, em que vós sereis dispersos, cada um para sua parte, e Me deixareis só; mas não estou só, porque o Pai está comigo." João 16:32.

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Perante Anás e o Tribunal de Caifás

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Através do ribeiro de Cedrom, de hortos, olivais e das silenciosas ruas da cidade adormecida, levaram precipitadamente a Jesus. Passava de meia-noite, e os gritos de vaia da turba que O seguia, irrompiam, agudos, no silêncio do espaço. O Salvador estava manietado e vigiado de perto, e movia-Se dolorosamente. Em ansiosa pressa, porém, marchavam com Ele os que O haviam prendido, rumo ao palácio de Anás, ex-sumo sacerdote.

Anás era o líder da família sacerdotal em exercício, e, em deferência para com sua idade, era reconhecido pelo povo como sumo sacerdote. Buscava-se e cumpria-se seu conselho como a voz de Deus. Ele devia ver primeiro a Jesus, cativo do poder sacerdotal. Devia estar presente ao interrogatório do Prisioneiro, por temor de que o menos experimentado Caifás deixasse de assegurar o objetivo por que trabalhavam. Seu artifício, astúcia e sutileza deviam ser empregados nessa ocasião; pois a condenação de Cristo devia de qualquer maneira ser conseguida.

Cristo devia ser julgado formalmente perante o Sinédrio; mas perante Anás foi submetido a um julgamento preliminar. Sob o governo romano, o Sinédrio não podia executar a sentença de morte. Só podia interrogar um prisioneiro, e dar a sentença para ser ratificada pelas autoridades romanas. Era, portanto, preciso apresentar contra Cristo acusações que fossem consideradas criminosas

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pelos romanos. Também era preciso achar uma acusação que O condenasse aos olhos dos judeus. Não poucos entre os sacerdotes e príncipes ficaram convencidos, pelos ensinos de Cristo; unicamente o temor da excomunhão os impedira de confessá-Lo. Os sacerdotes bem se lembravam da pergunta de Nicodemos: "Porventura condena a nossa lei um homem sem primeiro o ouvir e ter conhecimento do que faz?" João 7:51. Essa pergunta interrompera na ocasião o conselho, e estorvara-lhes os planos. José de Arimatéia e Nicodemos não foram então chamados, mas havia outros que talvez ousassem falar em favor da justiça. O julgamento devia ser dirigido de maneira a unir contra Cristo os membros do Sinédrio. Duas acusações desejavam os sacerdotes manter. Se se pudesse provar que Jesus era blasfemo, seria condenado pelos judeus. Se culpado de sedição, isso garantiria a condenação por parte dos romanos. A segunda acusação procurou Anás estabelecer em primeiro lugar. Interrogou a Cristo quanto a Seus discípulos e Suas doutrinas, esperando que o Prisioneiro dissesse qualquer coisa que lhe fornecesse base para agir. Pensava tirar alguma declaração, provando que Ele estava procurando fundar uma sociedade secreta, com o intuito de estabelecer um novo reino. Então os sacerdotes O poderiam entregar aos romanos como perturbador da paz e cabeça de insurreição.

Cristo lia claramente os desígnios do sacerdote. Como se lesse no mais íntimo da alma do que O interrogava, negou que houvesse entre Ele e Seus seguidores qualquer união secreta, ou que os reunisse em segredo e nas trevas para ocultar Seus desígnios. Não tinha segredos quanto a Seus intuitos ou doutrinas. "Eu falei abertamente ao mundo", respondeu Ele; "Eu sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se ajuntam, e nada disse em oculto." João 18:20.

O Salvador punha em contraste Sua maneira de agir, com os métodos de Seus acusadores. Durante meses O perseguiram, procurando enlaçá-Lo e levá-Lo perante um tribunal secreto, onde poderiam obter por falso juramento o que era impossível conseguir por meios justos. Agora levavam a efeito seus desígnios. A prisão à meia-noite por meio de uma turba, as zombarias e maus-tratos antes de Ele ser condenado, ou sequer acusado, era a maneira de eles procederem, não a Sua. O ato que praticavam era uma violação da lei. Suas próprias leis declaravam que um homem devia ser tratado como inocente até se provar culpado. Em face de seus próprios regulamentos, eram os sacerdotes condenados.

Voltando-Se para aquele que O interrogava, disse Jesus: "Para que Me perguntas a Mim?" Não haviam os sacerdotes e príncipes enviado espias para Lhe observar os movimentos, e relatar

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cada palavra Sua? Não estiveram estes presentes em todas as reuniões do povo, levando aos sacerdotes informações de tudo quanto fazia e dizia? "Pergunta aos que ouviram o que é que lhes ensinei", replicou Jesus; "eis que eles sabem o que Eu lhes tenho dito." João 18:21.

Anás emudeceu diante da firmeza da resposta. Temendo que Jesus fizesse alguma alusão a seu procedimento, que ele preferia manter encoberto, nada mais Lhe disse nesse momento. Um de seus servidores, cheio de indignação ao ver Anás calar-se, bateu no rosto de Jesus, dizendo: "Assim respondes ao sumo sacerdote?"

Cristo replicou calmamente: "Se falei mal, dá testemunho do mal; e, se bem, por que Me feres?" João 18:22 e 23. Não proferiu ardentes palavras de represália. Sua calma resposta proveio de um coração imaculado, paciente e brando, que não se irritava.

Cristo sofria vivamente sob maus-tratos e insultos. Nas mãos dos seres que criara, e pelos quais estava fazendo imenso sacrifício, recebeu toda espécie de opróbrios. E sofreu proporcionalmente à perfeição de Sua santidade e ao Seu ódio pelo pecado. Seu julgamento por homens que agiam como demônios era-Lhe um sacrifício sem fim. Achar-Se rodeado de criaturas humanas sob o domínio de Satanás, era-Lhe revoltante. E sabia que, num momento, por uma irradiação súbita de Seu divino poder, poderia reduzir a pó Seus cruéis atormentadores. Isso tornava a provação mais dura de sofrer.

Os judeus aguardavam um Messias que Se revelasse com demonstrações exteriores. Esperavam que Ele, por um raio de avassaladora vontade, mudasse a corrente dos pensamentos dos homens, forçando-os a reconhecer-Lhe a supremacia. Assim, acreditavam, devia Ele firmar a própria exaltação e satisfazer suas ambiciosas esperanças. Assim, quando Cristo era tratado com desprezo, sobrevinha-Lhe forte tentação de manifestar Seu caráter divino. Por uma palavra, um olhar, poderia compelir os perseguidores a confessar que era Senhor sobre reis e príncipes, sacerdotes e templo. Mas cumpria-Lhe a difícil tarefa de ater-Se à posição que escolhera como sendo um com a humanidade.

Os anjos do Céu testemunhavam todo movimento contra Seu amado Comandante. Ansiavam por libertar Cristo. Sob a direção divina os anjos são todo-poderosos. Uma ocasião, em obediência à ordem de Cristo mataram numa noite cento e oitenta e cinco mil homens do exército assírio. Quão facilmente poderiam os anjos, que contemplavam a vergonhosa cena do julgamento de Cristo, haver demonstrado sua indignação consumindo os adversários de Deus! Mas não eram mandados fazer isso. Aquele que poderia haver condenado Seus inimigos à morte, sofreu-lhes a

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crueldade. O amor para com o Pai, Seu compromisso, assumido desde a fundação do mundo, de tomar sobre Si o pecado, levaram-nO a suportar sem um queixume o rude tratamento daqueles que viera salvar. Era parte de Sua missão sofrer, em Sua humanidade, todos os motejos e abusos que sobre Ele fossem acumulados. A única esperança do homem residia nessa submissão de Cristo a tudo quando pudesse sofrer das mãos e do coração humano.

Nada dissera Cristo que pudesse dar ganho de causa a Seus acusadores; todavia, ligaram-nO, para significar que estava condenado. Cumpria, no entanto, haver uma simulação de justiça. Era necessário que houvesse a forma de um julgamento legal. Este as autoridades estavam decididas a apressar. Sabiam a consideração em que Jesus era tido pelo povo, e temiam que, fosse a prisão divulgada, talvez tentassem o libertamento. E ainda, se o julgamento e a execução não fossem efetuados imediatamente, haveria uma semana de adiamento em virtude da celebração da páscoa. Isso poderia frustrar-lhes os planos. Para assegurar a condenação de Jesus, muito dependiam do clamor da turba, composta em grande parte da escória de Jerusalém. Houvesse uma semana de delonga, e enfraqueceria a agitação, sendo possível surgir uma reação. A melhor parte do povo seria levantada a favor de Cristo; muitos se apresentariam com testemunhos em prol de Sua reivindicação, expondo as poderosas obras que fizera. Isso incitaria a indignação popular contra o Sinédrio. Seus processos seriam condenados, e Jesus posto em liberdade, para receber novas homenagens das multidões. Os sacerdotes e príncipes resolveram, pois, que, antes de seus desígnios serem conhecidos, Jesus fosse entregue nas mãos dos romanos.

Antes de tudo, porém, era preciso encontrar uma acusação. Até então nada haviam conseguido. Anás ordenou que Jesus fosse conduzido a Caifás. Este pertencia aos saduceus, alguns dos quais eram agora os mais furiosos inimigos de Jesus. Ele próprio, conquanto lhe faltasse força de caráter, era positivamente tão severo, sem coração e inescrupuloso como Anás. Não haveria meios que não empregasse para destruir a Jesus. Era então de manhã bem cedo, ainda muito escuro; à luz de tochas e lanternas, o armado bando, com o Prisioneiro, pôs-se a caminho para o palácio do sumo sacerdote. Ali, enquanto se reuniam os membros do Sinédrio, Anás e Caifás tornaram a interrogar Jesus, mas sem êxito.

Quando o conselho se ajuntara no tribunal, Caifás tomou seu lugar como presidente. De ambos os lados se achavam os juízes, e os que eram especialmente interessados no julgamento. Os soldados romanos estavam postados na plataforma abaixo do trono.

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Aos pés do mesmo, achava-Se Jesus. Sobre Ele se fixavam os olhares de toda a multidão. Intensa era a agitação. Ele só dentre a multidão estava calmo e sereno. A própria atmosfera que O rodeava parecia impregnada de santa influência.

Caifás considerava Jesus como rival. A ansiedade do povo por ouvir o Salvador, e sua aparente prontidão para Lhe aceitar os ensinos, suscitaram os terríveis ciúmes do sumo sacerdote. Contemplando agora, porém, o Prisioneiro, ele foi tomado de admiração pela nobreza e dignidade de Seu porte. Sobreveio-lhe a convicção de que esse homem tinha parentesco divino. Logo a seguir baniu desdenhosamente essa idéia. Sua voz se fez ouvir imediatamente

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em tons zombeteiros e altivos, exigindo que Jesus operasse diante deles um de Seus poderosos milagres. Mas suas palavras caíram aos ouvidos do Salvador como se as não tivera escutado. O povo comparava a conduta desperta e maligna de Anás e Caifás com a serena, majestosa atitude de Jesus. No próprio espírito daquela endurecida multidão, surgiu a pergunta: Terá esse homem de aspecto divino que ser condenado como criminoso?

Percebendo a influência que se estava exercendo, Caifás apressou o julgamento. Os inimigos de Jesus achavam-se em grande perplexidade. Estavam resolvidos a firmar Sua condenação, mas como consegui-lo, não o sabiam. Os membros do conselho estavam divididos entre fariseus e saduceus. Renhida animosidade e contenda reinava entre eles; não ousavam abordar certos pontos disputados, por temor de briga. Com poucas palavras poderia Cristo haver despertado os preconceitos de uns contra os outros, e teria assim desviado de Si a ira deles. Bem o sabia Caifás, e desejava evitar uma contenda. Havia numerosas testemunhas para provar que Cristo acusara os sacerdotes e escribas, que lhes chamara hipócritas e homicidas; mas esse testemunho, não era conveniente apresentar. Em suas cortantes disputas contra os fariseus, haviam-se os saduceus servido de idêntica linguagem. E tal testemunho não teria nenhuma força diante dos romanos, que estavam eles mesmos desgostosos com as pretensões dos fariseus. Havia abundantes provas de que Jesus desprezara a tradição dos judeus, e falara irreverentemente de muitas de suas ordenanças; mas quanto às tradições, fariseus e saduceus estavam de arma em riste entre si; e também essa prova nenhum peso teria quanto aos romanos. Os inimigos de Cristo não ousavam acusá-Lo de transgressor do sábado, para que um exame não revelasse o caráter de Sua obra. Fossem Seus milagres de cura trazidos à luz, e estaria derrotado o objetivo dos sacerdotes.

Subornaram-se falsas testemunhas para acusarem a Jesus de incitar rebelião e buscar estabelecer um governo separado. Mas seus testemunhos se demonstraram vagos e contraditórios. Ao serem interrogados, falsearam suas próprias declarações.

No princípio de Seu ministério, dissera Cristo: "Derribai este templo, e em três dias o levantarei." Na figurada linguagem da profecia, predissera assim Sua própria morte e ressurreição. "Ele falava do templo de Seu corpo." João 2:19 e 21. Essas palavras compreenderam os judeus em seu sentido literal, como se referindo ao templo de Jerusalém. De tudo quanto Cristo dissera, não podiam os sacerdotes encontrar nada de que se servir contra Ele, a não ser

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isso. Torcendo essas palavras, esperavam tomar vantagem. Os romanos tinham-se empenhado em reconstruir e embelezar o templo, e dele muito se orgulhavam; qualquer desprezo a ele manifestado, incitar-lhes-ia certamente a indignação. Nisso tanto romanos como judeus, fariseus e saduceus estavam em harmonia; pois todos tinham o templo em grande veneração. A esse respeito, encontraram-se duas testemunhas cuja declaração não era contraditória como as das outras. Uma delas, que fora subornada para acusar Jesus, declarou: "Este disse: Eu posso derribar o templo de Deus e reedificá-lo em três dias." Assim eram desfiguradas as palavras de Cristo. Se fossem relatadas tais quais Ele as proferira, não teriam eles conseguido Sua condenação, nem mesmo por meio do Sinédrio. Fosse Jesus um simples homem, como os judeus pretendiam, Sua declaração haveria apenas indicado um espírito irrazoável, jactancioso, mas não poderia ter sido considerada blasfêmia. Mesmo torcidas pelas falsas testemunhas, essas palavras nada continham que pudesse ser olhado pelos romanos como crime digno de morte.

Pacientemente escutava Jesus os contraditórios testemunhos. Nem uma palavra proferia em defesa própria. Por fim os acusadores viram-se emaranhados, confusos e enfurecidos. O julgamento não avançava: dir-se-ia que suas tramas iam fracassar. Caifás estava desesperado. Restava um único recurso; Cristo devia ser forçado a Se condenar a Si mesmo. O sumo sacerdote ergueu-se da cadeira de juiz, fisionomia transtornada pela paixão, indicando pela voz e as maneiras que, estivesse em seu poder, e abateria o Preso que se achava diante dele. "Não respondes coisa alguma ao que estes depõem contra Ti?" (Mat. 26:62) exclamou.

Jesus guardou silêncio. "Ele foi oprimido, mas não abriu a Sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e, como a ovelha muda perante os Seus tosquiadores, Ele não abriu a Sua boca." Isa. 53:7.

Por fim Caifás, erguendo para o Céu a mão direita, dirigiu-se a Jesus na forma de um solene juramento: "Conjuro-Te pelo Deus vivo que nos digas se Tu és o Cristo, o Filho de Deus." Mat. 26:63.

Em face deste apelo não podia Cristo permanecer silencioso. Havia tempo de ficar mudo e tempo de falar. Não falara antes que fosse diretamente interrogado. Sabia que responder agora era tornar certa Sua morte. Mas o apelo era feito pela mais alta autoridade reconhecida da nação, e em nome do Altíssimo. Cristo não deixaria de mostrar o devido respeito pela lei. Mais ainda, Sua própria relação para com o Pai era invocada. Precisa declarar plenamente Seu caráter e missão. Dissera aos discípulos:

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"Qualquer que Me confessar diante dos homens, Eu o confessarei diante de Meu Pai, que está nos Céus." Mat. 10:32. Agora, pelo próprio exemplo, repetiu a lição.

Todos os ouvidos se inclinaram para escutar, e todos os olhos se fixaram em Seu rosto, ao responder: "Tu o disseste." Uma luz celeste parecia iluminar-Lhe o pálido semblante, ao acrescentar: "Digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu." Mat. 26:64.

Por um momento a divindade de Cristo irrompeu através do invólucro humano. O sumo sacerdote recuou diante do penetrante olhar do Salvador. Aquele olhar parecia ler-lhe os pensamentos ocultos, e arder-lhe no coração. Nunca, no resto de sua vida, esqueceu aquele perscrutador olhar do perseguido Filho de Deus.

"Vereis em breve", disse Jesus, "o Filho do homem assentado

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à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu." Nessas palavras, apresentou Cristo o reverso da cena que então ocorria. Ele, o Senhor da vida e da glória, estaria sentado à destra de Deus. Seria o juiz de toda a Terra, e de Suas decisões não haveria apelação. Então tudo que estava oculto seria trazido à luz da presença divina, e o juízo feito sobre cada homem segundo as suas obras.

As palavras de Cristo sobressaltaram o sumo sacerdote. A idéia de que haveria uma ressurreição de mortos, quando todos se achariam diante do tribunal de Deus, para ser recompensados segundo as suas obras, era um pensamento aterrador para Caifás. Ele não desejava crer que, no futuro, receberia sentença segundo as suas ações. Acudiram-lhe à mente, como um panorama, as cenas do juízo final. Por um momento viu o terrível espetáculo das sepulturas dando os seus mortos, com os segredos que eles esperavam estarem para sempre ocultos. Sentiu-se por um momento como à presença do eterno Juiz, cujo olhar, que vê todas as coisas, estava a ler-lhe a alma, trazendo à luz mistérios que supunha ocultos com os mortos.

A cena desapareceu da visão do sacerdote. As palavras de Cristo o espicaçavam vivamente, a ele, o saduceu. Caifás negara a doutrina da ressurreição, do juízo e da vida futura. Ficou então enlouquecido por uma fúria satânica. Esse Homem, um preso diante dele, havia de atacar suas mais acariciadas teorias? Rasgando os vestidos, para que o povo visse o pretenso horror que experimentava, exigiu que, sem posteriores preliminares, fosse o Preso condenado por blasfêmia. "Para que precisamos ainda de testemunhas?" disse ele; "Eis que bem ouvistes agora a Sua blasfêmia. Que vos parece?" Mat. 26:65 e 66. E todos O condenaram.

A convicção, de mistura com a paixão, levou Caifás a agir como fez. Estava furioso consigo mesmo por crer nas palavras de Cristo e, em lugar de rasgar o coração sob um profundo sentimento da verdade e confessar ser Jesus o Messias, rasgou as vestes sacerdotais, em decidida resistência. Esse ato era de profunda significação. Mal compreendia Caifás o seu sentido. Nesse ato, realizado para influenciar os juízes e garantir a condenação de Cristo, condenara-se o sumo sacerdote a si mesmo. Pela lei divina estava desqualificado para o sacerdócio. Proferira sobre si mesmo a sentença de morte.

O sumo sacerdote não devia rasgar as vestes. Pela lei levítica, isto era proibido sob pena de morte. Em circunstância alguma, em nenhuma ocasião, devia o sacerdote rasgar os vestidos. Era costume entre os judeus rasgar as vestes por morte de amigos,

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mas esse costume não deviam os sacerdotes observar. Por Cristo fora dada a Moisés ordem expressa sobre isto. Lev. 10:6.

Tudo que era usado pelo sacerdote devia ser de uma só peça, e isento de defeito. Por aquelas belas vestes oficiais estava representado o caráter do grande protótipo, Jesus Cristo. Nada senão a perfeição, no vestuário e na atitude, na palavra e no espírito, podia ser aceitável a Deus. Ele é santo, e Sua glória e perfeição devem ser representadas pelo serviço terrestre. Coisa alguma senão a perfeição poderia representar devidamente a santidade do serviço celestial. Os homens finitos poderiam rasgar o próprio coração, mostrando espírito arrependido e humilde. Isso seria distinguido por Deus. Mas nenhum rasgão deveria ser feito no vestido sacerdotal, pois isso mancharia a representação das coisas celestiais. O sumo sacerdote que ousasse apresentar-se em sagrado ofício e empenhar-se no serviço do santuário, com as vestes rasgadas, era considerado como se tendo separado de Deus. Rasgando-as, excluíra a si mesmo de ser um personagem representativo. Não mais era aceito por Deus como sacerdote, em ofício. Essa maneira de agir de Caifás mostrava a paixão humana, a humana imperfeição.

Rasgando as vestes, tornou Caifás de nenhum efeito a lei divina, para seguir a tradição dos homens. Uma lei de feitura humana estipulava que, em caso de blasfêmia, podia o sacerdote rasgar o vestido em horror pelo pecado, e ficar sem culpa. Assim era a lei divina anulada pelas dos homens.

Cada ato do sumo sacerdote era observado com interesse pelo povo; e Caifás pensou causar efeito exibindo sua piedade. Nesse ato, porém, destinado a servir de acusação a Cristo, estava ultrajando Aquele de quem Deus dissera: "O Meu nome está nEle." Êxo. 23:21. Ele próprio estava blasfemando. Achando-se sob a condenação de Deus, proferiu sentença contra Cristo como blasfemo.

Quando Caifás rasgou as vestes, esse ato significou o lugar que, para com Deus, os judeus ocupariam daí em diante, como nação. O povo outrora favorecido por Deus estava-se separando dEle, e se tornando rapidamente um povo rejeitado por Deus. Quando, sobre a cruz, Cristo exclamou: "Está consumado" (João 19:30), e o véu do templo se rasgou em dois, o Santo Vigia declarou que o povo judeu rejeitara Aquele que era o protótipo de todos os seus tipos, a substância de todas as suas sombras. Israel se divorciara de Deus. Bem podia então Caifás rasgar as vestes oficiais, que indicavam pretender ele ser representante do grande Sumo Sacerdote; pois não mais tinham elas qualquer significação para ele ou para o povo. Bem podia o sumo sacerdote rasgar as vestes em horror por si mesmo e pela nação.

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O Sinédrio declarara Jesus digno de morte; mas era contrário à nação judaica julgar um preso de noite. Numa condenação legal, coisa alguma se poderia fazer senão à luz do dia, e em plena sessão do conselho. Não obstante, o Salvador foi tratado então como criminoso condenado, e entregue para ser maltratado pelos mais baixos e vis da espécie humana. O palácio do sumo sacerdote circundava um pátio aberto, onde se haviam reunido os soldados e a multidão. Através desse pátio foi Jesus levado para a sala da guarda, encontrando de todo lado zombarias por Sua declaração de ser o Filho de Deus. Suas próprias palavras: "assentado à direita do Poder", "vindo sobre as nuvens do céu" (Mat. 26:64), eram escarnecedoramente repetidas. Enquanto Se achava na sala da guarda, esperando Seu julgamento legal, não foi protegido. A plebe ignorante vira a crueldade com que Ele fora tratado perante o concílio, aproveitando-se assim para manifestar todos os satânicos elementos de sua natureza. A própria nobreza e divindade de Cristo os provocara à fúria. Sua mansidão, inocência e paciência majestosas enchiam-nos de um ódio de satânica origem. A misericórdia e a justiça foram calcadas a pés. Nunca foi um criminoso tratado tão desumanamente como o foi o Filho de Deus.

Mais viva angústia, no entanto, dilacerou o coração de Jesus; o golpe que mais profunda dor Lhe infligiu, não o poderia vibrar mão alguma inimiga. Enquanto Ele suportava, perante Caifás, a farsa de um julgamento, fora negado por um dos discípulos.

Depois de abandonarem o Mestre no horto, dois dos discípulos ousaram seguir, a distância, a turba que levara Jesus preso. Esses discípulos eram Pedro e João. Os sacerdotes reconheceram João como bem conhecido discípulo de Jesus, e deram-lhe entrada na sala, esperando que, ao testemunhar a humilhação de seu guia, desdenharia ele a idéia de ser uma pessoa assim o Filho de Deus. João falou em favor de Pedro, conseguindo entrada para ele também.

No pátio fora feito um fogo; pois era a hora mais fria da noite, mesmo antes do amanhecer. Um grupo estava reunido perto do fogo, e Pedro tomou presunçosamente lugar no mesmo. Não desejava ser reconhecido como discípulo de Cristo. Misturando-se descuidosamente com a multidão, esperava ser tomado por algum dos que levaram Jesus para a sala.

Ao incidir, porém, a luz no rosto de Pedro, a porteira lançou-lhe um penetrante olhar. Notara que ele tinha entrado com João, observara-lhe na fisionomia o abatimento e pensou que poderia

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ser um discípulo de Cristo. Ela era uma das servas da casa de Caifás, e estava curiosa. Disse a Pedro: "Não és também um dos Seus discípulos?" Pedro sobressaltou-se e ficou confuso; instantaneamente se fixaram nele os olhares do grupo. Fingiu não a compreender, mas ela insistiu e disse aos que a rodeavam que esse homem estava com Jesus. Pedro sentiu-se forçado a replicar e disse, zangado: "Mulher, não O conheço." Luc. 22:57. Foi a primeira negação, e imediatamente o galo cantou.

Ó! Pedro tão depressa envergonhado de teu Mestre! tão pronto a negar a teu Senhor!

O discípulo João, entrando na sala do julgamento, não buscou ocultar ser seguidor de Jesus. Não se misturou com o rude grupo que estava injuriando o Mestre. Não foi interrogado; pois não assumiu um falso caráter, tornando-se assim objeto de suspeita. Procurou um canto retirado, ao abrigo dos olhares da multidão,

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mas o mais próximo possível de Jesus. Ali podia ver e ouvir tudo que ocorresse no julgamento de seu Senhor.

Pedro não pretendia dar a conhecer sua verdadeira identidade. Ao assumir ar de indiferença, colocara-se no terreno do inimigo, tornando-se fácil presa da tentação. Houvesse ele sido chamado a combater por seu Mestre, e teria sido um corajoso soldado; ao ser, porém, apontado pelo dedo do escárnio, demonstrou-se covarde. Muitos que não recuam diante da luta ativa por seu Senhor, são, em face do ridículo, levados a negar sua fé. Associando-se com aqueles a quem deviam evitar, colocam-se no caminho da tentação. Convidam o inimigo a tentá-los, e são levados a dizer e fazer coisas de que, sob outras circunstâncias, nunca se tornariam culpados. O discípulo de Cristo que, em nossos dias, disfarça sua fé por temor de sofrimento ou ignomínia, nega a seu Senhor tão realmente como o fez Pedro na sala do julgamento.

Pedro procurou não manifestar interesse no julgamento do Mestre, mas tinha o coração confrangido de dor ao ouvir as cruéis zombarias e ver os maus-tratos que Ele estava sofrendo. Mais ainda, estava surpreendido e irritado de que Jesus assim Se humilhasse a Si e a Seus seguidores, submetendo-Se a esse tratamento. A fim de ocultar o que na verdade sentia, procurou unir-se aos perseguidores de Jesus em seus intempestivos gracejos. Seu aspecto, no entanto, não era natural. Estava representando uma mentira, e conquanto procurasse falar despreocupadamente, não podia suster expressões de indignação ante os abusos acumulados contra o Mestre.

Pela segunda vez foi a atenção chamada para ele, sendo novamente acusado de ser seguidor de Jesus. Declarou então, com juramento: "Não conheço tal homem." Outra oportunidade lhe foi dada ainda. Passara-se uma hora, quando um dos servos do sumo sacerdote, sendo parente próximo do homem cuja orelha Pedro cortara, lhe perguntou: "Não te vi eu no horto com Ele?" "Também este verdadeiramente estava com Ele, pois também é galileu." "Tua fala te denuncia." Diante disso Pedro se exaltou. Os discípulos de Jesus eram notados pela pureza da linguagem, e para enganar bem a seus interlocutores e justificar o aspecto que assumira, Pedro negou então ao Mestre com imprecação e juramento. Novamente o galo cantou. Pedro o ouviu então e lembrou as palavras de Jesus: "Antes que o galo cante duas vezes, três vezes Me negarás." Mar. 14:30.

Quando os degradantes juramentos acabavam de sair dos lábios de Pedro e o penetrante canto do galo lhe ressoava ainda

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no ouvido, o Salvador voltou-Se dos severos juízes, olhando em cheio ao pobre discípulo. Ao mesmo tempo os olhos de Pedro eram atraídos para o Mestre. Naquele suave semblante leu ele profunda piedade e tristeza; nenhuma irritação, porém, se via ali.

A vista daquele rosto pálido e sofredor, daqueles trêmulos lábios, daquele olhar compassivo e cheio de perdão, penetrou-lhe a alma como uma seta. Despertou-se a consciência. Ativou-se a memória. Pedro recordou sua promessa de poucas horas antes, de que havia de ir com seu Senhor à prisão e à morte. Lembrou-se de seu desgosto quando, no cenáculo, Ele lhe dissera que havia de negar seu Senhor três vezes naquela noite. Pedro acabava mesmo de declarar que não conhecia a Jesus, mas compreendia agora com amarga dor quão bem o Senhor o conhecia e quão exatamente lhe lera o coração, cuja falsidade nem ele próprio conhecia.

Acudiram-lhe recordações em tropel. A terna misericórdia do Salvador, Sua bondade e longanimidade, Sua brandura e paciência para com os errantes discípulos - tudo lhe veio à memória. Lembrou a advertência: "Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça." Luc. 23:31 e 32. Refletiu com horror em sua própria ingratidão, falsidade, perjúrio. Olhou uma vez mais para o Mestre, e viu sacrílega mão levantada para Lhe bater na face. Incapaz de suportar por mais tempo a cena, precipitou-se, coração quebrantado, para fora da sala.

E avançou, pela solidão e a treva, sem saber nem cuidar para onde. Encontrou-se, enfim, no Getsêmani. A cena de poucas horas antes acudiu-lhe vivamente à memória. O rosto sofredor de Jesus, manchado de sanguinolento suor e convulsionado pela agonia, surgiu diante dele. Lembrou-se com atroz remorso que Ele chorara e Se angustiara sozinho em oração, ao passo que os que se Lhe deviam ter unido naquela probante hora estavam adormecidos. Lembrou-Lhe a solene recomendação: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação." Mat. 26:41. Testemunhou novamente a cena na sala do julgamento. Foi-lhe tortura ao coração a sangrar, saber que ajuntara o maior peso à humilhação e pesar do Salvador. No próprio lugar em que Jesus derramara a alma em agonia perante o Pai, Pedro caiu sobre o rosto e desejou morrer.

Fora por dormir quando Jesus lhe recomendara vigiar e orar, que Pedro preparara o caminho para seu grande pecado. Todos os discípulos, dormindo na hora crítica, sofreram grande dano.

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Cristo sabia a cruel prova por que eles haviam de passar. Sabia como Satanás havia de agir para lhes paralisar os sentidos, a fim de se acharem desapercebidos para a prova. Fora por isso que lhes dera aviso. Houvessem aquelas horas no horto sido passadas em vigília e oração, e Pedro não teria ficado dependente de suas débeis forças. Não teria negado a seu Senhor. Houvessem os discípulos velado com Cristo em Sua agonia, e estariam preparados para Lhe contemplar os sofrimentos na cruz. Teriam compreendido, até certo ponto, a natureza de Sua avassaladora angústia. Teriam podido recordar-Lhe as palavras predizendo os sofrimentos, a morte e a ressurreição. Entre as sombras da mais probante hora, alguns raios de esperança teriam aclarado as trevas e lhes sustido a fé.

Assim que se fez dia, o Sinédrio tornou a reunir-se, e outra vez foi Jesus levado à sala do conselho. Declarara-Se Filho de Deus, e tinham feito Suas palavras uma acusação contra Ele. Mas não O podiam condenar por isso, pois muitos deles não se achavam presentes à sessão da noite, e não Lhe tinham ouvido as palavras. E sabiam que o tribunal romano não veria nelas coisa alguma digna de morte. Mas se eles todos Lhe pudessem ouvir dos próprios lábios repetidas aquelas palavras, talvez conseguissem seu objetivo. Sua reivindicação ao messiado, poderiam interpretar como pretensão política, sediciosa.

"És Tu o Cristo?" perguntaram, "dize-no-lo." Mas Cristo permaneceu silencioso. Continuaram a importuná-Lo com perguntas. Por fim, com doloroso, comovedor acento, respondeu: "Se vo-lo disser, não o crereis; e também, se vos perguntar não Me respondereis, nem Me soltareis." Mas para que ficassem sem desculpa, ajuntou a solene advertência: "Desde agora o Filho do homem Se assentará à direita do poder de Deus."

"Logo, és Tu o Filho de Deus?" perguntaram todos a uma voz. Disse-lhes Ele: "Vós dizeis que Eu sou." Exclamaram: "De que mais testemunho necessitamos? pois nós mesmos o ouvimos de Sua boca." Luc. 22:67-71.

E assim, pela terceira condenação das autoridades judaicas, Jesus devia morrer. Tudo quanto se fazia então necessário, pensavam, era que os romanos ratificassem a condenação, e Lho entregassem nas mãos.

Ocorreu então a terceira cena de maus-tratos e zombaria, pior ainda do que a que fora recebida da plebe ignorante. Fez-se isso na própria presença dos sacerdotes e principais, e com a sanção deles. Todo sentimento de simpatia humana lhes desaparecera

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do coração. Se eram francos os seus argumentos e não Lhe conseguiam abafar a voz, tinham outras armas, as mesmas usadas em todos os séculos para fazer calar os hereges - sofrimentos, violência e morte.

Ao ser proferida pelos juízes a condenação de Jesus, uma fúria satânica apoderou-se do povo. Os gritos assemelhavam-se ao rugido de feras. A multidão precipitou-se para Jesus, bradando: É culpado, seja morto! Não fossem os soldados romanos, e Jesus não teria vivido para ser pregado na cruz do Calvário. Teria sido despedaçado perante os juízes, não houvesse a autoridade romana interferido, restringindo, pela força das armas, a violência da turba.

Pagãos indignaram-se ante o brutal tratamento infligido a uma pessoa contra quem coisa alguma fora provada. Os oficiais romanos declararam que os judeus, sentenciando a Jesus, estavam infringindo o poder romano, e que era mesmo contra a lei judaica condenar um homem sobre seu próprio testemunho. Essa intervenção produziu momentâneo amainar nos acontecimentos; mas os guias judeus estavam mortos tanto para a piedade como para a vergonha.

Os sacerdotes e os principais esqueceram a dignidade de seu cargo, e maltrataram o Filho de Deus com vis epítetos. Escarneceram dEle por causa de Sua filiação. Declararam que Sua presunção em Se proclamar o Messias, tornava-O merecedor da mais ignominiosa morte. Os mais dissolutos homens empenharam-se em infames maus-tratos contra o Salvador. Foi-Lhe jogado à cabeça um pano velho, e Seus perseguidores batiam-Lhe no rosto, dizendo: "Profetiza-nos, Cristo, quem é o que Te bateu?" Luc. 22:64. Ao ser tirado o pano, um pobre infeliz cuspiu-Lhe no rosto.

Os anjos de Deus registraram fielmente todo insultuoso olhar, palavra e ato contra seu bem-amado Comandante. Um dia, os homens vis que zombaram de Cristo e Lhe cuspiram no pálido e sereno rosto, hão de vê-Lo em Sua glória, resplandecendo mais brilhante que o Sol.

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Judas

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A história de Judas apresenta o triste fim de uma vida que poderia ter sido honrada por Deus. Houvesse Judas morrido antes de sua última viagem a Jerusalém, e teria sido considerado digno de um lugar entre os doze, e cuja falta muito se faria sentir. A aversão que o tem acompanhado através dos séculos não teria existido, não fossem os atributos revelados ao fim de sua história. Havia, porém, um desígnio em ser seu caráter exposto perante o mundo. Seria uma advertência para todos quantos, como ele, traíssem sagrados depósitos.

Pouco antes da páscoa, Judas renovara seu trato com os sacerdotes para entregar Jesus. Combinou-se então que o Salvador fosse aprisionado, imediatamente, no retiro aonde costumava ir para orar e meditar. Desde a festa em casa de Simão tivera Judas oportunidade de refletir no ato que concordara praticar, mas seu propósito ficou imutável. Por trinta moedas de prata - o preço de um escravo - vendeu o Senhor da glória para a ignomínia e a morte.

Judas tinha naturalmente grande amor ao dinheiro; mas não fora sempre bastante corrupto para praticar um ato como esse. Alimentara o mau espírito de avareza até que se lhe tornara o motivo dominante na vida. O amor de Mamom sobrepujara o amor de Cristo. Tornando-se escravo de um vício, entregou-se a Satanás, para ser impelido a toda extensão do pecado.

Judas unira-se aos discípulos, quando as multidões seguiam a Cristo. Os ensinos do Salvador lhes tocavam o coração enquanto, suspensos de Seus lábios, escutavam o que dizia na sinagoga, à margem do lago, sobre o monte. Judas via os doentes, os coxos,

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os cegos aglomerarem-se em torno de Jesus, vindos de aldeias e cidades. Via os moribundos que Lhe depunham aos pés. Testemunhava as poderosas obras do Salvador, na cura dos enfermos, na expulsão de demônios, na ressurreição de mortos. Experimentava em si mesmo o testemunho do poder de Cristo. Reconhecia serem Seus ensinos superiores a tudo quanto ouvira anteriormente. Amava o grande Mestre, e anelava estar com Ele. Tivera desejo de ser transformado no caráter e na vida, e esperava experimentar isso mediante sua ligação com Jesus. O Salvador não repelira Judas. Dera-lhe lugar entre os doze. Confiou-lhe a obra de evangelista. Dotou-o de poder para curar os doentes e expulsar os demônios. Mas Judas não chegou ao ponto de render-se inteiramente a Cristo. Não renunciou as suas ambições terrenas, nem a Seu amor ao dinheiro. Ao passo que aceitava a posição de ministro de Cristo, não se colocou no divino molde. Achava que podia reter seus próprios juízos e opiniões, e cultivou a disposição de criticar e acusar.

Judas era altamente considerado pelos discípulos, e exercia sobre eles grande influência. Tinha em elevada estima as próprias aptidões, e considerava seus irmãos como muito inferiores a si, no discernimento e na capacidade. Não viam suas oportunidades, pensava, nem se aproveitavam das circunstâncias. A igreja nunca prosperaria tendo como guias homens de vistas assim curtas. Pedro era impetuoso; agia sem consideração. João, que entesourava as verdades caídas dos lábios de Cristo, era olhado por Judas como um fraco financista. Mateus, cujo preparo lhe ensinara a ser exato em tudo, era tão meticuloso em questões de honestidade e estava sempre pensando nas palavras de Cristo, absorvendo-se com elas por tal forma que, segundo o juízo de Judas, não era de confiar que fosse capaz de agir com argúcia e vasto alcance nos negócios. Assim passava Judas em revista todos os discípulos, e lisonjeava-se de que a igreja se veria muitas vezes em perplexidades e apuros, não fora sua habilidade como administrador. Considerava-se o capaz, o inexcedível. Era, em sua própria estima, uma honra para a causa, e como tal se apresentava sempre.

Judas estava cego para a fraqueza de seu caráter, e Cristo o colocou onde pudesse ter oportunidade de ver e corrigir isso. Como tesoureiro dos discípulos, era chamado a providenciar quanto às pequeninas necessidades do grupozinho, e a suprir as faltas dos pobres. Quando, no cenáculo, Jesus lhe disse: "O que fazes, fá-lo depressa" (João 13:27), pensaram os discípulos que Ele lhe pedira que

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comprasse o que era preciso para a festa, ou que desse qualquer coisa aos pobres. Servindo aos outros, Judas poderia haver desenvolvido espírito abnegado. Mas ao passo que ouvia diariamente as lições de Cristo e Lhe testemunhava a vida isenta de egoísmo, Judas condescendia com sua disposição cobiçosa. As pequenas quantias que lhe chegavam às mãos eram uma tentação contínua. Muitas vezes, ao prestar qualquer serviçozinho a Cristo, ou dedicar tempo a fins religiosos, remunerava-se à custa desses poucos fundos. Esses pretextos serviam a seus olhos de escusa para a ação que praticava; perante Deus, porém, era ladrão.

A tantas vezes repetida declaração de Cristo de que Seu reino não era deste mundo, irritava Judas. Estabelecera um limite de espera à obra de Jesus. Em seus cálculos, João Batista devia ser libertado da prisão. Mas eis que foi permitido ser ele degolado. E Jesus, em vez de afirmar seu direito real e vingar a morte de João, retirou-Se com os discípulos para um lugar no campo. Judas queria uma luta mais agressiva. Pensava que, se Jesus não impedisse os discípulos de executar os próprios planos, a obra seria mais bem-sucedida. Observava a crescente inimizade dos guias judaicos, e viu seus desafios desprezados quando pediram a Cristo um sinal do Céu. Abriu-se-lhe o coração à incredulidade, e o inimigo forneceu pensamentos de dúvida e rebelião. Por que Jesus Se demorava tanto em coisas desanimadoras? Por que predizia provas e perseguições para Si mesmo e para os discípulos? A perspectiva de um lugar de honra levara Judas a desposar a causa de Cristo. Viriam suas esperanças a ser decepcionadas? Judas não chegara à conclusão de que Jesus não fosse o Filho de Deus; mas estava duvidando e procurando alguma explicação para Suas poderosas obras.

Não obstante os próprios ensinos do Salvador, Judas estava continuamente fomentando a idéia de que Ele havia de governar como Rei em Jerusalém. Na alimentação dos cinco mil, procurou promover isso. Nessa ocasião Judas ajudou na distribuição do alimento à multidão faminta. Teve oportunidade de ver o benefício que estava em seu poder fazer aos outros. Experimentou a satisfação que sempre acompanha o serviço para Deus. Auxiliou a levar a Jesus os enfermos dentre a multidão. Viu que alívio, que alegria e satisfação sobrevêm ao coração humano mediante o poder de curar do Restaurador. Poderia ter compreendido os métodos de Cristo. Mas cegavam-no seus desejos egoístas. Judas foi o primeiro a aproveitar-se do entusiasmo despertado pelo milagre dos pães. Foi ele que arquitetou o plano de apoderar-se de Cristo

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à força e fazê-Lo rei. Altas eram suas esperanças. Amarga sua decepção.

O discurso de Cristo na sinagoga a respeito do pão da vida, foi a crise na vida de Judas. Ouviu as palavras: "Se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o Seu sangue, não tereis vida em vós mesmos." João 6:53. Viu que Cristo oferecia bens espirituais em vez de terrenos. Julgava enxergar longe, e pensou poder ver que Jesus não teria honras, e não poderia conceder altas posições a Seus seguidores. Decidiu não se unir a Cristo tão intimamente que não se pudesse retirar. Vigiaria. E assim fez.

Daquele tempo em diante, exprimia dúvidas que confundiam os discípulos. Introduzia controvérsias e extraviados sentimentos, empregando os argumentos apresentados pelos escribas e fariseus contra as reivindicações de Cristo. Todas as pequenas e grandes aflições e contrariedades, as dificuldades e aparentes obstáculos ao avançamento do evangelho, Judas interpretava como testemunhos contra sua veracidade. Apresentava textos da Escritura que não tinham nenhuma ligação com as verdades que Cristo estava expondo. Essas passagens, separadas de seu contexto, deixavam os discípulos perplexos, acrescentando o desânimo que os assaltava de contínuo. Todavia, tudo isso era feito por Judas de maneira a parecer que era consciencioso. E ao passo que os discípulos estavam em busca de provas que confirmassem as palavras do grande Mestre, Judas, quase imperceptivelmente, os queria levar para outro rumo. Assim, de modo muito religioso e aparentemente sábio, estava apresentando as coisas sob aspecto diverso daquele em que Cristo as expusera, e emprestando a Suas palavras um sentido que Ele não lhes dera. Suas sugestões estavam sempre despertando desejos ambiciosos de vantagens temporais, desviando assim os discípulos dos importantes assuntos que deveriam ter considerado. A dissensão quanto a qual deles devia ser o maior, era geralmente despertada por Judas.

Quando Jesus apresentou ao jovem rico as condições do discipulado, Judas ficou desgostoso. Pensou que se cometera um erro. Se homens como esse rico príncipe se unissem aos crentes, ajudariam a manter a causa de Cristo. Se ao menos ele, Judas, fosse admitido como conselheiro, pensava, poderia sugerir muitos planos para prosperidade da pequenina igreja. Seus princípios e métodos haviam de diferir um tanto dos de Cristo, mas nessas coisas se julgava mais sábio do que Jesus.

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Em tudo quanto Cristo dizia aos discípulos, havia qualquer coisa com a qual, no coração, Judas não concordava. Sob sua influência fazia rápidos progressos o fermento da deslealdade. Os discípulos não percebiam em tudo isso o verdadeiro agente; mas Jesus via que Satanás estava comunicando a Judas os seus atributos, e abrindo assim um conduto mediante o qual viria a influenciar os outros discípulos. Isso declarara Cristo um ano antes da traição. "Não os escolhi a vós os doze?" disse Ele, "um de vós é um diabo." João 6:70.

Todavia, Judas não fazia oposição aberta, nem parecia duvidar das lições do Salvador. Não murmurou exteriormente até o tempo da festa em casa de Simão. Quando Maria ungiu os pés do Salvador, Judas manifestou sua disposição cobiçosa. Ante a reprovação de Jesus, o espírito pareceu tornar-se-lhe em fel. Orgulho ferido e desejo de vingança romperam as barreiras, e dominou-o a ganância com que por tanto tempo condescendera. Será essa a experiência de todo aquele que persistir em contemporizar com o pecado. Os elementos de depravação a que não se resiste, ou que não são vencidos, correspondem à tentação de Satanás, e a alma é levada cativa à sua vontade.

Mas Judas ainda não estava de todo endurecido. Mesmo depois de se ter duas vezes comprometido a trair seu Salvador, havia oportunidade de arrependimento. À ceia pascoal Jesus provou Sua divindade, ao revelar os desígnios do traidor. Incluiu ternamente a Judas no serviço prestado aos discípulos. Mas o derradeiro apelo de amor foi desatendido. Então o caso de Judas ficou decidido, e os pés que Jesus lavou saíram para ir fazer a obra do traidor.

Judas raciocinava que, se Jesus devia ser crucificado, o acontecimento se havia de dar. Seu próprio ato em trair o Salvador não mudaria o resultado. Se Jesus não devia morrer, isso apenas O forçaria a Se livrar a Si mesmo. Fosse como fosse, Judas lucraria alguma coisa por sua traição. Julgava haver feito um inteligente negócio em trair seu Senhor.

Judas não acreditava, entretanto, que Cristo Se deixasse prender. Traindo-O, intentava dar-Lhe uma lição. Pretendia desempenhar um papel, que daí em diante, tornaria o Salvador cuidadoso quanto a tratá-lo com o devido respeito. Mas Judas não sabia que estava entregando Cristo à morte. Quantas vezes, ao ensinar o Salvador por parábolas, não ficaram os escribas e fariseus arrebatados com Suas vivas ilustrações! Quantas vezes proferiram a sentença contra si mesmos! Freqüentemente, ao penetrar-lhes a verdade no coração, se encheram de cólera e

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pegaram em pedras para Lhe atirarem; mas uma e outra vez Ele escapara. Já que Se esquivara a tantas armadilhas, pensava Judas, não havia por certo de permitir agora ser aprisionado.

Judas decidiu pôr a questão à prova. Se Jesus era na verdade o Messias, o povo, por quem Ele tanto fizera, reunir-se-Lhe-ia em torno e O proclamaria rei. Isso viria fixar muitos espíritos então na incerteza. Judas teria a honra de haver colocado o rei no trono de Davi. E esse ato lhe asseguraria a primeira posição, depois de Cristo, no novo reino.

O falso discípulo representou seu papel em trair a Jesus. No horto, quando disse aos guias da turba: "O que eu beijar, é Esse; prendei-O" (Mat. 26:48), acreditava plenamente que Cristo escaparia das mãos deles. Então, se o censurassem, poderia dizer: Não vos disse que O prendêsseis?

Judas viu os aprisionadores de Cristo, agindo sobre suas palavras, ligarem-nO firmemente. Viu, com espanto, que o Salvador suportava que O levassem. Seguiu-O ansiosamente do horto ao julgamento perante os príncipes judaicos. A cada movimento, esperava que Ele surpreendesse os inimigos, apresentando-Se diante deles como Filho de Deus e reduzindo a nada todos os seus tramas e poder. Mas, à medida que passava hora após hora, e Jesus Se submetia a todos os maus-tratos sobre Ele acumulados, apoderou-se do traidor o terrível temor de que tivesse vendido seu Mestre para a morte.

Ao aproximar-se o julgamento do fim, não mais podia Judas suportar a tortura de sua consciência culpada. De súbito soou pela sala uma voz rouca, que produziu em todos os corações uma reação de terror: Ele é inocente; poupa-O, ó Caifás!

Viu-se então a alta figura de Judas, comprimindo-se por entre a sobressaltada multidão. Tinha o rosto pálido e decomposto, e borbulhavam-lhe na fronte grandes gotas de suor. Precipitando-se para o trono do juízo, atirou perante o sumo sacerdote as moedas

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de prata, preço de sua traição a seu Senhor. Agarrando ansiosamente as vestes de Caifás, implorou-lhe que soltasse Jesus, declarando que Ele nada fizera digno de morte. Caifás repeliu-o zangado, mas ficou confuso e não sabia que dizer. Revelara-se a perfídia dos sacerdotes. Era evidente que tinham subornado o discípulo para trair o Mestre.

"Pequei", gritou Judas, "traindo o sangue inocente." Mas o sumo sacerdote, readquirindo o domínio de si mesmo, respondeu desdenhosamente: "Que nos importa? Isso é contigo." Mat. 27:4. Os sacerdotes tinham estado dispostos a fazer de Judas seu instrumento; desprezaram-lhe, porém, a baixeza. Ao volver para eles com sua confissão, desdenharam-no.

Judas lançou-se então aos pés de Jesus, reconhecendo-O como o Filho de Deus e suplicando-Lhe que Se livrasse a Si mesmo. O Salvador não repreendeu o traidor. Sabia que Judas não se arrependera; sua confissão era tirada à força de uma alma culpada por um terrível sentimento de condenação e expectativa de juízo, mas não sentia profundo e quebrantador pesar por haver traído o imaculado Filho de Deus, e negado o Santo de Israel. Todavia, Jesus não proferiu nenhuma palavra de condenação. Olhou piedosamente para Judas, dizendo: "Para esta hora vim Eu ao mundo." João 18:37.

Um murmúrio de surpresa passou pelo auditório. Viram com espanto a paciência de Cristo para com o traidor. Novamente os empolgou a convicção de que esse Homem era mais que um mortal. Se era o Filho de Deus, porém, perguntavam, por que não Se libertava das cadeias e triunfava sobre Seus acusadores?

Judas viu que suas súplicas eram em vão e precipitou-se da sala, exclamando: É tarde! É tarde! Sentiu que não poderia viver para ver Jesus crucificado e, em desespero, foi enforcar-se.

Mais tarde, naquele mesmo dia, a caminho da sala de Pilatos para o Calvário, houve uma interrupção nos gritos e zombaria da turba ímpia que levava Jesus ao lugar da crucifixão. Ao passarem por local retirado, viram ao pé de uma árvore, sem vida, o corpo de Judas. Era uma cena horripilante. Seu peso rompera a corda em que se pendurara à árvore. Ao cair, rebentara-se-lhe terrivelmente o corpo, e cães o estavam agora devorando. Seus restos foram imediatamente enterrados e ocultos às vistas; houve, porém, menos escárnios entre a turba e muitos rostos pálidos revelavam os pensamentos interiores. A retribuição parecia visitar já os que eram culpados do sangue de Jesus.

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Na Sala de Julgamento de Pilatos

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Na sala de julgamento de Pilatos, o governador romano, acha-Se Cristo, ligado como preso. Em torno dEle está a guarda de soldados, e a sala enche-se rapidamente de espectadores. Logo fora da entrada encontram-se os juízes do Sinédrio, sacerdotes, príncipes, anciãos e povo.

Depois de condenar a Jesus, o conselho do Sinédrio fora ter com Pilatos, a fim de obter a confirmação da sentença e sua execução. Mas esses oficiais judeus não queriam entrar no tribunal romano. Segundo sua lei cerimonial, ficariam assim contaminados e, portanto, impedidos de tomar parte na festa da páscoa. Não viam, em sua cegueira, que o ódio assassino lhes contaminava o coração. Não viam que Cristo era o verdadeiro cordeiro pascoal e que, uma vez que O rejeitaram, para eles perdera a grande festa sua significação.

Ao ser o Salvador levado para o tribunal, não foi com bons olhos que Pilatos O contemplou. O governador romano fora chamado à pressa de sua câmara, e decidiu fazer o trabalho o mais rapidamente possível. Estava preparado para tratar o Preso com

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o rigor do magistrado. Assumindo a mais severa expressão, voltou-se para ver que espécie de homem tinha de interrogar, por causa do qual fora assim tão cedo despertado de seu repouso. Sabia que havia de ser alguém a quem as autoridades judaicas estavam ansiosas por ver julgado e punido quanto antes.

Pilatos olhou para o homem que guardava Jesus, e depois seu olhar pousou perscrutadoramente no mesmo Jesus. Tivera de tratar com todas as espécies de criminosos; mas nunca dantes fora levado a sua presença um homem com tais traços de bondade e nobreza. Não via em Seu semblante nenhum vestígio de culpa, nenhuma expressão de temor, nada de ousadia ou desafiadora atitude. Viu um homem de aspecto calmo e digno, cujo rosto não apresentava os estigmas do criminoso, mas o cunho do Céu.

O aspecto de Cristo produziu favorável impressão em Pilatos. Foi despertado o lado melhor de sua natureza. Ouvira falar de Jesus e Suas obras. Sua esposa contara-lhe alguma coisa dos maravilhosos feitos realizados pelo Profeta galileu, que curara os doentes e ressuscitara os mortos. Agora, como se fora um sonho, isso se reavivou na memória de Pilatos. Recordou boatos que ouvira de várias fontes. Decidiu indagar dos judeus quais suas acusações contra o Preso.

Quem é esse Homem, e para que O trouxestes? disse ele. Que acusações trazeis contra Ele? Os judeus ficaram desconcertados. Sabendo que não lhes era possível comprovar as acusações que tinham contra Cristo, não desejavam um interrogatório público. Disseram que era um enganador chamado Jesus de Nazaré.

Novamente perguntou Pilatos: "Que acusações trazeis contra este Homem?" João 18:29. Os sacerdotes não lhe responderam à pergunta, mas, em palavras que manifestavam sua irritação, disseram: "Se Este não fosse malfeitor, não To entregaríamos." João 18:30. Quando os que compõem o Sinédrio, os primeiros homens da nação, te trazem um homem que julgam digno de morte, haverá necessidade de pedir uma acusação contra ele? Esperavam impressionar Pilatos com o sentimento da importância deles, levando-o assim a concordar ao seu pedido sem muitos preliminares. Estavam ansiosos por ver ratificada a sentença; pois sabiam que o povo que testemunhara as maravilhosas obras de Cristo poderia contar uma história muito diversa da invenção que agora repetiam.

Os sacerdotes pensavam que, com o fraco e vacilante Pilatos, poderiam sem dificuldade executar seus planos. Anteriormente, assinara, precipitado, sentenças de morte, condenando homens que sabiam não serem dignos disso. Em sua estimação, de pouca

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importância era a vida de um preso; se inocente ou culpado, não era de especial conseqüência. Os sacerdotes esperavam que Pilatos infligisse agora a pena de morte a Jesus, sem O ouvir. Isso pediram como favor por ocasião de sua grande festa nacional.

Havia, porém, no Preso qualquer coisa que inibiu Pilatos de assim proceder. Não ousou fazê-lo. Leu o desígnio dos sacerdotes. Lembrou-se de como, não fazia muito, Jesus ressuscitara a Lázaro, um homem que estivera morto por quatro dias; e decidiu saber, antes de assinar a sentença de condenação, quais eram as acusações contra Ele, e se podiam ser provadas.

Se vosso juízo é suficiente, disse ele, por que trazeis a mim o Preso? "Levai-O vós, e julgai-O segundo a vossa lei." João 18:31. Assim apertados, os sacerdotes disseram que já haviam sentenciado a Jesus, mas que era preciso a sentença de Pilatos para dar validade a sua condenação. Qual é vossa sentença? perguntou Pilatos. A de morte, responderam, mas não nos é lícito condenar ninguém à morte. Pediram a Pilatos que aceitasse a palavra deles quanto à culpabilidade de Cristo, e cumprisse a sentença que haviam dado. Tomariam a responsabilidade do resultado.

Pilatos não era juiz justo ou consciencioso; mas fraco como era em poder moral, recusou conceder essa petição. Não condenaria Jesus enquanto não fosse apresentada acusação contra Ele.

Os sacerdotes encontravam-se num dilema. Viam que deviam encobrir sua hipocrisia sob o mais espesso véu. Não deviam permitir a impressão de que Cristo fora preso por motivos religiosos. Fosse isso apresentado como razão, e seu procedimento não teria nenhum valor para com Pilatos. Precisavam fazer parecer que Jesus estava trabalhando contra a lei comum; então poderia ser castigado como ofensor político. Tumultos e insurreições contra o governo romano surgiam de contínuo entre os judeus. Os romanos haviam procedido muito rigorosamente para com essas revoltas, e estavam sempre alerta para reprimir qualquer coisa que pudesse levar a uma insurreição.

Havia poucos dias apenas os fariseus tinham procurado enredar Cristo com a pergunta: "É-nos lícito dar tributo a César ou não?" Mat. 22:17. Mas Cristo lhes revelara a hipocrisia. Os romanos que se achavam presentes assistiram ao fracasso completo dos intrigantes, e seu desconcerto ante a resposta: "Dai pois a César o que é de César." Luc. 20:22-25.

Agora os sacerdotes pensaram fazer parecer que, nessa ocasião, Cristo ensinara segundo esperavam que Ele ensinasse. Em

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seu apuro, chamaram falsas testemunhas para os ajudar, "e começaram a acusá-Lo, dizendo: Havemos achado Este, pervertendo a nossa nação, proibindo dar o tributo a César, e dizendo que Ele mesmo é Cristo, o rei". Três acusações, cada uma destituída de fundamento. Os sacerdotes sabiam isso, mas estavam dispostos a jurar falso, contanto que conseguissem seu fito.

Pilatos penetrou-lhes o desígnio. Não acreditou que o Preso houvesse conspirado contra o governo. Seu aspecto manso e humilde estava totalmente em desacordo com essa acusação. Pilatos convenceu-se de que se urdira artificioso trama contra um Inocente que embaraçava o caminho dos dignitários judeus. Volvendo-se para Jesus perguntou: "Tu és o rei dos judeus?" O Salvador respondeu: "Tu o dizes." Mar. 15:2. E ao falar Ele, Sua fisionomia iluminou-se como se um raio de Sol sobre ela incidisse.

Ao ouvirem-Lhe a resposta, Caifás e os que com ele estavam chamaram Pilatos como testemunha de que Jesus concordara com o crime de que O acusavam. Com ruidosos brados, sacerdotes, escribas e príncipes exigiram que fosse sentenciado à morte. Os gritos foram repetidos pela turba, fazendo-se um barulho ensurdecedor. Pilatos ficou confundido. Vendo que Jesus não dava nenhuma resposta a Seus acusadores, disse-Lhe Pilatos: "Nada respondes? Vê quantas coisas testificam contra Ti. Mas Jesus nada mais respondeu." Mar. 15:4 e 5.

De pé por trás de Pilatos, à vista de todo o pátio, ouvia Cristo os insultos; mas não respondeu nem uma palavra a todas as falsas acusações contra Ele feitas. Toda a Sua atitude dava prova da inocência consciente. Ficou inabalável em face da fúria das ondas que se Lhe quebravam em torno. Era como se os violentos ímpetos da ira, erguendo-se mais e mais alto, como as vagas do clamoroso oceano, se despedaçassem ao Seu redor sem O tocar, no entanto. Ficou mudo, mas eloqüente era o Seu silêncio. Era como se o homem exterior fosse iluminado por uma luz provinda do interior.

Pilatos estava admirado de Seu porte. Despreza esse Homem os acontecimentos, por que não Se importa de salvar a vida? perguntava a si mesmo. Contemplando Jesus a suportar insultos e zombarias sem represália, sentiu que Ele não podia ser tão injusto como estavam sendo os sacerdotes que clamavam. Esperando obter dEle a verdade e escapar ao tumulto, Pilatos tomou Jesus à parte e tornou a interrogá-Lo: "Tu és o Rei dos judeus?" Mar. 15:2.

Jesus não respondeu diretamente a essa pergunta. Sabia que

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o espírito de DEUS estava lutando com Pilatos, e deu-lhe oportunidade de reconhecer a própria convicção. "Tu dizes isto de ti mesmo", perguntou, "ou disseram-to outros de Mim?" João 18:34. Isto é, era a acusação dos sacerdotes, ou o desejo de receber luz de Cristo, que motivava a pergunta de Pilatos? Pilatos compreendeu a intenção de Jesus; mas surgiu o orgulho em seu coração. Não queria reconhecer a convicção que o assaltava. "Porventura sou eu judeu?" disse. "A Tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-Te a mim; que fizeste?" João 18:35.

Passara a oportunidade áurea de Pilatos. Todavia, Jesus não o deixou ainda sem luz. Conquanto não respondesse diretamente à pergunta de Pilatos, declarou abertamente a própria missão. Deu a entender a Pilatos que não buscava um trono terrestre.

"O Meu reino não é deste mundo", disse Ele, "se o Meu reino fosse deste mundo, pelejariam os Meus servos, para que Eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o Meu reino não é daqui. Disse-Lhe Pilatos: Logo Tu és rei? Jesus respondeu: Tu dizes que Eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a Minha voz." João 18:36 e 37.

Cristo afirmou que Sua palavra era em si mesma uma chave que revelaria o mistério aos que estivessem preparados para recebê-Lo. Ela possuía em si um poder que a recomendava, e isso era o segredo da ampliação de Seu reino de verdade. Desejava que Pilatos compreendesse que unicamente recebendo a verdade e dela se apoderando, poderia ser restaurada sua arruinada natureza.

Pilatos teve desejo de conhecer a verdade. Seu espírito estava confundido. Apegou-se ansioso às palavras do Salvador, e o coração agitou-se-lhe num grande anelo de saber o que ela era realmente, e como a poderia obter. "Que é a verdade?" indagou. Mas não esperou a resposta. O tumulto lá fora lembrou-lhe os interesses do momento; pois os sacerdotes clamavam por ação imediata. Saindo para onde estavam os judeus, declarou com veemência: "Não acho nEle crime algum." João 18:38.

Essas palavras de um juiz pagão foram uma demolidora repreensão à perfídia e falsidade dos príncipes de Israel, que acusavam o Salvador. Ao ouvirem os sacerdotes e anciãos isso de Pilatos, sua decepção e cólera não tiveram limites. Haviam tramado e esperado longamente essa oportunidade. Ao verem a perspectiva de Jesus ser solto, pareciam prontos a despedaçá-Lo. Acusavam Pilatos em altas vozes, e ameaçaram-no com a

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censura do governo romano. Culparam-no de não querer condenar a Jesus que, afirmavam, Se erguera contra César.

Ouviram-se então vozes iradas, declarando que a sediciosa influência de Jesus era bem conhecida por todo o país. Diziam os sacerdotes: "Alvoroça o povo ensinando por toda a Judéia, começando desde a Galiléia até aqui." Luc. 23:5.

Por essa altura, não tinha Pilatos nenhuma idéia de condenar Jesus. Sabia que os judeus O haviam acusado, movidos por ódio e preconceitos. Sabia qual era seu dever. A justiça exigia que Jesus fosse imediatamente solto. Mas Pilatos temia a má vontade do povo. Recusasse ele entregar-lhes Jesus, erguer-se-ia um tumulto, e isso ele temia enfrentar. Ao ouvir que Cristo era da Galiléia, decidiu mandá-Lo a Herodes, governador daquela província, o qual se achava então em Jerusalém. Com esse procedimento pensava transferir a responsabilidade do julgamento para Herodes. Julgou também que era boa oportunidade de pacificar uma velha questão existente entre ele e Herodes. E assim aconteceu. Os dois magistrados tornaram-se amigos depois do julgamento do Salvador.

Pilatos entregou novamente Jesus aos soldados e, por entre os escárnios e insultos da massa, foi Ele atropeladamente conduzido ao tribunal de Herodes. "E Herodes quando viu a Jesus, alegrou-se muito." Nunca se encontrara com o Salvador, mas "havia muito que desejava vê-Lo, por ter ouvido dEle muitas coisas, e esperava que Lhe veria fazer algum sinal". Luc. 23:8. Esse Herodes era aquele cujas mãos estavam manchadas do sangue de João Batista. Ao ouvir falar de Jesus, a princípio ficou aterrorizado e disse: "Este é João, que mandei degolar; ressuscitou dos mortos" (Mar. 6:16); "por

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isso estas maravilhas operam nele." Mat. 14:2. Todavia Herodes desejava ver a Jesus. Havia agora oportunidade de salvar a vida desse profeta, e o rei esperou banir para sempre de sua memória aquela cabeça sangrenta a ele levada num prato. Desejava também satisfazer sua curiosidade e pensava que, se oferecesse a Jesus alguma perspectiva de libertação, faria qualquer coisa que Lhe fosse solicitada.

Um grande grupo de sacerdotes e anciãos acompanhara Cristo a Herodes. E ao ser o Salvador introduzido, esses dignitários, falando todos com agitação, insistiram em suas acusações contra Ele. Mas Herodes pouca atenção lhes deu. Impôs silêncio, desejando ensejo de interrogar a Cristo. Ordenou que soltassem as cadeias de Jesus, criminando ao mesmo tempo Seus inimigos de O atarem rudemente. Olhando compassivamente o sereno rosto do Redentor do mundo, nEle leu unicamente sabedoria e pureza. Da mesma maneira que Pilatos, ficou convencido de que Cristo fora acusado por malignidade e inveja.

Herodes interrogou a Cristo com muitas palavras, mas o Salvador Se manteve em profundo silêncio. Ao mando do rei, foram introduzidos decrépitos e mancos, sendo ordenado a Cristo que provasse Suas reivindicações pela operação de um milagre. Afirmam que podes curar os enfermos, disse-Lhe Herodes. Estou ansioso por ver que Tua grande fama não é mentira. Jesus não respondeu, e o rei continuou a insistir: Se podes operar milagres por outros, faze-os agora para Teu próprio bem, e isso Te servirá para um bom desígnio. Outra vez ordenou: Mostra-nos um sinal de que possuis o poder que a fama Te tem atribuído. Mas Cristo era como alguém que não visse nem ouvisse. O Filho de Deus tomara sobre Si a natureza humana. Devia agir como o tem de fazer o homem em idênticas circunstâncias. Portanto, não operaria um milagre para Se poupar a Si mesmo à dor e à humilhação que o homem deve sofrer, quando colocado em condições semelhantes.

Herodes prometeu que, se Jesus realizasse algum milagre em sua presença, seria solto. Os acusadores dEle eram testemunhas oculares das poderosas obras feitas por Seu poder. Tinham-nO ouvido ordenar à sepultura que desse os mortos. Viram-nos sair em obediência à Sua voz. Apoderou-se deles o temor, não operasse Jesus agora um milagre. De tudo, o que mais temiam, era uma manifestação de Seu poder. Essa manifestação se demonstraria um golpe mortal para seus planos, e talvez lhes custasse

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a vida. Outra vez sacerdotes e príncipes, em grande ansiedade, insistiram em suas acusações contra Ele. Elevando a voz, declararam: É um traidor, um blasfemo. Opera milagres por meio do poder que Lhe é dado por Belzebu, o príncipe dos demônios. A sala tornou-se cenário de confusão, uns gritando uma coisa, outros, outra.

A consciência de Herodes estava agora muito menos sensível do que quando tremera de horror ante o pedido de Herodias, para que lhe desse a cabeça de João Batista. Durante algum tempo sentira os agudos espinhos do remorso por seu terrível ato; mas suas percepções morais se tinham rebaixado mais e mais em razão de sua vida licenciosa. Tinha agora tão endurecido o coração, que podia mesmo gabar-se do castigo infligido a João por ousar reprová-lo. E ameaçou então a Jesus, declarando repentinamente que tinha poder para libertá-Lo e para condená-Lo. Nenhum indício da parte de Jesus dava, entretanto, a compreender que Ele ouvisse uma palavra.

Herodes irritou-se por esse silêncio. Parecia indicar completa indiferença por sua autoridade. Para o vão e pomposo rei, teria sido menos ofensiva uma franca censura, do que ser assim passado por alto. De novo ameaçou, irado, a Jesus, que permaneceu impassível e mudo.

A missão de Cristo neste mundo não era satisfazer ociosas curiosidades. Veio para curar os quebrantados de coração. Pudesse Ele ter proferido qualquer palavra para sarar as feridas das almas enfermas de pecado, e não guardaria silêncio. Não tinha, no entanto, palavras para os que não fariam senão pisar a verdade com seus profanos pés.

Cristo poderia ter dirigido a Herodes palavras que penetrariam nos ouvidos do endurecido rei. Podê-lo-ia haver sacudido com temor e tremor pela exposição de toda a iniqüidade de sua vida, e do horror de seu próximo fim. Mas o silêncio de Cristo era a mais severa repreensão que lhe poderia ter ministrado. Herodes rejeitara a verdade que lhe fora anunciada pelo maior dos profetas, e nenhuma outra mensagem havia de receber. Nem uma palavra tinha para ele a Majestade do Céu. Aqueles ouvidos sempre abertos para os lamentos humanos, não tinham lugar para as ordens de Herodes. Aqueles olhos sempre fixos no pecador arrependido, com um amor cheio de piedade, e de perdão, não tinham nenhum olhar para conceder a Herodes. Aqueles lábios que emitiram a mais impressiva verdade, que em acentos da mais terna súplica pleitearam com o mais pecador e mais degradado, cerraram-se para o soberbo rei que não sentia necessidade de um Salvador.

O rosto de Herodes se ensombrou de paixão. Voltando-se para

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a turba, acusou, encolerizado, a Jesus de impostor. E depois, para Ele: se não deres prova de Tua pretensão, entregrar-Te-ei aos soldados e ao povo. Talvez sejam bem-sucedidos em Te fazer falar. Se és um impostor, a morte por suas mãos é a única coisa que mereces; se és o Filho de Deus, salva-Te a Ti mesmo operando um milagre.

Mal se proferiram essas palavras, e fez-se uma arremetida para Cristo. Como animais ferozes precipitou-se a multidão para sua presa. Jesus foi arrastado de um lado para outro, unindo-se Herodes à turba em buscar humilhar o Filho de Deus. Não se houvessem interposto os soldados romanos, repelindo para trás a massa enfurecida, e o Salvador teria sido feito em pedaços.

"Herodes, com os seus soldados, desprezou-O, e, escarnecendo dEle, vestiu-O de uma roupa resplandecente." Luc. 23:11. Os soldados romanos juntaram-se nesses ultrajes. Tudo quanto ímpios, corruptos soldados, ajudados por Herodes e os dignitários judeus podiam instigar, foi acumulado sobre o Salvador. Todavia, não perdeu Sua divina paciência.

Os perseguidores de Cristo tentaram medir-Lhe o caráter pelo deles próprios; tinham-nO figurado tão vil como eles. Mas por trás de toda a presente aparência introduziu-se, malgrado seu, outra cena - cena que eles hão de ver um dia em toda a sua glória. Houve alguns que tremeram na presença de Cristo. Enquanto a rude multidão se inclinava diante dEle em zombaria, alguns que se adiantaram para esse fim recuaram, aterrorizados e mudos. Herodes ficou convicto. Os últimos raios de misericordiosa luz incidiam sobre seu coração endurecido pelo pecado. Sentiu que Este não era um homem comum; pois a divindade irradiara através da humanidade. Ao mesmo tempo que Cristo estava cercado de escarnecedores, adúlteros e homicidas, Herodes sentiu estar contemplando, um Deus sobre Seu trono.

Endurecido como estava, não ousou Herodes ratificar a condenação de Cristo. Desejava livrar-se da terrível responsabilidade, e mandou Jesus de volta para o tribunal romano.

Pilatos ficou decepcionado e muito desgostoso. Quando os judeus voltaram com o Preso, perguntou-lhes impaciente o que queriam que ele fizesse. Lembrou-lhes que já interrogara Jesus, e não achara nEle crime algum; disse-lhes que tinham trazido queixas contra Ele, mas não eram capazes de provar uma única. Mandara Jesus a Herodes, o tetrarca da Galiléia e compatriota seu, mas também ele não encontrara nEle coisa alguma digna de morte. "Castigá-Lo-ei pois", disse Pilatos, "e soltá-Lo-ei." Luc. 23:16.

Aí mostrou Pilatos sua fraqueza. Declarara que Jesus era

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inocente e, no entanto, estava disposto a fazê-lo açoitar para pacificar os acusadores. Sacrificaria a justiça e o princípio, a fim de contemporizar com a turba. Isso o colocou desvantajosamente. A turba contou com sua indecisão, e clamou tanto mais pela vida do Preso. Se a princípio Pilatos houvesse ficado firme, recusando-se a condenar um homem que considerava inocente, teria quebrado a fatal cadeia que o ligaria em remorso e culpa enquanto vivesse. Houvesse posto em ação suas convicções do direito, e os judeus não teriam ousado ditar-lhe a conduta. Cristo teria sido morto, mas a culpa não repousaria sobre ele. Mas Pilatos dera passo após passo na violação de sua consciência. Escusara-se a julgar com justiça e eqüidade, e viu-se agora quase impotente nas mãos dos sacerdotes e príncipes. Sua vacilação e indecisão foram a ruína dele.

Mesmo então Pilatos não foi deixado a agir às cegas. Uma mensagem de Deus o advertiu do que estava para cometer. Em resposta às orações de Cristo, a esposa de Pilatos foi visitada por um anjo do Céu, e vira em sonho o Salvador, e com Ele conversara. A mulher de Pilatos não era judia, mas ao olhar a Jesus, durante o sonho, não tivera dúvidas de Seu caráter e missão. Sabia ser Ele o Príncipe de Deus. Contemplou-O em julgamento no tribunal. Viu-Lhe as mãos estreitamente ligadas como as de um criminoso. Viu Herodes e seus soldados praticando sua terrível ação. Ouviu os sacerdotes e príncipes, cheios de inveja e perversidade, acusando furiosamente. Ouviu as palavras: "Nós temos uma lei, e, segundo a nossa lei, deve morrer." João 19:7. Viu Pilatos entregar Jesus aos açoites, depois de haver declarado: "Não acho nEle crime algum." Ouviu a condenação pronunciada por Pilatos, e viu-o entregar Cristo a Seus matadores. Viu a cruz erguida no Calvário. Viu a Terra envolta em trevas, e ouviu o misterioso brado: "Está consumado." João 19:30. Ainda outra cena se lhe deparou ao olhar. Viu Cristo sentado sobre uma grande nuvem branca, enquanto a Terra vacilava no espaço, e Seus assassinos fugiam da presença de Sua glória. Com um grito de terror despertou ela, e escreveu imediatamente a Pilatos palavras de advertência.

Enquanto Pilatos hesitava quanto ao que havia de fazer, um mensageiro, abrindo apressadamente caminho por entre a multidão, passou-lhe uma carta de sua esposa, que dizia:

"Não entres na questão deste justo, porque num sonho muito sofri por causa dEle." Mat. 27:19.

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Pilatos empalideceu. Estava confundido ante suas próprias contraditórias emoções. Mas enquanto demorava, os sacerdotes e príncipes inflamavam ainda mais o espírito do povo. Pilatos foi forçado a agir. Lembrou-se então de um costume que poderia trazer o libertamento de Jesus. Era uso, por ocasião dessa festa, soltar algum preso segundo a escolha do povo. Costume de invenção pagã, não havia sombra de justiça nesse proceder, mas era sobremaneira apreciado pelos judeus. As autoridades romanas tinham preso por esse tempo um homem de nome Barrabás, que se achava com sentença de morte. Esse homem afirmara ser o Messias. Pretendia autoridade para estabelecer uma nova ordem de coisas, para emendar o mundo. Sob uma ilusão satânica, pretendia que tudo quanto pudesse obter por furtos e assaltos era seu. Por meios diabólicos realizara coisas admiráveis, conseguira seguidores no meio do povo e despertara sedição contra o governo romano. Sob a capa de entusiasmo religioso, era um endurecido e consumado vilão, dado à rebelião e à crueldade. Oferecendo ao povo escolha entre esse homem e o inocente Salvador, Pilatos julgava despertar-lhes o sentimento da justiça. Esperava conquistar-lhes a simpatia para Jesus, em oposição aos sacerdotes e príncipes. Assim, voltando-se para a multidão, disse com grande ardor: "Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus chamado Cristo?"

Como um urro de animais ferozes, veio a resposta da turba: Solta Barrabás! E avolumava-se mais e mais o clamor: Barrabás! Barrabás! Pensando que o povo talvez não houvesse compreendido a pergunta, Pilatos exclamou outra vez: "Quereis que vos solte o Rei dos Judeus?" Mas eles clamaram novamente: "Fora daqui com Este, e solta-nos Barrabás!" "Que farei então de Jesus, chamado Cristo?" indagou Pilatos. De novo a multidão encapelada rugiu como demônios. Os próprios demônios, em forma humana, achavam-se na turba, e que se poderia esperar, senão a resposta: "Seja crucificado"? Mat. 27:22.

Pilatos turbou-se. Não julgara que os acontecimentos chegassem a esse ponto. Recuava de entregar um homem inocente à mais ignominiosa e cruel das mortes que se poderia infligir a alguém. Após haver cessado o bramido das vozes, voltou-se para o povo, dizendo: "Mas que mal fez Ele?" O caso chegara, no entanto, além de argumentação. Não eram provas da inocência de Cristo o que queriam, mas Sua condenação.

Pilatos tentou ainda salvá-Lo. Disse-lhes pela terceira vez: "Mas que mal fez?" A só menção de soltá-Lo, porém, despertou o

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povo a um frenesi dez vezes maior. "Crucifica-O, crucifica-O!", clamavam. Mais e mais se avolumava a tempestade a que dera motivo a indecisão de Pilatos.

Desfalecido de fadiga e coberto de ferimentos, Jesus foi levado, sendo açoitado à vista da multidão. "E os soldados O levaram dentro à sala que é a de audiência, e convocaram toda a coorte; e vestiram-nO de púrpura e tomando uma coroa de espinhos, Lha puseram na cabeça. E começaram a saudá-Lo, dizendo: Salve, Rei dos Judeus. E... cuspiram nEle, e, postos de joelhos, O adoraram." Mat. 27:27-31.  Por vezes, mão perversa arrebatava a cana que Lhe fora posta na mão, e batia na coroa que Ele tinha na fronte, fazendo enterrarem-se-Lhe os espinhos nas fontes, e o sangue gotejar-Lhe pelo rosto e a barba.

Maravilha-te, ó Céu! e pasma tu, ó Terra! Contemplai o opressor e o Oprimido. Uma turba enfurecida rodeia o Salvador do mundo. Escárnios e zombarias misturam-se com as baixas imprecações de blasfêmia. Seu humilde nascimento e modesta vida são comentados pela turba insensível. Sua declaração de ser o Filho de Deus é ridicularizada, e o gracejo vulgar e a insultuosa zombaria passam de boca em boca.

Satanás dirigia a cruel massa nos maus-tratos ao Salvador. Era seu desígnio provocá-Lo, se possível, à represália, ou levá-Lo a realizar um milagre para Se libertar, frustrando assim o plano da salvação. Uma mancha sobre Sua vida humana, uma falha de Sua humildade para resistir à terrível prova, e o Cordeiro de Deus teria sido uma oferta imperfeita, um fracasso para a redenção do homem. Mas Aquele que, por uma ordem, poderia trazer em Seu auxílio a hoste celestial - Aquele que, ante uma súbita irradiação de Sua divina majestade, poderia haver afugentado de Sua face aquela turba aterrada - Se submeteu com perfeita calma aos mais vis insultos e ultrajes.

Os inimigos de Cristo tinham pedido um milagre como prova de Sua divindade. Tiveram testemunho muito maior do que haviam buscado. Assim como a crueldade de Seus torturadores os degradava abaixo da humanidade, dando-lhes a semelhança de Satanás, a mansidão e paciência de Jesus O exaltavam acima da humanidade, demonstrando Seu parentesco com Deus. Sua humilhação era o penhor de Sua exaltação. As gotas de sangue de agonia que Lhe corriam das fontes feridas pelo rosto e a barba, eram o penhor de Sua unção com "óleo de alegria" (Heb. 1:9), como nosso grande Sumo Sacerdote.

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Grande foi a ira de Satanás, ao ver que todos os maus-tratos infligidos ao Salvador não Lhe forçaram os lábios a soltar uma só queixa. Embora houvesse tomado sobre Si a natureza humana, era sustido por uma força divina, e não Se apartou num só ponto da vontade do Pai.

Quando Pilatos entregou Jesus para ser açoitado e escarnecido, julgou despertar a piedade da multidão. Teve esperança de que achassem suficiente esse castigo. Mesmo a malignidade dos sacerdotes, pensava, ficaria então satisfeita. Com penetrante percepção, viram os judeus a fraqueza de assim punir um homem que fora declarado inocente. Sabiam que Pilatos estava procurando salvar a vida do Preso, e decidiram que Jesus não fosse solto. Para nos agradar e satisfazer, Pilatos O açoitou, pensaram, e se apertarmos a questão até um resultado definido, conseguiremos com certeza nosso intento.

Pilatos mandou então buscar Barrabás para o pátio. Apresentou depois os dois presos um ao lado do outro, e, apontando ao Salvador, disse em tom solene: "Eis Aqui o Homem." João 19:5. "Eis aqui vo-Lo trago fora, para que saibais que não acho nEle crime algum." João 19:4.

Ali estava o Filho de Deus, com as vestes da zombaria e a coroa de espinhos. Despido até à cintura, as costas mostravam-Lhe os longos e cruéis vergões, de onde corria o sangue abundantemente. Tinha o rosto manchado de sangue, e apresentava os sinais da exaustão e dor; nunca, no entanto, parecera mais belo. O semblante do Salvador não se desfigurou diante dos inimigos. Cada traço exprimia brandura e resignação, e a mais terna piedade para com os cruéis inimigos. Não havia em Sua atitude nenhuma fraqueza covarde, mas a resistência e dignidade da longanimidade. Chocante era o contraste no preso ao Seu lado. Cada linha da fisionomia de Barrabás proclamava o endurecido criminoso que era. O contraste foi manifesto a todos os espectadores. Alguns dentre eles choravam. Ao olharem a Jesus, o coração encheu-se-lhes de simpatia. Mesmo os sacerdotes e principais convenceram-se de que Ele era tudo quanto dizia ser.

Os soldados romanos que rodeavam Cristo não estavam todos endurecidos; alguns Lhe fixavam ansiosamente o semblante, em busca de um sinal de que Ele era um personagem criminoso e de temer. De quando em quando, voltavam-se e deitavam um olhar de desprezo a Barrabás. Não era preciso grande perspicácia para para adivinhar o que lhe ia no íntimo. Outra vez olhavam Aquele que estava sendo julgado. Contemplavam o divino Sofredor com sentimentos de profunda piedade. A silenciosa

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submissão de Cristo gravou-lhes a cena no espírito, para nunca mais se apagar enquanto não reconhecessem nEle o Cristo, ou, rejeitando-O, decidissem o próprio destino.

Pilatos estava cheio de espanto diante da paciência do Salvador, que não articulava uma queixa. Não duvidava de que a vista desse Homem, em contraste com Barrabás, movesse a simpatia dos judeus. Não compreendia, porém, o fanático ódio dos sacerdotes contra Aquele que, como a luz do mundo, lhes tornara manifestos as trevas e o erro. Incitaram a turba a uma fúria louca, e de novo os sacerdotes, príncipes e povo ergueram aquele tremendo brado: "Crucifica-O, crucifica-O!" Perdendo por fim toda a paciência ante sua irracional crueldade, Pilatos gritou em desespero: "Tomai-O vós e crucificai-O; porque eu nenhum crime acho nEle." João 19:6.

O governador romano, embora familiarizado com cenas cruéis, moveu-se de simpatia para com o paciente Preso que, condenado e açoitado, com a fronte a sangrar e laceradas as costas, mantinha ainda o porte de um rei sobre o trono. Mas os sacerdotes declaram: "Nós temos uma lei, e, segundo a nossa lei, deve morrer, porque Se fez Filho de Deus." João 19:7.

Pilatos sobressaltou-se. Não possuía nenhuma idéia exata de Cristo e Sua missão; mas tinha uma vaga fé em Deus e em seres superiores à humanidade. Um pensamento que lhe passara anteriormente pelo cérebro, tomou agora feição definida. Cogitava se não seria um Ser divino o que estava perante ele, revestido da púrpura da zombaria, e coroado de espinhos.

Voltou novamente ao tribunal, e disse a Jesus: "De onde és Tu?" João 19:9. Mas Jesus não lhe deu resposta alguma. O Salvador falara francamente a Pilatos, explicando a própria missão como testemunha da verdade. Pilatos desprezara a luz. Abusara do alto posto de juiz, submetendo seus princípios e sua autoridade às exigências da turba. Jesus não tinha mais luz para ele. Mortificado com Seu silêncio, disse Pilatos altivamente:

"Não me falas a mim? não sabes Tu que tenho poder para Te crucificar e tenho poder para Te soltar?"

Respondeu Jesus: "Nenhum poder terias contra Mim, se de cima te não fosse dado; mas aquele que Me entregou a ti maior pecado tem." João 19:10 e 11.

Assim o piedoso Salvador, em meio de Seus intensos sofrimentos e dor, desculpou o quanto possível o ato do governador romano que O entregou para ser crucificado. Que cena esta, para ser transmitida ao mundo de século em século! Que luz projeta sobre o caráter dAquele que é o Juiz de toda a Terra!

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"Aquele que Me entregou a ti", disse Jesus, "maior pecado tem." João 19:11. Com estas palavras referia-Se Cristo a Caifás que, como sumo sacerdote, representava a nação judaica. Esta conhecia os princípios que governavam as autoridades romanas. Tivera luz nas profecias que testificavam de Cristo, bem como nos próprios ensinos e milagres dEle. Os juízes judaicos receberam inequívocas provas da divindade dAquele a quem condenavam à morte. E segundo a luz que tinham, seriam julgados.

A maior culpa e mais grave responsabilidade, pesava sobre os que ocupavam os mais altos postos na nação, os depositários das sagradas verdades que estavam vilmente traindo. Pilatos, Herodes e os soldados romanos, ignoravam, relativamente, o que dizia respeito a Jesus. Pensavam agradar aos sacerdotes e príncipes, maltratando-O. Não tinham a luz que a nação judaica recebera em tanta abundância. Houvesse essa luz sido dada aos soldados, e não teriam tratado a Cristo tão cruelmente como o fizeram.

Outra vez propôs Pilatos soltar o Salvador. "Mas os judeus clamavam, dizendo: Se soltas Este, não és amigo de César." João 19:12. Assim pretendiam esses hipócritas ser zelosos da autoridade de César. De todos os adversários do governo romano, eram os judeus os mais terríveis. Quando lhes era dado fazê-lo com segurança, mostravam-se os mais tirânicos em impor suas exigências nacionais e religiosas; em querendo, porém, executar qualquer cruel desígnio, exaltava o poder de César. Para consumar o aniquilamento de Jesus, eram capazes de professar lealdade ao governo estrangeiro que odiavam.

"Qualquer que se faz rei é contra o César", continuaram. Isso era tocar num ponto fraco de Pilatos. Ele estava suspeito ao governo romano, e sabia que tal notícia constituía a ruína para si. Sabia que se os judeus fossem contrariados, sua cólera se voltaria contra ele. Não recuariam diante de coisa nenhuma para realizar sua vingança. Tinha diante de si o exemplo na persistência com que buscavam a vida dAquele a quem aborreciam sem causa.

Pilatos assentou-se então no tribunal, no assento do juiz, e tornou a apresentar Jesus ao povo, dizendo: "Eis aqui o vosso Rei." De novo se fez ouvir o furioso brado: "Tira, tira, crucifica-O." Numa voz que se podia ouvir até longe, Pilatos perguntou: "Hei de crucificar o vosso Rei?" Mas de profanos e blasfemos lábios partiram as palavras: "Não temos rei, senão o César." João 19:15.

Escolhendo assim um governo pagão, apartara-se a nação

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judaica da teocracia. Rejeitara a Deus como rei. Não tinha, daí em diante, mais libertador. Não tinha rei senão o César. A isso os sacerdotes e doutores levaram o povo. Por isso, bem como pelos terríveis resultados que se seguiram, eram eles responsáveis. O pecado de uma nação e sua ruína, eram devidos aos guias religiosos.

"Então Pilatos, vendo que nada aproveitava, antes o tumulto crescia, tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Estou inocente do sangue deste Justo: considerai isso." Mat. 27:24. Com temor e um sentimento de condenação própria, olhou Pilatos ao Salvador. No vasto oceano de rostos levantados, unicamente o Seu estava sereno. Parecia brilhar-Lhe em torno da cabeça uma suave luz. Pilatos disse consigo mesmo: Ele é um Deus. Virando-se para a multidão, declarou: Estou limpo de Seu sangue. Tomai-O vós e crucificai-O. Mas notai isto, sacerdotes e príncipes: Eu O declaro justo. Que Aquele que Ele diz ser Seu Pai vos julgue a vós e não a mim pela obra deste dia. Depois, para Jesus: Perdoa-me esta ação; não Te posso salvar. E fazendo açoitá-Lo, entregou-O para ser crucificado.

Pilatos anelava libertar a Jesus. Viu, porém, que não podia fazer isso e conservar ainda sua posição e honra. De preferência a perder seu poder no mundo, escolheu sacrificar uma vida inocente. Quantos há que, para escapar a um prejuízo ou sofrimento, de igual modo sacrificam o princípio! A consciência e o dever apontam um caminho, e o interesse egoísta indica outro. A corrente dirige-se vigorosamente para o lado errado, e aquele que transige com o mal é arrebatado para a espessa treva da culpa.

Pilatos cedeu às exigências da turba. A arriscar sua posição, preferiu entregar Jesus para ser crucificado. A despeito de suas precauções, porém, exatamente o que temia lhe sobreveio mais tarde. Tiraram-lhe as honras, apearam-no de seu alto posto e, aguilhoado pelo remorso e o orgulho ferido, pôs termo à própria vida não muito depois da crucifixão de Cristo. Assim todos quantos transigem com o pecado só conseguirão tristeza e ruína. "Há caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte." Prov. 14:12.

Quando Pilatos se declarou inocente do sangue de Cristo, Caifás respondeu desafiadoramente: "O Seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos." Mat. 27:25. As tremendas palavras foram repetidas pelos sacerdotes e príncipes; e ecoadas pela turba, num bramir não humano de vozes. Toda a multidão respondeu, dizendo: "Seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos."

O povo de Israel fizera sua escolha. Apontando a Jesus,

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dissera: "Fora daqui com Este, e solta-nos Barrabás." Este, ladrão e homicida, representava Satanás. Cristo era o representante de Deus. Cristo fora rejeitado; Barrabás, preferido. Barrabás teriam eles. Fazendo sua escolha, aceitaram aquele que desde o princípio, fora mentiroso e homicida. Satanás era seu guia. Como nação, seguir-lhe-iam os ditames. Fariam suas obras. Teriam de suportar-lhe o domínio. O povo que escolheu Barrabás, em vez de Cristo, havia de sentir a crueldade de Barrabás enquanto o tempo durasse.

Olhando ao ferido Cordeiro de Deus, os judeus exclamaram: "O Seu sangue seja sobre nós e sobre nossos filhos." Mat. 27:25. Aquele espantoso brado subiu ao trono de Deus. Aquela sentença pronunciada contra si mesmos, foi escrita no Céu. Foi ouvida aquela súplica. O sangue do Filho de Deus tornou-se perpétua maldição sobre seus filhos e os filhos de seus filhos.

Terrivelmente se cumpriu isso na destruição de Jerusalém. Terrivelmente se tem manifestado na condição do povo judeu durante dezoito séculos - um ramo cortado da videira, um morto e estéril ramo para ser colhido e lançado no fogo. De terra para terra através do mundo, de século em século mortos, mortos em ofensas e pecados!

Terrivelmente será aquela súplica atendida no grande dia do Juízo. Quando Cristo volver de novo à Terra, não como Preso rodeado pela plebe, hão de vê-Lo os homens. Hão de vê-Lo então como o Rei do Céu. Cristo virá em Sua própria glória, na glória do Pai e na dos santos anjos. Milhares de milhares de anjos, os belos e triunfantes filhos de Deus, possuindo extrema formosura e glória, hão de acompanhá-Lo. Então Se assentará no trono de Sua glória, e diante dEle se congregarão as nações. Então todo olho O verá, e também os que O traspassaram. Em lugar de uma coroa de espinhos, terá uma de glória - uma coroa dentro de outra. Em lugar do velho vestido real de púrpura, trajará vestes do mais puro branco, "tais como nenhum lavandeiro sobre a Terra os poderia branquear". Mar. 9:3. E nas vestes e na Sua coxa estará escrito um nome: "Rei dos reis, e Senhor dos senhores." Apoc. 19:16. Os que dEle zombaram e O feriram, ali estarão. Os sacerdotes e príncipes contemplarão novamente a cena do tribunal. Cada circunstância há de aparecer diante deles, como se escrita com letras de fogo. Então os que rogaram: "O Seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos" (Mat. 27:25) receberão a resposta a sua súplica. Então o mundo inteiro saberá e compreenderá.

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Perceberão a quem eles, pobres, fracos e finitos seres humanos estiveram a combater. Em terrível agonia e horror hão de clamar às montanhas e às rochas: "Caí sobre nós, e escondei-nos do rosto dAquele que está assentado sobre o trono, e da ira do Cordeiro; porque é vindo o grande dia da Sua ira; e quem poderá subsistir?" Apoc. 6:16 e 17.

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O Calvário

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"E quando chegaram ao lugar chamado a Caveira, ali O crucificaram." Luc. 23:33. "Para santificar o povo pelo Seu próprio sangue", Cristo "padeceu fora da porta." Heb. 13:12. Pela transgressão da lei divina, Adão e Eva foram banidos do Éden. Cristo, nosso substituto, devia sofrer fora dos limites de Jerusalém. Ele morreu fora da porta, onde eram executados malfeitores e homicidas. Plenas de sentido são as palavras: "Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-Se maldição por nós." Gál. 3:13.

Uma vasta multidão seguiu a Jesus do tribunal ao Calvário. As novas de Sua condenação se espalharam por toda Jerusalém, e gente de todas as classes e de todas as categorias afluíam ao lugar da crucifixão. Os sacerdotes e principais haviam-se comprometido, caso Jesus lhes fosse entregue, a não molestar Seus seguidores; e os discípulos da cidade e dos arredores uniram-se à multidão que acompanhava o Salvador.

Ao passar Jesus a porta do pátio de Pilatos, a cruz preparada para Barrabás foi-lhe deposta nos feridos, sangrentos ombros. Dois companheiros de Barrabás deviam sofrer a morte ao mesmo tempo que Jesus, e sobre eles também foi posta a cruz. A carga do Salvador era demasiado pesada para o estado de fraqueza e sofrimento

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em que Se achava. Desde a ceia pascoal com os discípulos, não tomara Ele nenhum alimento, nem bebera. Angustiara-Se no jardim do Getsêmani em conflito com as forças satânicas. Suportara a agonia da traição, e vira os discípulos abandonarem-nO e fugir. Fora levado a Anás, depois a Caifás e em seguida a Pilatos. De Pilatos fora mandado para Herodes, e reenviado a Pilatos. De um insulto para outro, de uma a outra zombaria, duas vezes torturado por açoites - toda aquela noite fora uma sucessão de cenas de molde a provar até ao máximo uma alma de homem. Cristo não fracassara. Não proferira palavra alguma que não visasse a glória de Deus. Através de toda a ignominiosa farsa de julgamento, portara-Se com firmeza e dignidade. Mas quando após ser açoitado pela segunda vez, a cruz Lhe foi posta sobre os ombros, a natureza humana não mais podia suportar. Caiu desmaiado sob o fardo.

A multidão que seguia o Salvador viu Seus fracos, vacilantes passos, mas não manifestou compaixão. Insultaram-nO e injuriaram-nO por não poder conduzir a pesada cruz. De novo Lhe foi posto em cima o fardo, e outra vez caiu desmaiado por terra. Viram os perseguidores que Lhe era impossível levar mais adiante aquele peso. Não sabiam onde encontrar alguém que quisesse transportar a humilhante carga. Os próprios judeus não o podiam fazer, pois a contaminação os impediria de observar a páscoa. Ninguém, mesmo dentre a turba que O acompanhava, quereria rebaixar-se e carregar a cruz.

Por essa ocasião um estranho, Simão, cireneu, chegando do campo, encontra-se com o cortejo. Ouve as zombarias e a linguagem baixa da turba; ouve as palavras desdenhosamente repetidas: Abri caminho para o Rei dos judeus! Detém-se espantado com a cena; e, ao exprimir ele compaixão, agarram-no e lhe põem nos ombros a cruz.

Simão ouvira falar de Jesus. Seus filhos criam no Salvador, mas ele próprio não era discípulo. O conduzir a cruz ao Calvário foi-lhe uma bênção e, posteriormente, mostrou-se sempre grato por essa providência. Isso o levou a tomar sobre si a cruz de Cristo por sua própria escolha, suportando-lhe sempre animosamente o peso.

Não poucas mulheres se acham na multidão que segue à Sua morte cruel Aquele que não foi condenado. Sua atenção fixa-se em Jesus. Algumas O tinham visto antes. Outras Lhe levaram doentes e sofredores. Outras ainda foram, elas mesmas, curadas por Ele. Relata-se então a história das cenas que ocorreram. Elas se admiram do ódio da turba para com Aquele por quem o coração se lhes comove quase a ponto de partir-se. E não obstante

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a ação da enfurecida massa, e as coléricas palavras dos sacerdotes e principais, essas mulheres exprimem o compassivo interesse que as possui. Ao cair Jesus desfalecido sob a cruz, irrompem em lamentoso pranto.

Foi isso unicamente que atraiu a atenção de Cristo. Embora em meio de tanto sofrimento, enquanto suportava os pecados do mundo, não era indiferente à expressão de dor. Com terna simpatia contemplou essas mulheres. Não eram crentes nEle; sabia que não O estavam lamentando como um enviado de Deus, mas movidas por sentimentos de piedade humana. Não lhes desprezava a simpatia, mas esta Lhe despertou no coração outra, mais profunda ainda, para com elas mesmas. "Filhas de Jerusalém", disse Ele, "não choreis por Mim, mas chorai antes por vós mesmas, e por vossos filhos." Luc. 23:28. Do espetáculo que tinha diante de Si, alongou Jesus o olhar ao tempo da destruição de Jerusalém. Naquela terrível cena, muitas das que estavam chorando agora por Ele, haveriam de perecer com seus filhos.

Da queda de Jerusalém passaram os pensamentos de Jesus a um mais amplo juízo. Na destruição da impenitente cidade viu Ele um símbolo da final destruição a sobrevir ao mundo. Disse: "Então começarão a dizer aos montes: Caí sobre nós, e aos outeiros: Cobri-nos. Porque, se ao madeiro verde fazem isto, que se fará ao seco?" Luc. 23:30 e 31. Pelo madeiro verde, Jesus Se representava a Si mesmo, o inocente Redentor. Deus permitiu que Sua ira contra a transgressão caísse sobre Seu amado Filho. Devia ser crucificado pelos pecados dos homens. Que sofrimento, então, havia de suportar o pecador que continuasse na transgressão? Todos os impenitentes e incrédulos teriam de conhecer uma dor e miséria que a língua é impotente para exprimir.

Da multidão que acompanhava o Salvador ao Calvário, muitos O haviam seguido com jubilosas hosanas e agitando palmas, enquanto marchava triunfalmente para Jerusalém. Mas não poucos dos que então Lhe entoaram louvores porque era popular assim fazer, avolumavam agora o clamor: "Crucifica-O, crucifica-O"! Luc. 23:21. Quando Jesus cavalgava o jumento em direção de Jerusalém, as esperanças dos discípulos subiram ao mais alto grau. Tinham-se-Lhe aglomerado em torno, sentindo ser elevada honra estar ligados a Ele. Agora, em Sua humilhação, seguiam-nO a distância. Estavam possuídos de pesar e curvados ante o malogro de suas esperanças. Como se verificavam as palavras de Cristo: "Todos vós esta noite vos escandalizareis em Mim; porque está escrito: Ferirei o Pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão." Mat. 26:31.

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Chegando ao lugar da execução, os presos foram ligados ao instrumento da tortura. Os dois ladrões lutaram às mãos dos que os puseram na cruz; Jesus, porém, nenhuma resistência opôs. A mãe de Jesus, apoiada por João, o discípulo amado, seguira seu Filho ao Calvário. Vira-O desmaiar sob o peso do madeiro, e anelara suster com a mão aquela cabeça ferida, banhar aquela fronte que um dia se lhe reclinara no seio. Não lhe era, no entanto, concedido esse triste privilégio. Ela, como os discípulos, acalentava ainda a esperança de que Jesus manifestasse Seu poder e Se livrasse dos inimigos. Mais uma vez seu coração desfaleceria, ao evocar as palavras em que lhe haviam sido preditas as próprias cenas que se estavam desenrolando então. Enquanto os ladrões eram amarrados à cruz, ela observava em angustiosa suspensão. Haveria de Aquele que dera vida aos mortos, sofrer o ser Ele próprio crucificado? Suportaria o Filho de Deus o ser tão cruelmente morto? Deveria ela renunciar a sua fé de que Jesus era o Messias? Deveria testemunhar-Lhe a vergonha e a dor, sem ter sequer o consolo de servi-Lo em Sua aflição? Viu-Lhe as mãos estendidas sobre a cruz; foram trazidos o martelo e os pregos, e, ao serem estes cravados na tenra carne, os discípulos, fundamente comovidos, levaram da cruel cena o corpo desfalecido da mãe de Jesus.

O Salvador não murmurou uma queixa. O rosto permaneceu-Lhe calmo e sereno, mas grandes gotas de suor borbulhavam-Lhe na fronte. Nenhuma mão piedosa a enxugar-Lhe do rosto o suor da morte, nem palavras de simpatia e inabalável fidelidade para Lhe confortar o coração humano. Enquanto os soldados executavam a terrível obra, Jesus orava pelos inimigos: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." Luc. 23:34. Seu pensamento passou da dor própria ao pecado dos que O perseguiam, e à terrível retribuição que lhes caberia. Nenhuma maldição invocou sobre os soldados que O estavam tratando tão rudemente. Nenhuma vingança pediu contra os sacerdotes e príncipes que contemplavam com maligna satisfação o cumprimento de seu desígnio. Cristo Se apiedou deles em sua ignorância e culpa. Só exalou uma súplica por seu perdão - "porque não sabem o que fazem".

Soubessem eles que estavam torturando Aquele que viera salvar da eterna ruína a raça pecadora, e ter-se-iam possuído de remorso e horror. Sua ignorância, porém, não lhes tirava a culpa; pois era seu privilégio conhecer e aceitar a Jesus como seu

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Salvador. Alguns deles veriam ainda o seu pecado, e arrepender-se-iam e se converteriam. Alguns, por sua impenitência, tornariam, a seu respeito, uma impossibilidade o deferimento da súplica de Jesus. Todavia, assim mesmo o desígnio de Deus tinha seu cumprimento. Jesus estava adquirindo o direito de Se tornar o advogado dos homens na presença do Pai.

Aquela oração de Cristo por Seus inimigos abrangia o mundo inteiro. Envolvia todo pecador que já vivera ou viria ainda a viver, desde o começo do mundo, até ao fim dos séculos. Pesa sobre todos a culpa de crucificar o Filho de Deus. A todos é gratuitamente oferecido o perdão. "Quem quiser" pode ter paz com Deus, e herdar a vida eterna.

Assim que Jesus foi pregado à cruz, ergueram-na homens vigorosos, sendo com grande violência atirada dentro do lugar para ela preparado. Isso produziu a mais intensa agonia ao Filho de Deus. Pilatos escreveu então uma inscrição em hebraico, grego e latim, colocando-a no madeiro, por sobre a cabeça de Jesus. Rezava: "Jesus Nazareno, Rei dos Judeus." Essa inscrição irritou os judeus. Haviam gritado no pátio de Pilatos: "Crucifica-O"! "Não temos rei senão o César". João 19:15. Tinham declarado que, quem quer que reconhecesse outro rei, era traidor. Pilatos escreveu o sentimento que haviam expresso. Nenhuma ofensa era mencionada, a não ser que Jesus era Rei dos Judeus. A inscrição era um virtual reconhecimento da fidelidade dos judeus ao poder romano. Declarava que qualquer que pretendesse ser Rei de Israel, seria por eles julgado digno de morte. Os sacerdotes se haviam enganado a si mesmos. Quando estavam tramando a morte de Cristo, Caifás declarara conveniente que um homem morresse pela nação. Agora se revelava sua hipocrisia. A fim de eliminar a Cristo, prontificaram-se a sacrificar a própria existência nacional.

Os sacerdotes viram o que tinham feito, e pediram a Pilatos que mudasse a inscrição. Disseram: "Não escrevas Rei dos Judeus; mas que Ele disse: Sou Rei dos Judeus." Mas Pilatos estava indignado contra si mesmo por causa de sua anterior fraqueza, e desprezou inteiramente os invejosos e astutos sacerdotes e príncipes. Respondeu friamente: "O que escrevi, escrevi." João 19:21 e 22.

Um poder mais alto que Pilatos ou os judeus dirigia a colocação daquela inscrição por sobre a cabeça de Jesus. Na providência divina, devia ela despertar reflexão e o exame das Escrituras. O lugar em que Cristo estava crucificado achava-se próximo da cidade. Milhares de pessoas de todas as terras se encontravam em Jerusalém naquele tempo, e a inscrição que declarava

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Jesus de Nazaré o Messias lhes chamaria a atenção. Era uma verdade palpitante, transcrita por mão guiada por Deus.

Nos sofrimentos de Cristo sobre a cruz, cumpriu-se a profecia. Séculos antes da crucifixão, predissera o Salvador o tratamento que havia de receber. Dissera: "Pois Me rodearam cães; o ajuntamento de malfeitores Me cercou, transpassaram-Me as mãos e os pés. Poderia contar todos os Meus ossos; eles Me vêem e Me contemplam. Repartem entre si os Meus vestidos, e lançam sortes sobre a Minha túnica." Sal. 22:16-18. A profecia quanto a Suas vestes cumpriu-se sem conselho nem interferência de amigos ou inimigos do Crucificado. Aos soldados que O puseram na cruz, foram dados os Seus vestidos. Cristo ouviu a altercação dos homens, enquanto os dividiam entre si. Sua túnica era tecida de alto a baixo, sem costuras, e disseram: "Não a rasguemos, mas lancemos sorte sobre ela, para ver de quem será."

Em outra profecia declarou o Salvador: "Afrontas Me quebrantaram o coração, e estou fraquíssimo. Esperei por alguém que tivesse compaixão, mas não houve nenhum; e por consoladores, mas não os achei. Deram-Me fel por mantimento, e na Minha sede Me deram a beber vinagre." Sal. 69:20 e 21. Aos que padeciam morte de cruz, era permitido ministrar uma poção entorpecente, para amortecer a sensação de dor. Essa foi oferecida a Jesus; mas, havendo-a provado, recusou-a. Não aceitaria nada que Lhe obscurecesse a mente. Sua fé devia ater-se firmemente a Deus. Essa era Sua única força. Obscurecer a mente era oferecer vantagem a Satanás.

Os inimigos de Jesus descarregaram sobre Ele sua cólera, enquanto pendia da cruz. Sacerdotes, príncipes e escribas uniram-se à turba em zombar do moribundo Salvador. No batismo e na transfiguração, a voz de Deus se fizera ouvir, proclamando Cristo Seu Filho. Outra vez justamente antes de ser Cristo traído, o Pai falara, testificando de Sua divindade. Agora, porém, muda permanecia a voz do Céu. Nenhum testemunho se ouviu em favor de Cristo. Sozinho sofreu maus-tratos e escárnios da parte dos ímpios.

"Se és Filho de Deus", diziam, "desce da cruz." "Salve-Se a Si mesmo, se este é o Cristo, o escolhido de Deus." No deserto da tentação, declarara Satanás: "Se Tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães." "Se Tu és o Filho de Deus, lança-Te de aqui abaixo" - do pináculo do templo. Mat. 4:3 e 6. E Satanás com seus anjos, em forma humana, achava-se presente ao

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pé da cruz. O arquiinimigo e suas hostes cooperavam com os sacerdotes e príncipes. Os mestres do povo haviam estimulado a turba ignorante a pronunciar julgamento contra um homem a quem muitos dentre ela nem sequer tinham visto, até serem solicitados a dar testemunho contra Ele. Sacerdotes, príncipes, fariseus e a endurecida plebe coligavam-se num satânico frenesi. Os guias religiosos se uniram a Satanás e a seus anjos. Cumpriam-lhes as ordens.

Jesus, sofrendo e moribundo, ouvia cada palavra, ao declararem os sacerdotes: "Salvou os outros, e não pode salvar-Se a Si mesmo. O Cristo, o Rei de Israel, desça agora da cruz, para que O vejamos e acreditemos." Mat. 27:42 e 43. Cristo poderia haver descido da cruz. Mas foi porque Ele não Se salvou a Si mesmo que o pecador tem esperança de perdão e favor para com Deus.

Em seu escárnio do Salvador, os que professavam ser os expoentes das profecias repetiam as próprias palavras que a inspiração predissera que profeririam nessa ocasião. Em sua cegueira, no entanto, não viam estar cumprindo a profecia. Aqueles que, em chacota, diziam as palavras: "Confiou em Deus; livre-O agora, se O ama; porque disse: Sou Filho de Deus", mal pensavam que seu testemunho havia de ressoar através dos séculos. Mas se bem que proferidas em escárnio, essas palavras levaram homens a pesquisar as Escrituras como nunca dantes tinham feito. Sábios ouviram, examinaram, ponderaram e oraram. Alguns houve que não descansaram enquanto não viram, comparando texto com texto, o sentido da missão de Cristo. Nunca houvera, anteriormente, tão geral conhecimento de Jesus como quando Ele pendia do madeiro. No coração de muitos que contemplavam a cena da crucifixão e ouviram as palavras de Cristo, estava resplandecendo a luz da verdade.

A Cristo, em Sua agonia na cruz, sobreveio um raio de conforto. Foi a súplica do ladrão arrependido. Ambos os homens que estavam crucificados com Jesus, a princípio O injuriaram; e um deles, sob os sofrimentos, tornara-se cada vez mais desesperado e provocante. Assim não foi, porém, com o companheiro. Este não era um criminoso endurecido; extraviara-se por más companhias, mas era menos culpado que muitos dos que ali se achavam ao pé da cruz, injuriando o Salvador. Vira e ouvira Jesus, e ficara convencido, por Seus ensinos, mas dEle fora desviado pelos sacerdotes e príncipes. Procurando abafar a convicção, imergira mais e mais fundo no pecado, até que foi preso, julgado como criminoso e condenado a morrer na cruz. No tribunal e a caminho para o Calvário, estivera em companhia de Jesus. Ouvira Pilatos declarar: "Não acho nEle crime algum." João 19:4. Notara-Lhe o porte

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divino, e Seu piedoso perdão aos que O atormentavam. Na cruz, vê os muitos grandes doutores religiosos estenderem desdenhosamente a língua, e ridicularizarem o Senhor Jesus. Vê o menear das cabeças. Ouve a ultrajante linguagem repetida por seu companheiro de culpa. "Se Tu és o Cristo, salva-Te a Ti mesmo, e a nós." Luc. 23:39. Ouve, entre os transeuntes, muitos a defenderem Jesus. Ouve-os repetindo-Lhe as palavras, narrando-Lhe as obras. Volve-lhe a convicção de que Este é o Cristo. Voltando-se para seu companheiro no crime, diz: "Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação?" Luc. 23:40. Os ladrões moribundos não mais têm a temer os homens. Mas um deles é assaltado pela convicção de que há um Deus a temer, um futuro a fazê-lo tremer. E agora, todo poluído pelo pecado como se acha, a história de sua vida está a findar. "E nós, na verdade, com justiça", geme ele, "porque recebemos o que nossos feitos mereciam; mas Este nenhum mal fez." Luc. 23:41.

Não há questão agora. Não há dúvidas, nem censuras também. Quando condenado por seu crime, o ladrão ficara possuído de desânimo e desespero; mas pensamentos estranhos, ternos, surgem agora. Evoca tudo quanto ouvira de Jesus, como Ele curara os doentes e perdoara os pecados. Ouvira as palavras dos que nEle criam e O seguiram em pranto. Vira e lera o título por sobre a cabeça do Salvador. Ouvira-o repetido pelos que passavam, alguns com lábios tristes e trêmulos, outros com gracejos e zombarias. O espírito do Pai ilumina-lhe a mente, e pouco a pouco se liga a cadeia das provas. Em Jesus ferido, zombado e pendente da cruz, vê o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Num misto de esperança e de agonia em sua voz, a desamparada, moribunda alma atira-se sobre o agonizante Salvador. "Senhor, lembra-Te de mim, quando vieres no Teu reino." Luc. 23:42, Versão Trinitariana.

A resposta veio pronta. Suave e melodioso o acento, cheias de amor, de compaixão e de poder as palavras: "Na verdade te digo hoje, que serás comigo no Paraíso." Luc. 23:43.

Por longas horas de agonia, injúrias e escárnios caíram aos ouvidos de Jesus. Pendente da cruz, ouve ainda em volta o som das zombarias e maldições. Coração anelante, estivera atento a ver se ouvia alguma expressão de fé da parte dos discípulos. E ouvira apenas as lamentosas palavras: "Nós esperávamos que fosse Ele o que remisse a Israel." Luc. 24:21. Quão grata foi, pois, ao Salvador a declaração de fé e amor do ladrão prestes a morrer! Enquanto os dirigentes judeus negam a Jesus e Seus próprios discípulos duvidam de Sua divindade, o pobre ladrão, no limiar da

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eternidade, Lhe chama Senhor. Muitos estavam dispostos a chamá-Lo Senhor quando operava milagres, e depois de haver ressurgido do sepulcro; ninguém, no entanto, O reconheceu enquanto, moribundo, pendia da cruz, a não ser o ladrão arrependido, salvo à hora undécima.

Os espectadores ouviram as palavras do ladrão, quando chamou Senhor a Jesus. O tom do arrependido despertou-lhes a atenção. Aqueles que, ao pé da cruz, questionaram pelas vestes de Cristo e lançaram sortes sobre a túnica, pararam para escutar. Emudeceram as vozes iradas. Com a respiração suspensa, olhavam para Cristo e esperaram a resposta daqueles lábios já quase sem vida.

Ao proferir Ele as palavras de promessa, brilhante, vívido clarão penetrou a escura nuvem que parecia envolver a cruz. Ao ladrão contrito sobreveio a perfeita paz da aceitação de Deus. Em Sua humilhação, era Cristo glorificado. Aquele que, a todos os outros olhos, parecia vencido, era o Vencedor. Foi reconhecido como O que leva os pecados. Os homens podem exercer poder sobre Seu corpo humano. Podem-Lhe ferir as santas fontes com a coroa de espinhos. Podem despojá-Lo das vestes e contender sobre a divisão das mesmas. Não O podem, porém, privar do poder de perdoar pecados. Morrendo, dá testemunho em favor de Sua divindade e da glória do Pai. Seu ouvido não está agravado para que não possa ouvir, nem sua mão encurtada para não poder salvar. É Seu direito salvar perfeitamente a todos quantos  se chegam a Deus por Ele.

Na verdade te digo hoje, que serás comigo no Paraíso. Cristo não prometeu que o ladrão estaria com Ele no Paraíso naquele dia. Ele próprio não foi naquele dia para o Paraíso. Dormiu no sepulcro e, na manhã da ressurreição, disse: "Ainda não subi para Meu Pai." João 20:17. Mas no dia da crucifixão, o dia da aparente derrota e treva, foi feita a promessa. "Hoje", enquanto morria na cruz como malfeitor, Cristo dava ao pobre pecador a certeza: "Tu estarás comigo no Paraíso."

Os ladrões crucificados com Jesus foram colocados "um de cada lado, e Jesus no meio". Isso foi feito por instrução dos sacerdotes e principais. A posição de Cristo entre os ladrões indicava ser Ele o maior criminoso dos três. Assim se cumpriu a escritura: "Foi contado com os transgressores." Isa. 53:12. A inteira significação de seu ato, porém, não viram os sacerdotes. Como Jesus crucificado com os ladrões, foi posto "no meio", assim foi Sua cruz colocada no meio de um mundo a perecer no pecado. E as perdoadoras palavras dirigidas ao ladrão arrependido, fizeram brilhar uma luz que brilhará até aos remotos cantos da Terra.

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Com espanto contemplavam os anjos o infinito amor de Jesus, que, sofrendo a mais intensa agonia física e mental, pensava apenas nos outros e animava a arrependida alma a crer. Em Sua humilhação, dirigira-Se, como profeta, às filhas de Jerusalém; como sacerdote e advogado, intercedera com o Pai pelo perdão de Seus assassinos; como amorável Salvador perdoara os pecados do arrependido ladrão.

Enquanto o olhar de Jesus vagueava pela multidão que O cercava, uma figura Lhe prendeu a atenção. Ao pé da cruz se achava Sua mãe, apoiada pelo discípulo João. Ela não podia suportar permanecer longe de seu Filho; e João, sabendo que o fim se aproximava, trouxera-a de novo para perto da cruz. Na hora de Sua morte, Cristo lembrou-Se de Sua mãe. Olhando-lhe o rosto abatido pela dor, e depois a João, disse, dirigindo-Se a ela: "Mulher, eis aí o teu filho"; e depois a João: "Eis aí tua mãe." João 19:26 e 27. João entendeu as palavras de Cristo, e aceitou o encargo. Levou imediatamente Maria para sua casa, e daquela hora em diante dela cuidou ternamente. Ó piedoso, amorável Salvador! por entre toda a Sua dor física e mental angústia, teve solícito cuidado para com Sua mãe! Não possuía dinheiro com que lhe provesse o conforto; achava-Se, porém, entronizado na alma de João, e entregou-lhe Sua mãe como precioso legado. Assim providenciou para ela aquilo de que mais necessitava - a terna simpatia de alguém que a amava porque ela amava a Jesus. E, acolhendo-a como santo legado, estava João recebendo grande bênção. Ela lhe era uma contínua recordação de seu querido Mestre.

O perfeito exemplo do amor filial de Cristo resplandece com não esmaecido brilho por entre a neblina dos séculos. Durante cerca de trinta anos Jesus, por Sua labuta diária, ajudara nas responsabilidades domésticas. E agora, mesmo em Sua derradeira agonia, Se lembra de providenciar em favor de Sua mãe viúva e aflita. O mesmo espírito se manifestará em todo discípulo de nosso Senhor. Os que seguem a Cristo sentirão ser uma parte de sua religião respeitar os pais e prover-lhes as necessidades. O pai e a mãe nunca deixarão de receber, do coração em que se abriga o amor de Cristo, solícito cuidado e terna simpatia.

E agora, estava a morrer o Senhor da glória, o Resgate da raça. Entregando a preciosa vida, não foi Cristo sustido por triunfante alegria. Tudo eram opressivas sombras. Não era o temor da morte que O oprimia. Nem a dor e a ignomínia da cruz Lhe causavam a inexprimível angústia. Cristo foi o príncipe dos sofredores; mas Seu sofrimento provinha do senso da malignidade do pecado, o conhecimento de que, mediante a familiaridade com

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o mal, o homem se tornara cego à enormidade do mesmo. Cristo viu quão profundo é o domínio do pecado no coração humano, quão poucos estariam dispostos a romper com seu poder. Sabia que, sem o auxílio divino, a humanidade devia perecer, e via multidões perecerem ao alcance de abundante auxílio.

Sobre Cristo como nosso substituto e penhor, foi posta a iniqüidade de nós todos. Foi contado como transgressor, a fim de que nos redimisse da condenação da lei. A culpa de todo descendente de Adão pesava-Lhe sobre a alma. A ira de Deus contra o pecado, a terrível manifestação de Seu desagrado por causa da iniqüidade, encheram de consternação a alma de Seu Filho. Toda a Sua vida anunciara Cristo ao mundo caído as boas novas da misericórdia do Pai, de Seu amor cheio de perdão. A salvação para o maior pecador, fora Seu tema. Mas agora, com o terrível peso de culpas que carrega, não pode ver a face reconciliadora do Pai. O afastamento do semblante divino, do Salvador, nessa hora de suprema angústia, penetrou-Lhe o coração com uma dor que nunca poderá ser bem compreendida pelo homem. Tão grande era essa agonia, que Ele mal sentia a dor física.

Satanás torturava com cruéis tentações o coração de Jesus. O Salvador não podia enxergar para além dos portais do sepulcro. A esperança não Lhe apresentava Sua saída da sepultura como vencedor, nem Lhe falava da aceitação do sacrifício por parte do Pai. Temia que o pecado fosse tão ofensivo a Deus, que Sua separação houvesse de ser eterna. Cristo sentiu a angústia que há de experimentar o pecador quando não mais a misericórdia interceder pela raça culpada. Foi o sentimento do pecado, trazendo a ira divina sobre Ele, como substituto do homem, que tão amargo tornou o cálice que sorveu, e quebrantou o coração do Filho de Deus.

Com assombro presenciara os anjos a desesperada agonia do Salvador. As hostes do Céu velaram o rosto, do terrível espetáculo. A inanimada natureza exprimiu sua simpatia para com seu insultado e moribundo Autor. O Sol recusou contemplar a espantosa cena. Seus raios plenos, brilhantes, iluminavam a Terra ao meio-dia, quando, de súbito, pareceu apagar-se. Completa escuridão, qual um sudário, envolveu a cruz. "Houve trevas em toda a Terra até à hora nona." Mar. 15:33. Não houve eclipse ou outra qualquer causa natural para essa escuridão, tão espessa como a da meia-noite sem luar nem estrelas. Foi miraculoso testemunho dado por Deus, para que se pudesse confirmar a fé das vindouras gerações.

Naquela densa treva ocultava-Se a presença de Deus. Ele faz da treva o Seu pavilhão, e esconde Sua glória dos olhos humanos.

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Deus e Seus santos anjos estavam ao pé da cruz. O Pai estava com o Filho. Sua presença, no entanto, não foi revelada. Houvesse Sua glória irrompido da nuvem, e todo espectador humano teria sido morto. E naquela tremenda hora não devia Cristo ser confortado com a presença do Pai. Pisou sozinho o lagar, e dos povos nenhum havia com Ele.

Na espessa escuridão, velou Deus a derradeira agonia humana de Seu Filho. Todos quantos viram Cristo em Seu sofrimento, convenceram-se de Sua divindade. Aquele rosto, uma vez contemplado pela humanidade, não seria nunca mais esquecido. Como a fisionomia de Caim lhe exprimia a culpa de homicida, assim o semblante de Cristo revelava inocência, serenidade, benevolência - a imagem de Deus. Mas Seus acusadores não queriam dar atenção ao cunho celestial. Durante longas horas de agonia fora Cristo contemplado pela escarnecedora multidão. Agora, ocultou-O misericordiosamente o manto divino.

Parecia haver baixado sobre o Calvário um silêncio sepulcral. Inominável terror apoderou-se da multidão que circundava a cruz. As maldições e injúrias cessaram a meio das frases iniciadas. Homens, mulheres e crianças caíram prostrados por terra. De quando em quando irradiavam da nuvem vívidos clarões, mostrando a cruz e o crucificado Redentor. Sacerdotes, príncipes, escribas, executores bem como a turba, todos pensavam haver chegado o momento de sua retribuição. Depois de algum tempo, murmuravam alguns que Jesus desceria agora da cruz. Tentavam outros, às apalpadelas, achar o caminho de volta para a cidade, batendo no peito e lamentando de temor.

À hora nona, ergueu-se a treva de sobre o povo, mas continuou a envolver o Salvador. Era um símbolo da agonia e do horror que pesavam sobre o coração dEle. Olho algum podia penetrar a escuridão que rodeava a cruz, e ninguém podia sondar a sombra mais profunda ainda que envolvia a sofredora alma de Cristo. Os furiosos relâmpagos pareciam dirigidos contra Ele ali pendente da cruz. Então Jesus clamou com grande voz: "Eli, Eli, lamá sabactâni? que traduzido, é: Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?" Mar. 15:34. Ao baixarem sobre o Salvador as trevas exteriores, muitas vozes exclamaram: "A vingança do Céu está sobre Ele. Os raios da ira divina são contra Ele lançados, porque pretendeu ser Filho de Deus." Muitos dos que nEle criam, ouviram-Lhe o desesperado grito. E abandonou-os a esperança. Se Deus desamparara a Jesus, em quem podiam confiar Seus seguidores?

Quando as trevas se ergueram do opresso espírito de Cristo, reavivou-se-Lhe o sentido do sofrimento físico, e disse: "Tenho

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sede." João 19:28. Um dos soldados romanos, tocado de piedade, ao contemplar os lábios ressequidos, tomou uma esponja, numa haste de hissopo, e, imergindo-a numa vasilha de vinagre, ofereceu-a a Jesus. Mas os sacerdotes zombavam-Lhe da agonia. Enquanto as trevas cobriam a Terra, encheram-se de temor; dissipado este, porém voltou-lhes o medo de que Jesus lhes escapasse ainda. Interpretaram mal Suas palavras: "Eli, Eli, lamá sabactâni." Mat. 27:46. Com amargo desprezo e escárnio, disseram: "Este chama por Elias." Recusaram a última oportunidade de aliviar-Lhe os sofrimentos. "Deixa", disseram, "vejamos se Elias vem livrá-Lo." Mat. 27:47 e 49.

O imaculado Filho de Deus pendia da cruz, a carne lacerada pelos açoites; aquelas mãos tantas vezes estendidas para abençoar, pregadas ao lenho; aqueles pés tão incansáveis em serviço de amor, cravados no madeiro; a régia cabeça ferida pela coroa de espinhos; aqueles trêmulos lábios entreabertos para deixar escapar um grito de dor. E tudo quanto sofreu - as gotas de sangue a Lhe correr da fronte, das mãos e dos pés, a agonia que Lhe atormentou o corpo, e a indizível angústia que Lhe encheu a alma ao ocultar-se dEle a face do Pai - tudo fala a cada filho da família humana, declarando: É por ti que o Filho de Deus consente em carregar esse fardo de culpa; por ti Ele destrói o domínio da morte, e abre as portas do Paraíso. Aquele que impôs calma às ondas revoltas, e caminhou por sobre as espumejantes vagas, que fez tremerem os demônios e fugir a doença, que abriu os olhos cegos e chamou os mortos à vida - ofereceu-Se a Si mesmo na cruz em

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sacrifício, e tudo isso por amor de ti. Ele, o que leva sobre Si os pecados, sofre a ira da justiça divina, e torna-Se mesmo pecado por amor de ti.

Silenciosos, aguardavam os espectadores o fim da terrível cena. O Sol saíra, mas a cruz continuava circundada de trevas. Sacerdotes e príncipes olhavam em direção de Jerusalém; e eis que a espessa nuvem pousara sobre a cidade e as planícies da Judéia. O Sol da Justiça, a Luz do mundo, retirava Seus raios da outrora favorecida cidade de Jerusalém. Os terríveis relâmpagos da ira divina dirigiam-se contra a malfadada cidade.

De repente, ergueu-se de sobre a cruz a sombra, e em tons claros, como de trombeta, tons que pareciam ressoar por toda a criação, bradou Jesus: "Está consumado." João 19:30. "Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito." Luc. 23:46. Uma luz envolveu a cruz, e o rosto do Salvador brilhou com uma glória semelhante à do Sol. Pendendo então a cabeça sobre o peito, expirou.

Em meio da horrível escuridão, aparentemente abandonado por Deus, sofrera Cristo as piores conseqüências da miséria humana. Durante aquelas horas pavorosas, apoiara-Se às provas que anteriormente Lhe haviam sido dadas quanto à aceitação de Seu Pai. Estava familiarizado com o caráter de Deus; compreendia-Lhe a justiça, a misericórdia e o grande amor. Descansava, pela fé nAquele a quem Se deleitara sempre em obedecer. E à medida que em submissão Se confiava a Deus, o sentimento da perda do favor do Pai se desvanecia. Pela fé saiu Cristo vitorioso.

Jamais testemunhara a Terra uma cena assim. A multidão permanecia paralisada e, respiração suspensa, fitava o Salvador. Baixaram novamente as trevas sobre a Terra, e um surdo ruído, como de forte trovão, se fez ouvir. Seguiu-se violento terremoto. As pessoas foram atiradas umas sobre as outras, amontoadamente. Estabeleceu-se a mais completa desordem e consternação. Partiram-se ao meio os rochedos nas montanhas vizinhas, rolando fragorosamente para as planícies. Fenderam-se sepulcros, sendo os mortos atirados para fora das covas. Dir-se-ia estar a criação desfazendo-se em átomos. Sacerdotes, príncipes, soldados, executores e povo, mudos de terror, jaziam prostrados por terra.

Ao irromper dos lábios de Cristo o grande brado: "Está consumado" (João 19:30), oficiavam os sacerdotes no templo. Era a hora do sacrifício da tarde. O cordeiro, que representava Cristo, fora levado para ser morto. Trajando o significativo e belo vestuário, estava o sacerdote com o cutelo erguido, qual Abraão quando prestes a matar o filho. Vivamente interessado, o povo

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acompanhava a cena. Mas eis que a Terra treme e vacila; pois o próprio Senhor Se aproxima. Com ruído rompe-se de alto a baixo o véu interior do templo, rasgado por mão invisível, expondo aos olhares da multidão um lugar dantes pleno da presença divina. Ali habitara o shekinah. Ali manifestara Deus Sua glória sobre o propiciatório. Ninguém, senão o sumo sacerdote, jamais erguera o véu que separava esse compartimento do resto do templo. Nele penetrava uma vez por ano, para fazer expiação pelos pecados do povo. Mas eis que esse véu é rasgado em dois. O santíssimo do santuário terrestre não mais é um lugar sagrado.

Tudo é terror e confusão. O sacerdote está para matar a vítima; mas o cutelo cai-lhe da mão paralisada, e o cordeiro escapa. O tipo encontrara o antítipo por ocasião da morte do Filho de Deus. Foi feito o grande sacrifício. Acha-se aberto o caminho para o santíssimo. Um novo, vivo caminho está para todos preparado. Não mais necessita a pecadora, aflita humanidade esperar a chegada do sumo sacerdote. Daí em diante, devia o Salvador oficiar como Sacerdote e Advogado no Céu dos Céus. Era como se uma voz viva houvesse dito aos adoradores: Agora têm fim todos os sacrifícios e ofertas pelo pecado. O Filho de Deus veio, segundo a Sua palavra: "Eis aqui venho (no princípio do Livro está escrito de Mim), para fazer, ó Deus, a Tua vontade." Heb. 10:7. "Por Seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção." Heb. 9:12.

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Está Consumado

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Cristo não entregou Sua vida antes que realizasse a obra que viera fazer, e ao exalar o espírito, exclamou: "Está consumado." João 19:30. Ganhara a batalha. Sua destra e Seu santo braço Lhe alcançaram a vitória. Como Vencedor, firmou Sua bandeira nas alturas eternas. Que alegria entre os anjos! Todo o Céu triunfou na vitória do Salvador. Satanás foi derrotado, e sabia que seu reino estava perdido.

Para os anjos e os mundos não caídos, o brado: "Está consumado" teve profunda significação. Fora em seu benefício, bem como no nosso, que se operara a grande obra da redenção. Juntamente conosco, compartilham eles os frutos da vitória de Cristo.

Até à morte de Jesus, o caráter de Satanás não fora ainda claramente revelado aos anjos e mundos não caídos. O arqui-apóstata se revestira por tal forma de engano, que mesmo os santos seres não lhe compreenderam os princípios. Não viram claramente a natureza de sua rebelião.

Era um ser admirável de poder e glória o que se pusera em oposição a Deus. De Lúcifer, diz o Senhor: "Tu és o aferidor da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura." Ezeq. 28:12. Lúcifer fora o querubim cobridor. Estivera à luz da presença divina. Fora o mais elevado de todos os seres criados, e o primeiro em revelar ao Universo os desígnios divinos. Depois de pecar, seu poder de

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enganar tornou-se consumado, e mais difícil o descobrir-lhe o caráter, em virtude da exaltada posição que mantivera junto do Pai.

Deus poderia haver destruído Satanás e seus adeptos tão facilmente, como se pode atirar um seixo à terra; assim não fez, porém. A rebelião não seria vencida pela força. Poder compulsor só se encontra sob o governo de Satanás. Os princípios do Senhor não são dessa ordem. Sua autoridade baseia-se na bondade, na misericórdia e no amor; e a apresentação desses princípios é o meio a ser empregado. O governo de Deus é moral, e verdade e amor devem ser o poder predominante.

Era desígnio divino colocar as coisas numa base de segurança eterna, sendo decidido nos conselhos celestiais que se concedesse tempo a Satanás para desenvolver os seus princípios, o fundamento de seu sistema de governo. Pretendera serem os mesmos superiores aos princípios divinos. Deu-se tempo para que os princípios de Satanás operassem, a fim de serem vistos pelo Universo celestial.

Satanás induziu o homem ao pecado, e o plano de redenção entrou em vigor. Por quatro mil anos, esteve Cristo trabalhando pelo reerguimento do homem, e Satanás por sua ruína e degradação. E o Universo celestial contemplava tudo.

Ao vir Jesus ao mundo, o poder de Satanás voltou-se contra Ele. Desde o tempo em que aqui apareceu, como a Criancinha de Belém, manobrou o usurpador para promover Sua destruição. Por todos os meios possíveis, procurou impedir Jesus de desenvolver infância perfeita, imaculada varonilidade, um ministério santo e sacrifício irrepreensível. Foi derrotado, porém. Não pôde levar Jesus a pecar. Não O conseguiu desanimar, ou desviá-Lo da obra para cuja realização viera ao mundo. Do deserto ao Calvário, foi açoitado pela tempestade da ira de Satanás, mas quanto mais impiedosa era ela, tanto mais firme Se apegava o Filho de Deus à mão de Seu Pai, avançando na ensangüentada vereda. Todos os esforços de Satanás para oprimi-Lo e vencê-Lo, só faziam ressaltar, mais nitidamente, a pureza de Seu caráter.

Todo o Céu, bem como os não caídos mundos, foram testemunhas do conflito. Com que profundo interesse seguiram as cenas finais da luta! Viram o Salvador penetrar no horto do Getsêmani, a alma vergando sob o horror de uma grande treva. Ouviram-Lhe o doloroso grito: "Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice." Mat. 26:39. À medida que dEle era retirada a presença do Pai, viram-nO aflito por uma dor mais atroz que a da grande e derradeira luta com a morte. Suor de sangue irrompeu-Lhe dos poros,

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gotejando no chão. Por três vezes foi-Lhe arrancada dos lábios a súplica de livramento. Não mais pôde o Céu suportar a cena, e um mensageiro de conforto foi enviado ao Filho de Deus.

O Céu viu a Vítima entregue às mãos da turba homicida, e, com zombaria e violência, impelida à pressa de um a outro tribunal. Ouviu os escárnios dos perseguidores por causa de Seu humilde nascimento. Ouviu a negação por entre juras e imprecações da parte de um de Seus mais amados discípulos. Viu a frenética obra de Satanás, e seu poder sobre o coração dos homens. Oh! terrível cena! o Salvador aprisionado à meia-noite no Getsêmani, arrastado daqui para ali, de um palácio a um tribunal, citado duas vezes perante sacerdotes, duas perante o Sinédrio, duas perante Pilatos, e uma diante de Herodes, escarnecido, açoitado, condenado e conduzido fora para ser crucificado, carregando o pesado fardo da cruz, por entre os lamentos das filhas de Jerusalém e as zombarias da gentalha!

Com dor e espanto contemplou o Céu a Cristo pendente da cruz, o sangue a correr-Lhe das fontes feridas, tendo na testa o sanguinolento suor. O sangue caía-Lhe, gota a gota, das mãos e dos pés, sobre a rocha perfurada para encaixar a cruz. As feridas abertas pelos cravos aumentavam ao peso que o corpo fazia sobre as mãos. Sua difícil respiração tornava-se mais rápida e profunda, à medida que Sua alma arquejava sob o fardo dos pecados do mundo. Todo o Céu se encheu de assombro quando, em meio de Seus terríveis sofrimentos, Cristo ergueu a oração: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." Luc. 23:34. E, no entanto, ali estavam homens formados à imagem de Deus, unidos para esmagar a vida de Seu unigênito Filho. Que cena para o Universo celeste!

Os principados e os poderes das trevas estavam congregados em torno da cruz, lançando no coração dos homens a diabólica sombra de incredulidade. Quando Deus criou esses seres para estar diante de seu trono, eram belos e gloriosos. Sua formosura e santidade estavam em harmonia com a exaltada posição que ocupavam. Enriquecidos com a sabedoria de Deus, cingiam-se com a armadura celestial. Eram os ministros de Jeová. Quem poderia, no entanto, reconhecer nos anjos caídos os gloriosos serafins que outrora ministravam nas cortes celestiais?

Instrumentos satânicos coligaram-se com homens maus em levar o povo a crer que Cristo era o maior dos pecadores, e torná-Lo objeto de abominação. Os que escarneciam de Cristo, enquanto pendia da cruz, estavam possuídos do espírito do primeiro grande rebelde. Ele os enchia de vis e aborrecíveis expressões.

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Inspirava-lhes as zombarias. Com tudo isso, porém, nada ganhou.

Houvesse-se podido achar um só pecado em Cristo, tivesse Ele num particular que fosse cedido a Satanás para escapar à horrível tortura, e o inimigo de Deus e do homem teria triunfado. Cristo inclinou a cabeça e expirou, mas manteve firme a Sua fé em Deus, e a Sua submissão a Ele. "E ouvi uma grande voz no Céu, que dizia: Agora chegada está a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do Seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é derribado, o qual diante do nosso Deus os acusava de dia e de noite." Apoc. 12:10.

Satanás viu que estava desmascarado. Sua administração foi exposta perante os anjos não caídos e o Universo celestial. Revelara-se um homicida. Derramando o sangue do Filho de Deus, desarraigou-se Satanás das simpatias dos seres celestiais. Daí em diante sua obra seria restrita. Qualquer que fosse a atitude que tomasse, não mais podia esperar os anjos ao virem das cortes celestiais, nem perante eles acusar os irmãos de Cristo de terem vestes de trevas e contaminação de pecado. Estavam rotos os derradeiros laços de simpatia entre Satanás e o mundo celestial.

Todavia, Satanás não foi então destruído. Os anjos não perceberam, nem mesmo aí, tudo quanto se achava envolvido no grande conflito. Os princípios em jogo deviam ser mais plenamente revelados. E por amor do homem, devia continuar a existência de Satanás. O homem, bem como os anjos, devia ver o contraste entre o Príncipe da Luz e o das trevas. Cumpria-lhes escolher a quem servir.

No início do grande conflito, declarara Satanás que a lei divina não podia ser obedecida, que a justiça era incompatível com a misericórdia, e que, fosse a lei violada, impossível seria ao pecador ser perdoado. Cada pecado devia receber seu castigo, argumentava Satanás; e se Deus abrandasse o castigo do pecado, não seria um Deus de verdade e justiça. Quando o homem violou a lei divina, e Lhe desprezou a vontade, Satanás exultou. Estava provado, declarou, que a lei não podia ser obedecida; o homem não podia ser perdoado. Por haver sido banido do Céu, depois da rebelião, pretendia que a raça humana devesse ser para sempre excluída do favor divino. O Senhor não podia ser justo, argumentava, e ainda mostrar misericórdia ao pecador.

Mas mesmo como pecador, achava-se o homem, para com Deus, em posição diversa da de Satanás. Lúcifer pecara, no Céu, em face da glória divina. A ele, como a nenhum outro ser criado, se revelou o amor de Deus. Compreendendo o caráter do Senhor,

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conhecendo-Lhe a bondade, preferiu Satanás seguir sua própria vontade independente e egoísta. Essa escolha foi decisiva. Nada mais havia que Deus pudesse fazer para o salvar. O homem, porém, foi enganado; obscureceu-se-lhe o espírito pelo sofisma de Satanás. A altura e a profundidade do amor divino, não as conhecia o homem. Para ele, havia esperança no conhecimento do amor de Deus. Contemplando-Lhe o caráter, podia ser novamente atraído para Ele.

Por meio de Jesus, foi a misericórdia divina manifesta aos homens; a misericórdia, no entanto, não pôs de parte a justiça. A lei revela os atributos do caráter de Deus, e nem um jota ou til da mesma se podia mudar, para ir ao encontro do homem em seu estado caído. Deus não mudou Sua lei, mas sacrificou-Se a Si mesmo em Cristo, para redenção do homem. "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo." II Cor. 5:19.

A lei requer justiça - vida justa, caráter perfeito; e isso não tem o homem para dar. Não pode satisfazer as reivindicações da santa lei divina. Mas Cristo, vindo à Terra como homem, viveu vida santa, e desenvolveu caráter perfeito. Estes oferece Ele como dom gratuito a todos quantos o queiram receber. Sua vida substitui a dos homens. Assim obtêm remissão de pecados passados, mediante a paciência de Deus. Mais que isso, Cristo lhes comunica os atributos divinos. Forma o caráter humano segundo a semelhança do caráter de Deus, uma esplêndida estrutura de força e beleza espirituais. Assim, a própria justiça da lei se cumpre no crente em Cristo. Deus pode ser "justo e justificador daquele que tem fé em Jesus". Rom. 3:26.

O amor de Deus tem-se expressado tanto em Sua justiça como em Sua misericórdia. A justiça é o fundamento de Seu trono, e o fruto de Seu amor. Era o desígnio de Satanás divorciar a misericórdia da verdade e da justiça. Buscou provar que a justiça da lei divina é um inimigo da paz. Mas Cristo mostrou que, no plano divino, elas estão indissoluvelmente unidas; uma não pode existir sem a outra. "A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram." Sal. 85:10.

Por Sua vida e morte, provou Cristo que a justiça divina não destrói a misericórdia, mas que o pecado pode ser perdoado, e que a lei é justa, sendo possível obedecer-lhe perfeitamente. As acusações de Satanás foram refutadas. Deus dera ao homem inequívoca prova de amor.

Outro engano devia ser então apresentado. Satanás declarou que a misericórdia destruía a justiça, que a morte de Cristo anulava a lei do Pai. Fosse possível ser a lei mudada ou anulada,

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então não era necessário Cristo ter morrido. Anular a lei, porém, seria imortalizar a transgressão e colocar o mundo sob o domínio de Satanás. Foi porque a lei é imutável, porque o homem só se pode salvar mediante a obediência a seus preceitos, que Jesus foi erguido na cruz. Todavia, os próprios meios por que Cristo estabeleceu a lei, foram apresentados por Satanás como destruindo-a. A esse respeito sobrevirá o derradeiro conflito da grande luta entre Cristo e Satanás.

O ser defeituosa a lei pronunciada pela própria voz divina, o haverem sido certas especificações postas à margem, eis a pretensão apresentada agora por Satanás. É o último grande engano que ele há de trazer sobre o mundo. Não necessita atacar toda a lei; se pode levar os homens a desrespeitar um só preceito, está conseguido seu objetivo. Pois "qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos". Tia. 2:10. Consentindo em transgredir um preceito, são os homens colocados sob o poder de Satanás. Substituindo a lei divina pela humana, procurará Satanás dominar o mundo. Essa obra é predita em profecia. Acerca do grande poder apóstata que é representante de Satanás, acha-se declarado: "Proferirá palavras contra o Altíssimo e destruirá os santos do Altíssimo, e cuidará em mudar os tempos e a lei; e eles serão entregues na sua mão." Dan. 7:25.

Os homens hão de certamente estabelecer suas leis para anular as de Deus. Procurarão obrigar a consciência de outros, e, em seu zelo para impor essas leis, oprimirão os semelhantes.

A guerra contra a lei divina, começada no Céu, continuará até ao fim do tempo. Todo homem será provado. Obediência ou desobediência, eis a questão a ser assentada por todo o mundo. Todos serão chamados a escolher entre a lei divina e as humanas. Aí se traçará a linha divisória. Não existirão senão duas classes. Todo caráter será plenamente desenvolvido; e todos mostrarão se escolheram o lado da lealdade ou o da rebelião.

Então virá o fim. Deus reivindicará Sua lei e livrará Seu povo. Satanás e todos quantos se lhe houverem unido em rebelião serão extirpados. O pecado e os pecadores perecerão, raiz e ramos (Mal. 4:1) - Satanás a raiz, e seus seguidores os ramos. Cumprir-se-á a palavra dirigida ao príncipe do mal: "Pois que estimas o teu coração como se fora o coração de Deus, ... te farei perecer, ó querubim protetor, entre pedras afogueadas. ... Em grande espanto te tornaste, e nunca mais serás para sempre." Ezeq. 28:6-19. Então "o ímpio não existirá; olharás para o seu lugar, e não aparecerá" (Sal. 37:10); "e serão como se nunca tivessem sido". Obad. 16.

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Isso não é um ato de poder arbitrário da parte de Deus. Os que Lhe rejeitavam a misericórdia ceifarão aquilo que semearam. Deus é a fonte da vida; e quando alguém escolhe o serviço do pecado, separa-se de Deus, desligando-se assim da vida. Ele está "separado da vida de Deus". Efés. 4:18. Cristo diz: "Todos os que Me aborrecem amam a morte." Prov. 8:36. Deus lhe dá existência por algum tempo, a fim de poderem desenvolver seu caráter e revelar seus princípios. Feito isso, receberão os resultados de sua própria escolha. Por uma vida de rebelião, Satanás e todos quantos a ele se unem colocam-se em tanta desarmonia com Deus, que Sua própria presença lhes é um fogo consumidor. A glória dAquele que é amor os destruirá.

Ao princípio do grande conflito, os anjos não entendiam isso. Houvesse sido deixado que Satanás e seus anjos colhessem os plenos frutos de seu pecado, e teriam perecido; mas não se patentearia aos seres celestiais ser isso o inevitável resultado do pecado. Uma dúvida acerca da bondade divina haveria permanecido em seu espírito, qual ruim semente, para produzir seu mortal fruto de pecado e miséria.

Não será, porém, assim, ao findar o grande conflito. Então, havendo-se completado o plano da redenção, o caráter de Deus é revelado a todos os seres inteligentes. Os preceitos de Sua lei são vistos como perfeitos e imutáveis. Então o pecado terá patenteado sua natureza, Satanás o seu caráter. Então o extermínio do pecado reivindicará o amor de Deus, e estabelecerá Sua honra perante um Universo de seres que se deleitam em fazer Sua vontade, e em cujo coração está a Sua lei.

Bem podiam, pois, os anjos se regozijar ao contemplarem a cruz do Salvador; pois embora não compreendessem ainda tudo, sabiam que a destruição do pecado e de Satanás fora para sempre assegurada, que a redenção do homem era certa e que o Universo estava para sempre a salvo. O próprio Cristo compreendeu plenamente os resultados do sacrifício feito no Calvário. A tudo isto olhava Ele quando exclamou na cruz: "Está consumado." João 19:30.

IX. Ao Trono do Pai

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No Sepulcro de José

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Jesus descansou, afinal. Findara o longo dia de vergonha e tortura. Ao introduzirem os derradeiros raios do sol poente o dia do sábado, o Filho de Deus estava em repouso, no sepulcro de José. Concluída Sua obra, as mãos cruzadas em paz, descansava durante as sagradas horas do sábado.

No princípio, o Pai e o Filho repousaram no sábado após Sua obra de criação. Quando "os céus, e a Terra e todo o seu exército foram acabados" (Gên. 2:1), o Criador e todos os seres celestiais se regozijaram na contemplação da gloriosa cena. "As estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus rejubilavam." Jó 38:7. Agora Jesus descansava da obra de redenção; e se bem que houvesse dor entre os que O amavam na Terra, reinou contudo alegria no Céu. Gloriosa era aos olhos dos seres celestiais a perspectiva do futuro. Uma criação restaurada, a raça redimida que, havendo vencido o pecado, nunca mais poderia cair - eis o resultado visto por Deus e os anjos, da obra consumada por Cristo. Com esta cena se acha para sempre ligado o dia em que Jesus descansou. Pois Sua "obra é perfeita" (Deut. 32:4); e "tudo quanto Deus faz durará eternamente". Ecl. 3:14. Quando se der a "restauração de todas as coisas, as quais Deus falou por boca dos Seus santos profetas, desde o princípio do mundo" (Atos 3:21, Versão de Figueiredo), o sábado da criação, o dia

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em que Jesus esteve em repouso no sepulcro de José, será ainda um dia de descanso e regozijo. O Céu e a Terra se unirão em louvor, quando, "desde um sábado até ao outro" (Isa. 66:23), as nações dos salvos se inclinarem em jubiloso culto a Deus e o Cordeiro.

Nos acontecimentos finais do dia da crucifixão, foi dada nova prova de cumprimento da profecia, e novo testemunho da divindade de Cristo. Quando a treva se erguera de sobre a cruz, e o Salvador soltara Seu brado agonizante, ouviu-se imediatamete outra voz, dizendo: "Verdadeiramente este era o Filho de Deus." Luc. 23:47.

Essas palavras não foram murmuradas em segredo. Todos os olhos se volveram a ver de onde provinham. Quem falara? Fora o centurião, o soldado romano. A divina paciência do Salvador, e Sua súbita morte, com o grito de vitória nos lábios, impressionara esse pagão. No ferido, quebrantado corpo pendente da cruz, reconheceu o centurião a figura do Filho de Deus. Não pôde deixar de confessar sua fé. Assim foi novamente dada a prova de que nosso Redentor devia ver o trabalho de Sua alma. No mesmo dia de Sua morte, três homens, diferindo largamente entre si, declaravam sua fé - o que comandava a guarda romana, o que conduzira a cruz do Salvador e o que morrera na cruz, ao Seu lado.

Ao aproximar-se a noite, um silêncio estranho pairou sobre o Calvário. A multidão dispersou-se, e muitos volveram a Jerusalém com espírito bem diverso do que tinham pela manhã. Muitos haviam afluído à crucifixão por curiosidade, e não por ódio para com Cristo. Contudo, acreditavam nas acusações dos sacerdotes e olhavam-nO como malfeitor. Sob uma agitação fora do natural, uniram-se à turba em injuriá-Lo. Quando, porém, a Terra foi envolta em trevas, e se sentiram acusados pela própria consciência, acharam-se culpados de uma grande injustiça. Nenhum gracejo ou riso de escárnio se ouviu em meio daquela terrível escuridão; e, dissipada ela, fizeram o caminho de volta a casa em solene silêncio. Estavam convencidos de que as acusações dos sacerdotes eram falsas, de que Jesus não era nenhum impostor; e algumas semanas mais tarde, quando Pedro pregou no dia de Pentecoste, achavam-se entre os milhares que se converteram a Cristo.

Mas os guias judaicos não se mudaram pelos acontecimentos que haviam presenciado. Não arrefecera seu ódio para com Jesus. A treva que cobria a Terra durante a crucifixão, não era mais densa que a que ainda envolvia o espírito dos sacerdotes e principais. Em Seu nascimento, a estrela conhecera a Cristo e guiara

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os magos à manjedoura onde jazia. As hostes celestiais conheceram-nO e entoaram-Lhe o louvor por sobre as planícies de Belém. Conhecera-Lhe o mar a voz e obedecera a Sua ordem. A doença e a morte reconheceram-Lhe a autoridade, entregando-Lhe sua presa. O Sol O conhecera e, à vista de Sua agonia e morte, ocultara a face luminosa. Conheceram-nO as rochas, e fenderam-se, fragmentando-se ao Seu brado. A natureza inanimada conhecera a Cristo, e dera testemunho de Sua divindade. Mas os sacerdotes e príncipes de Israel não conheceram o Filho de Deus.

Todavia, esses sacerdotes e príncipes não estavam tranqüilos. Levaram a cabo seu desígnio de matar a Jesus; não experimentavam, no entanto, a sensação da vitória que esperavam. Mesmo na hora de seu aparente triunfo, assaltavam-nos dúvidas quanto ao que viria depois. Ouviram o brado: "Está consumado." João 19:30. "Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito." Luc. 23:46. Viram as rochas fenderem-se, sentiram o forte terremoto e estavam desassossegados, inquietos.

Tinham invejado a influência de Cristo para com o povo, enquanto vivo; sentiam o mesmo ainda depois de Ele morto. Temiam mais, muito mais o Cristo morto do que haviam temido o Cristo vivo. Receavam que a atenção do povo fosse atraída ainda para os acontecimentos que acompanhavam a crucifixão. Temiam os resultados da obra daquele dia. Por coisa alguma queriam que Seu corpo permanecesse na cruz, durante o sábado. Este se vinha aproximando, e seria uma violação de sua santidade o ficarem os corpos pendentes da cruz. Assim, servindo-se disso como pretexto, os principais judeus solicitaram de Pilatos que se apressasse a morte das vítimas, e seus corpos fossem tirados antes do pôr-do-sol.

Pilatos tinha tão pouca vontade como eles de que o corpo de Jesus ficasse na cruz. Obtido seu consentimento, quebraram as pernas dos dois ladrões para lhes apressar a morte; mas verificaram estar Jesus já morto. Os rudes soldados abrandaram-se pelo que ouviram e testemunharam de Cristo, e abstiveram-se de Lhe quebrar os membros. Assim, na oferta do Cordeiro de Deus cumpriu-se a lei da páscoa: "Dela nada deixarão até à manhã, e dela não quebrarão osso algum; segundo todo o estatuto da páscoa a celebrarão." Núm. 9:12.

Os sacerdotes e principais surpreenderam-se ao verificar que Jesus já estava morto. A morte pela cruz constituía processo vagaroso;

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difícil era determinar quando cessara a vida. Nunca se ouvira que alguém morrera dentro de seis horas de crucifixão. Os sacerdotes desejavam certificar-se da morte de Jesus, e, por sugestão deles, um soldado atirou uma lança ao lado do Salvador. Da ferida assim feita saíram duas copiosas e distintas correntes, uma de sangue, outra de água. Isso foi observado por todos os espectadores, e João declara a ocorrência de maneira bem positiva. Diz ele: "Um dos soldados Lhe furou o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. E aquele que o viu testificou, e seu testemunho é verdadeiro; e sabe que é verdade o que diz, para que também vós o creiais. Porque isto aconteceu para que se cumprisse a Escritura, que diz: Nenhum dos Seus ossos será quebrado. E outra vez diz a Escritura: Verão Aquele que traspassaram." João 19:34-37.

Depois da ressurreição, os sacerdotes e principais puseram em circulação o boato de que Cristo não morrera na cruz, que apenas desmaiara e revivera posteriormente. Outro boato afirmava que não era um corpo real, de carne e osso, mas a semelhança de um corpo, o que fora posto no sepulcro. A ação dos soldados romanos contesta essas falsidades. Não Lhe quebraram as pernas, porque Ele já estava morto. Para satisfazer os sacerdotes, furaram-Lhe o lado. Não se houvesse já extinguido a vida, e isso teria ocasionado imediatamente a morte.

Não foi, porém, a lança atirada, não foi a dor da crucifixão, que produziu a morte de Jesus. Aquele grito soltado "com grande voz" (Luc. 23:46) no momento da morte, a corrente de sangue e água que Lhe fluiu do lado, demonstravam que Ele morreu pela ruptura do coração. Partiu-se-Lhe o coração pela angústia mental. Foi morto pelo pecado do mundo.

Com a morte de Cristo, pereceram as esperanças dos discípulos. Olhavam-Lhe as cerradas pálpebras e a cabeça pendida, o cabelo empastado de sangue, as mãos e os pés traspassados, e indescritível era a angústia que sentiam. Até ao fim não acreditavam que Ele morresse; mal podiam crer que estivesse realmente morto. Esmagados pela dor, não recordavam Suas palavras, a predizer essa mesma cena. Coisa alguma de quanto dissera lhes dava então conforto. Viam unicamente a cruz e a ensangüentada vítima. O futuro afigurava-se-lhes negro e desesperador. Sua fé em Jesus morrera; nunca, porém, haviam amado tanto a seu Senhor. Nunca Lhe haviam antes assim compreendido o valor, e a necessidade que tinham da presença dEle.

Mesmo morto, o corpo de Cristo era muito precioso aos discípulos. Anelavam fazer-Lhe honroso sepultamento, mas não

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sabiam como o haviam de realizar. O crime que dera lugar à condenação de Cristo era traição ao governo romano, e as pessoas mortas por essa ofensa deviam ser sepultadas num terreno especialmente provido para os criminosos. O discípulo João, e as mulheres da Galiléia, haviam permanecido ao pé da cruz. Não podiam deixar o corpo de seu Senhor nas insensíveis mãos dos soldados, e enterrado num desonrosa sepultura. No entanto, não o podiam impedir. Não lhes era possível obter favores das autoridades judaicas, e nenhuma influência tinham junto de Pilatos.

Nessa emergência, José de Arimatéia e Nicodemos vieram em auxílio dos discípulos. Ambos eram membros do Sinédrio e tinham relações com Pilatos. Ambos ricos e influentes, decidiram que o corpo de Jesus teria sepultamento condigno.

José foi ousadamente a Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Pela primeira vez, ouviu Pilatos que Jesus estava na verdade morto. Contraditórias notícias haviam-lhe chegado aos ouvidos quanto aos acontecimentos concernentes à crucifixão, mas ocultaram-lhe propositalmente a morte de Cristo. Pilatos fora prevenido pelos sacerdotes e principais contra algum engano da parte dos discípulos de Jesus em relação ao Seu corpo. Ouvindo o pedido de José, mandou, portanto, chamar o centurião de serviço junto à cruz, e soube com certeza da morte de Cristo. Dele colheu também a narração das cenas do Calvário, confirmando o testemunho de José.

O pedido de José foi satisfeito. Enquanto João estava aflito quanto ao sepultamento do Mestre, voltou ele com a ordem de Pilatos acerca do corpo de Cristo; e Nicodemos chegou trazendo uma custosa mistura de mirra e aloés, de cerca de cem libras de peso, para Seu embalsamento. Ao mais honrado em Jerusalém, não se poderia haver demonstrado  mais respeito na morte. Os discípulos surpreenderam-se de ver esses ricos príncipes tão interessados como eles próprios no sepultamento do Senhor.

Nem José nem Nicodemos haviam aceito abertamente o Salvador enquanto vivera. Sabiam que esse passo os excluiria do Sinédrio, e esperavam protegê-Lo por sua influência nos conselhos. Por algum tempo, pareceu haverem sido bem-sucedidos; mas os astutos sacerdotes, vendo como favoreciam a Cristo, embargaram-lhes os planos. Em sua ausência, fora Jesus condenado e entregue para ser crucificado. Agora, que estava morto, não mais ocultaram sua afeição para com Ele. Enquanto os discípulos temiam mostrar-se abertamente como Seus seguidores, José e

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Nicodemos foram ousadamente em seu auxílio. O concurso desses homens ricos e honrados era muito oportuno. Era-lhes dado fazer pelo Mestre morto o que se tornava impossível aos pobres discípulos; e sua riqueza e influência os protegia, em grande parte, da malignidade dos sacerdotes e principais.

Delicada e reverentemente, removeram eles do madeiro, com as próprias mãos, o corpo de Jesus. Corriam-lhes lágrimas de compaixão, ao contemplarem-Lhe o ferido e lacerado corpo. José possuía um sepulcro novo, talhado numa rocha. Reservava-o para si mesmo, mas ficava próximo do Calvário, e preparou-o então para Jesus. O corpo, com as especiarias trazidas por Nicodemos, foi cuidadosamente envolto num lençol de linho, e o Redentor levado à sepultura. Aí, os três discípulos compuseram-Lhe os mutilados membros, e cruzaram-Lhe as mãos feridas sobre o inanimado peito. As mulheres galiléias foram ver se se fizera tudo quanto se podia fazer pelo corpo sem vida do amado Mestre. Viram então que fora rolada a pesada pedra para a entrada do sepulcro, e o Salvador deixado a repousar. As mulheres foram as últimas ao pé da cruz, e as últimas também a deixar o sepulcro. Enquanto baixavam as sombras da noite, Maria Madalena e as outras Marias demoravam-se ainda em torno do lugar em que descansava o Senhor, derramando lágrimas de dor pela sorte dAquele a quem amavam. "E, voltando elas,... no sábado repousaram, conforme o mandamento." Luc. 23:56.

Aquele seria um inesquecível sábado para os tristes discípulos, e também para os sacerdotes, os príncipes, os escribas e o povo. Ao pôr-do-sol do dia de preparação, soaram as trombetas, anunciando o começo do sábado. A páscoa foi observada como fora por séculos, ao passo que Aquele a quem ela apontava havia sido morto por mãos ímpias e jazia no sepulcro de José. No sábado, os átrios do templo encheram-se de adoradores. O sumo sacerdote, vindo do Gólgota, ali estava, esplendidamente vestido com os trajes sacerdotais. Sacerdotes de alvos turbantes, em plena atividade, cumpriam seus deveres. Mas alguns dos presentes não se achavam tranqüilos, ao oferecer-se pelo pecado o sangue de bezerros e bodes. Não estavam conscientes de que o tipo encontrara o antítipo, de que um infinito sacrifício fora feito pelos pecados do mundo. Não sabiam que não mais havia valor no desempenho do serviço ritual. Mas nunca dantes fora aquela cerimônia testemunhada com tão contraditórios sentimentos. As trombetas e os instrumentos de música, bem como as vozes dos cantores, eram tão altos e claros como de costume. Mas dir-se-ia estar tudo

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possuído de um sentimento de estranheza. Um após outro indagava de um singular acontecimento que ocorrera. Até então o santíssimo fora guardado impenetrável. Mas agora se achava exposto aos olhares de todos. O pesado véu de tapeçaria, feito de puro linho, e belamente trabalhado em ouro, escarlate e púrpura, fora rasgado de alto a baixo. O lugar em que Jeová Se encontrara com o sumo sacerdote, para comunicar Sua glória, o lugar que fora a sagrada câmara de audiência de Deus, jazia aberto a todos os olhos - não mais reconhecido pelo Senhor. Com sombrios pressentimentos ministravam os sacerdotes diante do altar. O haver sido exposto o sagrado mistério do lugar santíssimo os enchia de medo de uma calamidade por vir.

Muitos espíritos ocupavam-se com pensamentos despertados pela cena do Calvário. Da crucifixão à ressurreição, muitos olhos insones estiveram constantemente examinando as profecias, alguns para compreender o inteiro significado da festa que então celebravam, outros para procurar provas de que Jesus não era aquilo que pretendia; outros ainda, corações tristes, buscavam testemunho de que Ele era o verdadeiro Messias. Embora indagassem levados por diferentes motivos, convenceram-se todos da mesma verdade - que se cumprira a profecia nos acontecimentos dos últimos dias, e que o Crucificado era o Redentor do mundo. Muitos que, naquela ocasião, tomaram parte do serviço, nunca mais se uniram aos ritos pascoais. Muitos, mesmo dentre os sacerdotes, ficaram convencidos do verdadeiro caráter de Jesus. Suas pesquisas das profecias não foram em vão, e depois de Sua ressurreição reconheceram-nO como o Filho de Deus.

Nicodemos, ao ver Cristo erguido na cruz, lembrou-se das palavras que Ele proferira à noite, no Monte das Oliveiras: "Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna." João 3:14 e 15. Naquele sábado, enquanto Jesus Se achava no sepulcro, Nicodemos teve ensejo de refletir. Uma luz mais clara iluminou-lhe o espírito, e as palavras que Jesus lhe dirigira não continuaram mais um mistério para ele. Sentiu haver perdido muito por não se ter ligado ao Salvador enquanto vivera. Recordou então os acontecimentos do Calvário. A súplica de Cristo por Seus assassinos, e a resposta que dera ao pedido do ladrão moribundo, tocaram a alma do douto membro do conselho. Contemplou de novo o Salvador em Sua agonia; tornou a ouvir o derradeiro grito: "Está consumado" (João 19:30), proferido como palavras de um vencedor. Viu novamente a terra cambaleando, os Céus entenebrecidos, o véu rasgado, as rochas fendidas, e sua fé para sempre se estabeleceu. O mesmo acontecimento

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que destruiu a esperança dos discípulos, convenceu José e Nicodemos da divindade de Jesus. Seus temores foram vencidos pela coragem de uma firme, inabalável fé.

Nunca Cristo atraíra a atenção do povo como agora que jazia no túmulo. Como de costume, levaram os doentes e sofredores para os átrios do templo, indagando: Quem nos pode informar acerca de Jesus de Nazaré? Muitos vieram de longe para encontrar Aquele que curava os enfermos e ressuscitava os mortos. De todos os lados, ouvia-se o clamor: Queremos Cristo, o Médico. Nessa ocasião, examinavam os sacerdotes os suspeitos de lepra. Muitos eram forçados a ouvir seu marido, sua esposa ou filhos serem declarados leprosos, e condenados a sair do abrigo de seu lar e de sob o cuidado dos queridos, para advertir os estranhos com o lamentoso grito: "Imundo! imundo!" As mãos amigas de Jesus de Nazaré, que nunca se recusaram ao toque comunicador de cura ao repugnante leproso, achavam-se cruzadas sobre o próprio peito. Os lábios que lhes respondiam às petições com as confortadoras palavras: "Quero, sê limpo" (Mat. 8:3), estavam agora mudos. Muitos apelavam para os principais dos sacerdotes e os príncipes em busca de simpatia e auxílio, mas em vão. Aparentemente, estavam decididos a ter outra vez entre si o Cristo vivo. Com persistente ansiedade, indagavam por Ele. Não queriam ser mandados embora. Mas eram expulsos dos átrios do templo, e foram postados soldados às portas para deter a multidão que chegava com os doentes e moribundos, solicitando entrada.

Os sofredores que tinham ido para ser curados pelo Salvador, sucumbiam ante a decepção. As ruas estavam cheias de lamentos. Os doentes pereciam à míngua do toque vivificante de Jesus. Médicos eram consultados em vão; não havia eficiência como a dAquele que jazia no túmulo de José.

Os lamentos dos que sofriam levaram a milhares à convicção de que se fora do mundo uma grande luz. Sem Cristo, a Terra era sombra e escuridão. Muitos daqueles cuja voz havia avolumado o grito de "Crucifica-O, crucifica-O" (Luc. 23:21), compreendiam agora a calamidade que lhes sobreviera, e teriam com igual veemência clamado - Dá-nos Jesus! - houvesse Ele estado ainda vivo.

Quando o povo soube que Jesus fora morto pelos sacerdotes, fez indagações quanto a Sua morte. Os pormenores de Seu julgamento foram o mais possível conservados em segredo; mas durante o tempo em que Ele permaneceu no sepulcro Seu nome andava em milhares de lábios, e notícias de Seu irrisório

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julgamento, e da desumanidade dos sacerdotes e principais circulavam por toda parte. Por homens de inteligência foram esses sacerdotes e príncipes convidados a explicar as profecias do Antigo Testamento a respeito do Messias, e enquanto procuravam forjar qualquer falsidade em resposta, ficaram como loucos. As profecias que indicavam os sofrimentos e a morte de Cristo, não podiam explicar, e muitos indagadores se convenceram de que as Escrituras se haviam cumprido.

A vingança que os sacerdotes julgaram seria tão doce, já lhes era amarga. Sabiam que estavam enfrentando a severa censura do povo e que os próprios a quem influenciaram contra Jesus se sentiam agora horrorizados com a vergonhosa obra que haviam feito. Esses sacerdotes procuraram crer que Jesus era enganador; mas em vão. Alguns deles estiveram ao pé da sepultura de Lázaro e viram o morto chamado novamente à vida. Tremeram de temor de que Cristo ressuscitasse por Sua vez, e tornasse a aparecer diante deles. Haviam-nO ouvido declarar que tinha poder para dar Sua vida, e para tornar a tomá-la. Lembravam-se de que dissera: "Derribai este templo, e em três dias o levantarei." João 2:19. Judas declarara-lhes as palavras ditas por Ele aos discípulos, durante a última viagem para Jerusalém: "Eis que vamos para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, e condená-Lo-ão à morte. E O entregarão aos gentios para que dEle escarneçam, e O açoitem e crucifiquem, e ao terceiro dia ressuscitará." Mat. 20:18 e 19. Ao ouvirem essas palavras, zombaram e ridicularizaram. Agora, porém, se lembravam de que até ali se haviam cumprido as predições de Cristo. Afirmara que ressuscitaria ao terceiro dia, e quem poderia dizer que isso também não se cumpriria? Desejavam expulsar esses pensamentos, mas não podiam. Como seu pai, o diabo, creram e tremeram.

Agora, que passara o frenesi da agitação, a imagem de Cristo, malgrado seu, acudia-lhes sempre ao espírito. Viam-nO sereno e sem um queixume perante os inimigos, sofrendo sem murmurar as zombarias e maus-tratos. Ocorriam-lhes todos os acontecimentos de Seu julgamento e crucifixão, com uma empolgante convicção de que Ele era o Filho de Deus. Pensavam que poderia a qualquer momento apresentar-Se diante deles, o Acusado tornando-se acusador, o Condenado a condenar, o Morto a exigir justiça na morte de Seus assassinos.

Pouco puderam repousar no sábado. Embora não transpusessem

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o limiar de um gentio por temor de contaminação, tiveram no entanto, um conselho quanto ao corpo de Cristo. A morte e o sepulcro deviam guardar Aquele a quem crucificaram. "Reuniram-se os príncipes dos sacerdotes em casa de Pilatos, dizendo: Senhor, lembramo-nos de que aquele enganador, vivendo ainda, disse: Depois de três dias ressuscitarei. Manda pois que o sepulcro seja guardado com segurança até o terceiro dia, não se dê o caso que os Seus discípulos vão de noite, e O furtem, e digam ao povo: Ressuscitou dos mortos; e assim o último erro será pior do que o primeiro. E disse-lhes Pilatos: Tendes a guarda; ide, guardai-O como entenderdes." Mat. 27:62-65.

Os sacerdotes deram ordens para ser guardado o sepulcro. Uma grande pedra fora colocada diante da entrada. Através dessa pedra, puseram cordas, prendendo as extremidades à sólida rocha e selando-as com o selo romano. A pedra não podia ser removida sem quebrar o selo. Uma guarda de cem soldados foi então colocada em volta do sepulcro, para impedir que alguém tentasse contra sua segurança. Os sacerdotes fizeram o que puderam para manter o corpo de Cristo onde fora posto. Foi fechado com tanta segurança em Seu túmulo, como se nele devesse permanecer para sempre.

Assim se aconselhavam e faziam planos fracas criaturas. Mal percebiam esses homicidas a inutilidade de seus esforços. Por seu proceder, no entanto. Deus foi glorificado. Os próprios esforços, feitos para impedir a ressurreição de Cristo, são os mais convincentes argumentos em prová-la. Quanto maior o número de soldados colocados ao redor do sepulcro, tanto mais vigoroso o testemunho de que Ele ressurgira. Centenas de anos antes da morte de Cristo, o espírito Santo declarara por intermédio do salmista: "Por que se amotinam as gentes, e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da Terra se levantam, e os príncipes juntos se mancomunam contra o Senhor e contra o Seu Ungido. ... Aquele que habita no Céu Se rirá; o Senhor zombará deles." Sal. 2:1-4. As guardas e as armas romanas foram impotentes para limitar o Senhor da Vida dentro do túmulo. Aproximava-se a hora de Sua libertação.

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O Senhor Ressuscitou

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Lentamente passara a noite do primeiro dia da semana. Havia soado a hora mais escura, exatamente antes do raiar da aurora. Cristo continuava prisioneiro em Seu estreito sepulcro. A grande pedra estava em seu lugar; intato, o selo romano; a guarda, de sentinela. Vigias invisíveis ali estavam também. Hostes de anjos maus se achavam reunidas em torno daquele lugar. Houvesse sido possível, e o príncipe das trevas, com seu exército de apóstatas, teria mantido para sempre fechado o túmulo que guardava o Filho de Deus. Uma hoste celeste, porém, circundava o sepulcro. Anjos magníficos em poder o guardavam, esperando o momento de saudar o Príncipe da Vida.

"E eis que houvera um grande terremoto, porque um anjo do Senhor, descendo do Céu, chegou." Mat. 28:2. Vestido com a armadura de Deus, deixou este anjo as cortes celestiais. Os brilhantes raios da glória divina o precediam, iluminando-lhe o caminho. "E o seu aspecto era como um relâmpago, e o seu vestido branco como a neve. E os guardas, com medo dele, ficaram muito assombrados, e como mortos." Mat. 28:3 e 4.

Onde está, sacerdotes e príncipes, o poder de vossa guarda? - Bravos soldados que nunca se atemorizaram diante do poder humano, são agora como cativos aprisionados sem espada nem lança. O rosto que contemplam não é o de um guerreiro mortal;

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é a face do mais poderoso das hostes do Senhor. Este mensageiro é o que ocupa a posição da qual caiu Satanás. Fora aquele que nas colinas de Belém proclamara o nascimento de Cristo. A terra treme à sua aproximação, fogem as hostes das trevas, e enquanto ele rola a pedra, dir-se-ia que o Céu baixara à Terra. Os soldados o vêem removendo a pedra como se fora um seixo, e ouvem-no exclamar: Filho de Deus, ressurge! Teu Pai Te chama. Vêem Jesus sair do sepulcro, e ouvem-nO proclamar sobre o túmulo aberto: "Eu sou a ressurreição e a vida." Ao ressurgir Ele em majestade e glória, a hoste angélica se prostra perante o Redentor, em adoração, saudando-O com hinos de louvor.

Um terremoto assinalara a hora em que Jesus depusera a vida; outro terremoto indicou o momento em que a retomou em triunfo. Aquele que vencera a morte, e a sepultura, saiu do túmulo com o passo do vencedor, por entre o cambalear da terra, o fuzilar dos relâmpagos e o ribombar dos trovões. Quando vier novamente à Terra, comoverá "não só a Terra, senão também o céu". Heb. 12:26. "De todo vacilará a Terra como o bêbado, e será movida e removida como a choça." Isa. 24:20. "E os céus se enrolarão como um livro" (Isa. 34:4); "os elementos, ardendo, se desfarão, e a Terra, e as obras que nela há se queimarão". II Ped. 3:10. "Mas o Senhor será o refúgio do Seu povo, e a fortaleza dos filhos de Israel." Joel 3:16.

Ao morrer Jesus, tinham os soldados visto a Terra envolta em trevas ao meio-dia; ao ressurgir, porém, viram o resplendor dos anjos iluminar a noite, e ouviram os habitantes do Céu cantarem com grande alegria e triunfo: "Tu venceste Satanás e os poderes das trevas; Tu tragaste a morte na vitória"

Cristo saiu do sepulcro glorificado, e a guarda romana O contemplou. Seus olhos fixaram-se no rosto dAquele a quem, havia tão pouco, tinham escarnecido e ridicularizado. Neste Ser glorificado, viram o Prisioneiro que tinham contemplado no tribunal, Aquele para quem haviam tecido uma coroa de espinhos. Era Aquele que, sem resistência, estivera em presença de Pilatos e de Herodes, o corpo lacerado pelos cruéis açoites. Era Aquele que fora pregado na cruz, para quem os sacerdotes e os príncipes, cheios de satisfação própria, haviam sacudido a cabeça, dizendo: "Salvou os outros, e a Si mesmo não pode salvar-Se." Mat. 27:42. Era Aquele que fora deposto no sepulcro novo de José. O decreto do Céu libertara o Cativo. Montanhas amontoadas sobre

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montanhas em cima de Seu túmulo, não O poderiam haver impedido de sair.

À vista dos anjos e do Salvador glorificado, os guardas romanos desmaiaram e ficaram como mortos. Quando a comitiva celeste foi oculta a seus olhos, eles se ergueram e, tão rápido como lhes permitiram os trêmulos membros, encaminharam-se para a porta do horto. Cambaleando como bêbados, precipitaram-se para a cidade, dando as maravilhosas novas àqueles com quem se encontravam. Iam em busca de Pilatos, mas sua narração foi levada às autoridades judaicas, e os principais dos sacerdotes e os príncipes mandaram-nos buscar primeiro à sua presença. Estranho era o aspecto daqueles soldados. Tremendo de temor, faces desmaiadas, testificaram da ressurreição de Cristo. Disseram tudo, exatamente como tinham visto; não haviam tido tempo de pensar ou falar qualquer coisa que não fosse a verdade. Com doloroso acento, disseram: Foi o Filho de Deus que foi crucificado; ouvimos um anjo proclamá-Lo a Majestade do Céu, o Rei da glória.

O rosto dos sacerdotes estava como o de um morto. Caifás tentou falar. Moveram-se-lhe os lábios, mas não conseguiram emitir nenhum som. Os soldados estavam para deixar a sala do conselho, quando os deteve uma voz.

Caifás conseguira falar, por fim: "Esperai, esperai", disse. "Não digais a ninguém o que vistes." Uma mentirosa história foi então posta na boca dos soldados. "Dizei: Vieram de noite os Seus discípulos e, dormindo nós, O furtaram." Mat. 28:13. Aí se enganaram os sacerdotes.

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Como poderiam os soldados dizer que os discípulos tinham furtado o corpo enquanto eles dormiam? Se dormiam, como podiam saber? E, houvessem os discípulos provadamente roubado o corpo de Cristo, não teriam os sacerdotes sido os primeiros a condená-los? Ou, caso houvessem as sentinelas dormido junto ao sepulcro, não teriam os sacerdotes se apressado a acusá-los a Pilatos?

Os soldados horrorizaram-se ao pensamento de trazerem sobre si mesmos a acusação de dormirem em seu posto. Era este um delito castigado com a morte. Deveriam dar um falso testemunho enganando o povo, e pondo em perigo a própria vida? Não tinham feito com toda vigilância sua fatigante guarda? Como suportariam a prova, mesmo por amor do dinheiro, se juravam falso contra si próprios?

A fim de impor silêncio ao testemunho que temiam, os sacerdotes prometeram salvaguardar os soldados, dizendo que Pilatos quereria tampouco como eles próprios que aquela notícia circulasse. Os soldados romanos venderam sua integridade aos judeus por dinheiro. Chegaram à presença dos sacerdotes carregados com a mais assustadora mensagem de verdade; saíram com uma carga de dinheiro, e tendo na língua uma falsa história para eles forjada pelos sacerdotes.

Entretanto, a notícia da ressurreição de Cristo fora levada a Pilatos. Se bem que este houvesse sido responsável por entregar a Jesus à morte, estava relativamente descuidoso. Embora tivesse condenado o Salvador contra a vontade, e com sentimento de compaixão, não experimentara ainda verdadeiro pesar. Aterrado, fechara-se agora em casa, decidido a não ver ninguém. Os sacerdotes, porém, abrindo caminho até sua presença, contaram a história que haviam inventado, e pediram-lhe que passasse por alto a negligência do dever por parte das sentinelas. Antes de assim fazer, ele próprio interrogou particularmente os guardas. Estes, temendo pela própria segurança, não ousaram ocultar nada, e Pilatos tirou deles a narração de tudo quanto ocorrera. Não levou adiante a questão, mas desde aquele dia não houve mais paz para ele.

Quando Jesus foi posto no sepulcro, Satanás triunfou. Ousou esperar que o Salvador não retomaria novamente a vida. Reclamava o corpo do Senhor, e pôs sua guarda em torno do túmulo, procurando manter Cristo prisioneiro. Ficou furioso quando seus anjos fugiram diante do celeste mensageiro. Ao ver Cristo sair em triunfo compreendeu que seu reino chegaria a termo, e que ele devia morrer afinal.

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Matando Cristo, os sacerdotes se tinham tornado instrumentos de Satanás. Achavam-se agora inteiramente em seu poder. Estavam emaranhados numa teia da qual não viam escape, senão continuando sua guerra contra Cristo. Ao ouvirem a notícia de Sua ressurreição, temeram a ira do povo. Recearam que a própria vida corresse perigo. A única esperança para eles, era provar ser Cristo um impostor, negando haver ressuscitado. Subornaram os soldados e conseguiram o silêncio de Pilatos. Espalharam por perto e por longe sua mentirosa história. Testemunhas havia, porém, a quem não podiam reduzir ao silêncio. Muitos tinham ouvido falar do testemunho dos soldados quanto à ressurreição de Cristo. E alguns dos mortos ressuscitados com Jesus apareceram a muitos, declarando que Ele ressurgira. Foi levada aos sacerdotes a notícia de pessoas que tinham visto esses ressuscitados, ouvindo o testemunho deles. Os sacerdotes e os principais estavam em contínuo terror, não acontecesse que, ao andar pelas ruas, ou no interior das próprias casas, se viessem a encontrar face a face com Jesus. Sentiam que não havia segurança para eles. Ferrolhos e traves não passavam de frágil proteção contra o Filho de Deus. De dia e de noite achava-se diante deles aquela horrível cena do tribunal, quando clamaram: "O Seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos." Mat. 27:25. Nunca mais se lhes havia de apagar da memória aquela cena. Jamais desceria sobre eles um sono tranqüilo.

Quando foi ouvida no túmulo de Cristo a voz do poderoso anjo, dizendo: "Teu Pai Te chama", o Salvador saiu do sepulcro pela vida que havia em Si mesmo. Provou-se então a verdade de Suas palavras: "Dou a Minha vida para tornar a tomá-la. ... Tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la." João 10:17 e 18. Então se cumpriu a profecia que fizera aos sacerdotes e príncipes: "Derribai este templo, e em três dias o levantarei." João 2:19.

Sobre o fendido sepulcro de José, Cristo proclamara triunfante: "Eu sou a ressurreição e a vida." Essas palavras só podiam ser proferidas pela Divindade. Todos os seres criados vivem pela vontade e poder de Deus. São dependentes depositários da vida de Deus. Do mais alto serafim ao mais humilde dos seres vivos, todos são providos da Fonte da vida. Unicamente Aquele que é um com Deus, podia dizer: "Tenho poder para a dar [a vida], e poder para tornar a tomá-la." João 10:18. Em Sua divindade possuía Cristo o poder de quebrar as algemas da morte.

Cristo ressurgiu dos mortos como as primícias dos que dormem. Era representado pelo molho movido, e Sua ressurreição

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teve lugar no próprio dia em que o mesmo devia ser apresentado perante o Senhor. Por mais de mil anos esta simbólica cerimônia fora realizada. Das searas colhiam-se as primeiras espigas de grãos maduros, e quando o povo subia a Jerusalém, por ocasião da páscoa, o molho das primícias era movido como uma oferta de ações de graças perante o Senhor. Enquanto essa oferenda não fosse apresentada, a foice não podia ser metida aos cereais, nem estes ser reunidos em molhos. O molho dedicado a Deus representava a colheita. Assim Cristo, as primícias, representava a grande colheita espiritual para o reino de Deus. Sua ressurreição é o tipo e o penhor da ressurreição de todos os justos mortos. "Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem Deus os tornará a trazer com Ele." I Tess. 4:14.

Quando Cristo ressurgiu, trouxe do sepulcro uma multidão de cativos. O terremoto, por ocasião de Sua morte, abrira-lhes o sepulcro e, ao ressuscitar Ele, ressurgiram juntamente. Eram os que haviam colaborado com Deus, e que à custa da própria vida tinham dado testemunho da verdade. Agora deviam ser testemunhas dAquele que os ressuscitara dos mortos.

Durante Seu ministério, Jesus ressuscitara mortos. Fizera reviver o filho da viúva de Naim, a filha do principal, e Lázaro. Estes não foram revestidos de imortalidade. Ressurgidos, estavam ainda sujeitos à morte. Aqueles, porém, que ressurgiram por ocasião da ressurreição de Cristo, saíram para a vida eterna. Ascenderam com Ele, como troféus de Sua vitória sobre a morte e o sepulcro. Estes, disse Cristo, não mais são cativos de Satanás. Eu os redimi. Trouxe-os da sepultura como as primícias de Meu poder, para estarem comigo onde Eu estiver, para nunca mais verem a morte nem experimentarem a dor.

Esses entraram na cidade e apareceram a muitos, declarando: Cristo ressurgiu dos mortos, e nós ressurgimos com Ele. Assim foi imortalizada a sagrada verdade da ressurreição. Os ressurgidos santos deram testemunho da veracidade das palavras: "Os Teus falecidos viverão; juntamente com o Meu cadáver eles se levantarão." Sua ressurreição era um símile do cumprimento da profecia: "Acordai, e gritai jubilando, vós que habitais no pó; porque o teu orvalho é um orvalho de ervas; e a Terra dará de si os defuntos." Isa. 26:19, Versão Trinitariana.

Para o crente, Cristo é a ressurreição e a vida. Em nosso Salvador é restaurada a vida que se perdera mediante o pecado; pois

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Ele possui vida em Si mesmo, para vivificar a quem quer. Acha-Se investido do direito de conceder a imortalidade. A vida que Ele depusera como homem, Ele reassumiu e concedeu aos homens. "Eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância." João 10:10. "Aquele que beber da água que Eu lhe der nunca terá sede, porque a água que Eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna." João 4:14. "Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia." João 6:54.

Para o crente a morte não é senão de pouca importância. Cristo fala dela como se fora de pouco valor. "Se alguém guardar a Minha palavra, nunca verá a morte", "nunca provará a morte". João 8:51 e 52. Para o cristão a morte não é mais que um sono, um momento de silêncio e escuridão. A vida está escondida com Cristo em Deus, e "quando Cristo, que é a nossa vida, Se manifestar, então também vós vos manifestareis com Ele em glória". Col. 3:4.

A voz que bradou da cruz: "Está consumado" (João 19:30), foi ouvida entre os mortos. Penetrou as paredes dos sepulcros, ordenando aos que dormiam que despertassem. Assim será quando a voz de Cristo for ouvida do céu. Ela penetrará as sepulturas e abrirá os túmulos, e os mortos em Cristo ressurgirão. Na ressurreição do Salvador, algumas tumbas foram abertas, mas em Sua segunda vinda todos os queridos mortos Lhe ouvirão a voz, saindo para uma vida gloriosa, imortal. O mesmo poder que ressuscitou a Cristo dentre os mortos, erguerá Sua igreja, glorificando-a com Ele, acima de todos os principados, de todas as potestades, acima de todo nome que se nomeia, não somente neste mundo mas também no mundo por vir.

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Por que Choras?

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As mulheres que estiveram ao pé da cruz de Cristo esperaram, atentas, que passassem as horas de sábado. No primeiro dia da semana, muito cedo, fizeram o caminho para o sepulcro, levando consigo preciosas especiarias para ungirem o corpo do Salvador. Não pensavam em Sua ressurreição. Pusera-se o sol de suas esperanças e fizera-se noite em seu coração. Enquanto caminhavam, relembravam entre si as obras de misericórdia realizadas por Cristo, bem como Suas palavras de conforto. Não lembravam, entretanto, as que proferira: "Outra vez vos verei." I João 16:22.

Ignorantes do que se passava mesmo então, aproximaram-se do horto, dizendo: "Quem nos revolverá a pedra da porta do sepulcro?" Mat. 16:3. Sabiam não lhes ser possível afastá-la, todavia continuaram para diante. E eis que os céus se iluminaram de repente com uma glória que não provinha do Sol nascente. A terra tremeu. Elas viram que a pedra fora removida. O sepulcro estava vazio.

As mulheres que foram ao sepulcro, não partiram todas do mesmo lugar. Maria Madalena foi a primeira a chegar ao local; e ao ver que a pedra fora retirada, correu para anunciá-lo aos discípulos. Entrementes, chegaram as outras mulheres. Havia uma luz em volta do sepulcro, mas o corpo de Jesus não se achava ali. Enquanto andavam em torno, viram de repente não se encontrarem sós. Um jovem de vestes brilhantes estava sentado junto ao túmulo. Era o anjo que rolara a pedra. Tomara a forma

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humana, a fim de não atemorizar essas discípulas de Jesus. Todavia, brilhava-lhe ainda em torno a glória celestial, e as mulheres temeram. Voltaram-se para fugir, mas as palavras do anjo lhes detiveram os passos. "Não tenhais medo", disse ele; "pois eu sei que buscais a Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui, porque já ressuscitou, como havia dito. Vinde, vede o lugar em que o Senhor jazia. Ide pois, imediatamente, e dizei aos Seus discípulos que já ressuscitou dos mortos." Mat. 28:5-7. De novo olharam elas para o sepulcro, e tornaram a ouvir as maravilhosas novas. Outro anjo, em forma humana, ali está, e diz: "Por que buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia, dizendo: Convém que o Filho do homem seja entregue na mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e ao terceiro dia ressuscite." Luc. 24:5-7.

Ressuscitou! Ressuscitou! As mulheres repetem e tornam a repetir as palavras. Não há, pois, necessidade de especiarias para unção. O Salvador está vivo, e não morto. Recordaram-se então de que, falando em Sua morte, Ele dissera que ressurgiria. Que dia é este para o mundo! Apressadas, afastam-se as mulheres do sepulcro e "com temor e grande alegria, correram a anunciá-lo aos Seus discípulos". Mat. 28:8.

Maria não ouvira as boas novas. Foi ter com Pedro e João, levando a dolorosa mensagem: "Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde O puseram." João 20:13. Os discípulos correram para o túmulo, e acharam ser como Maria dissera. Viram o sudário e o lenço, mas não acharam o Senhor. Havia, no entanto, mesmo ali o testemunho de Sua ressurreição. As roupas do sepultamento não estavam atiradas com negligência, a um lado, mas cuidadosamente dobradas, cada uma num lugar à parte. João "viu, e creu". Ainda não compreendia a escritura que dizia dever Cristo ressuscitar dos mortos; mas lembrou-se então das palavras do Salvador, predizendo Sua ressurreição.

Fora o próprio Cristo que colocara com tanto cuidado as roupas com que O sepultaram. Quando o poderoso anjo baixara ao sepulcro, uniu-se-lhe outro que estivera com seu grupo, montando guarda ao corpo do Senhor. Enquanto o anjo do Céu removeu a pedra, o outro entrou no sepulcro e desembaraçou o corpo de Jesus de seu invólucro. Foram, porém, as próprias mãos do Salvador que dobraram cada peça, pondo-as em seu lugar. Ao Seu olhar, que guia semelhantemente a estrela e o átomo, nada há sem importância. Ordem e perfeição se manifestam em toda a Sua obra.

Maria acompanhara João e Pedro ao sepulcro; quando voltaram a Jerusalém, ela permaneceu. Contemplando a tumba vazia, o coração encheu-se-lhe de dor. Olhando para dentro, viu os dois

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anjos, um à cabeceira, outro aos pés do lugar em que Jesus jazera. "Mulher, por que choras?" perguntaram-lhe. "Porque levaram o meu Senhor", disse ela, "e não sei onde O puseram." João 20:13.

Então ela se voltou para se afastar, mesmo dos anjos, pensando em encontrar alguém que lhe dissesse o que fora feito com o corpo de Jesus. Outra voz a ela se dirigiu: "Mulher, por que choras? Quem buscas?" Através das lágrimas que lhe empanavam os olhos, Maria viu a figura de um homem e, pensando que fosse o hortelão, disse: "Senhor, se tu O levaste, dize-me onde O puseste, e eu O levarei." Se o sepulcro desse rico era julgado um lugar de sepultamento demasiado honroso para Jesus, ela própria proveria um local para Ele. Havia um sepulcro que a voz do próprio Jesus deixara vago, aquele em que Lázaro jazera. Não poderia ela achar ali uma sepultura para seu Senhor? Sentiu que cuidar desse precioso corpo crucificado ser-lhe-ia uma grande consolação em sua mágoa.

Mas então, em Sua voz familiar, lhe diz Jesus: "Maria!" Agora sabia que não era um estranho que se dirigia a ela e, voltando-se, viu diante de si o Cristo vivo. Em sua alegria, esqueceu que Ele fora crucificado. Saltando para Ele, como para abraçar-Lhe os pés, disse ela: "Raboni." João 20:16. Cristo, porém, ergueu a mão, dizendo: Não Me detenhas, "porque ainda não subi para Meu Pai, mas vai para Meus irmãos, e dize-lhes que Eu subo para Meu Pai e vosso Pai, Meu Deus e vosso Deus". João 20:17. E Maria pôs-se a caminho para ir ter com os discípulos, com a jubilosa mensagem.

Jesus recusou receber a homenagem de Seu povo até haver obtido a certeza de estar Seu sacrifício aceito pelo Pai. Subiu às cortes celestiais, e ouviu do próprio Deus a afirmação de que Sua expiação pelos pecados dos homens fora ampla, de que por meio de Seu sangue todos poderiam obter a vida eterna. O Pai ratificou o concerto feito com Cristo, de que receberia os homens arrependidos e obedientes, e os amaria mesmo como ama a Seu Filho. Cristo devia completar Sua obra, e cumprir Sua promessa de que "o varão será mais precioso que o ouro, e o homem sê-lo-á mais que o ouro acrisolado". Isa. 13:12, Versão de Figueiredo. Todo o poder no Céu e na Terra foi dado ao Príncipe da Vida, e Ele voltou para Seus seguidores num mundo de pecado, a fim de lhes comunicar Seu poder e glória.

Enquanto o Salvador Se achava na presença de Deus, recebendo dons para Sua igreja, pensavam os discípulos no sepulcro vazio, e lamentavam-se e choravam. O dia em que todo o Céu vibrava de alegria, era para os discípulos de incerteza, confusão e perplexidade. Sua incredulidade no testemunho levado pelas

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mulheres é uma prova de quão baixo lhes caíra a fé. As notícias da ressurreição de Cristo eram tão diversas do que haviam antecipado, que as não podiam crer. Eram demasiado boas para serem verdade, pensavam. Haviam ouvido tanto das doutrinas e das chamadas científicas teorias dos fariseus, que era vaga a impressão produzida no espírito deles quanto à ressurreição. Mal sabiam o que podia significar a ressurreição dos mortos. Eram incapazes de conceber o grande fato.

"Ide", disseram os anjos às mulheres, "dizei a Seus discípulos, e a Pedro, que Ele vai adiante de vós para a Galiléia; ali O vereis, como Ele vos disse." Mat. 28:7. Esses anjos estiveram com Cristo, como guardas, durante Sua existência terrestre. Testemunharam-Lhe o julgamento e a crucifixão. Ouviram Suas palavras aos discípulos. Isso se demonstrava por sua mensagem aos mesmos, e os deveria haver convencido da veracidade do que lhes era transmitido. Essas palavras só poderiam provir dos mensageiros de seu Senhor ressuscitado.

"Dizei a Seus discípulos, e a Pedro", disseram os anjos. Desde a morte de Cristo, Pedro se achava sucumbido pelo remorso. Sua vergonhosa negação de seu Senhor, e o olhar de amor e de angústia do Salvador achavam-se sempre diante dele. De todos os discípulos, fora o que mais pungentemente sofrera. A Pedro é dada a certeza de que seu arrependimento fora aceito e seu pecado perdoado. É mencionado nominalmente.

"Dizei a Seus discípulos, e a Pedro, que Ele vai adiante de vós para a Galiléia; ali O vereis." Mar. 16:7. Todos os discípulos haviam abandonado a Jesus, e o chamado para se encontrarem com Ele outra vez os inclui a todos. Ele não os rejeitou. Quando Maria Madalena lhes disse que vira o Senhor, repetiu o convite para o encontro na Galiléia. E pela terceira vez lhes foi enviada a mensagem. Depois de haver ascendido ao Pai, Jesus apareceu às outras mulheres, dizendo: "Eu vos saúdo. E elas, chegando, abraçaram os Seus pés, e O adoraram. Então Jesus lhes disse: Não temais; ide dizer a Meus irmãos que vão a Galiléia, e lá Me verão." Mat. 28:10.

A primeira obra de Cristo na Terra, depois de Sua ressurreição, foi convencer os discípulos de Seu inalterável amor e terna solicitude para com eles. Para lhes dar testemunho de que era seu Salvador vivo, de que quebrara as cadeias do túmulo, e não mais podia ser retido pelo inimigo, a morte; para revelar que tinha o mesmo coração de amor de quando andava com eles como seu amado Mestre, apareceu-lhes por várias vezes. Queria estreitar ainda mais em torno deles os laços de amor. Ide, dizei a Meus irmãos, disse Ele, que Me encontrem na Galiléia.

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Ao ouvirem essa combinação, feita de maneira tão positiva, os discípulos começaram a pensar nas palavras de Cristo, predizendo-lhes Sua ressurreição. Mesmo então, no entanto, não se regozijaram. Não podiam expulsar de si as dúvidas e perplexidades. Mesmo quando as mulheres declararam haver visto o Senhor, os discípulos não queriam crer. Julgavam-nas sob a influência de uma ilusão.

Parecia que se acumulava aflição sobre aflição. No sexto dia da semana tinham presenciado a morte do Mestre; no primeiro dia da semana seguinte, viram-se privados de Seu corpo, e eram acusados de O haver roubado para enganar o povo. Desesperavam de poder desfazer as falsas impressões que ganhavam terreno contra eles. Temiam a inimizade dos sacerdotes e a ira do povo. Anelavam a presença de Jesus, que os ajudara em toda perplexidade.

Repetiam muitas vezes as palavras: "E nós esperávamos que fosse Ele o que remisse Israel." Luc. 24:21. Sentindo-se tão sós e tão repassados de dor, lembraram as Suas palavras: "Se ao madeiro verde fazem isto, que se fará ao seco?" Luc. 23:31. Reuniram-se no cenáculo e fecharam bem as portas, sabendo que a sorte de seu amado Mestre poderia a qualquer momento ser a deles mesmos.

E todo esse tempo se poderiam estar regozijando no conhecimento de um Salvador ressuscitado! No horto, Maria estivera chorando, quando Jesus Se achava mesmo junto dela. Tão cegados tinha os olhos pelas lágrimas, que O não distinguira. E o coração dos discípulos estava tão cheio de pesar, que não creram na mensagem do anjo, nem nas palavras do próprio Cristo.

Quantos estão a fazer ainda o que fizeram esses discípulos! Quantos se fazem eco do desalentado lamento de Maria: "Levaram o Senhor, ... e não sabemos onde O puseram!" A quantos se poderiam dirigir as palavras do Senhor: "Por que choras? Quem buscas?" João 20:13 e 15. Ele lhes está tão próximo, mas seus olhos cegados pelo pranto O não distinguem. Fala-lhes, mas não compreendem.

Oh! que a pendida cabeça se erguesse, que os olhos se abrissem para vê-Lo, que os ouvidos Lhe escutassem a voz! "Ide pois, imediatamente, e dizei aos Seus discípulos que já ressuscitou." Mat. 28:7. Convidai-os a olhar, não ao sepulcro novo de José, fechado com uma grande pedra, e selado com o selo romano. Cristo não está ali. Não olheis ao sepulcro vazio. Não vos lamenteis como os que se acham sem esperança e desamparados. Jesus vive, e porque Ele vive, nós também viveremos. De corações agradecidos, de lábios tocados com o fogo sagrado, ressoe o alegre cântico: Cristo ressurgiu! Ele vive para fazer intercessão por nós. Apegai-vos a essa esperança, e ela vos firmará a alma qual âncora segura e provada. Crede, e vereis a glória de Deus.

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A Viagem Para Emaús

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Ao entardecer do dia da ressurreição, dois dos discípulos se achavam no caminho de Emaús, pequena aldeia a cerca de doze quilômetros de Jerusalém. Esses discípulos não haviam desempenhado papel saliente na obra de Cristo, mas eram crentes fervorosos nEle. Tinham ido à cidade para celebrar a páscoa, e estavam muito perplexos com os acontecimentos ocorridos havia pouco. Tinham ouvido as notícias da manhã com respeito à remoção do corpo de Jesus do sepulcro, bem como a narração das mulheres que viram os anjos e encontraram a Jesus. Voltavam agora para casa, a fim de meditar e orar. Seguiam tristemente o caminho, ao crepúsculo, falando sobre as cenas do julgamento e da crucifixão. Nunca dantes se haviam sentido tão desalentados. Destituídos de esperança e de fé, caminhavam à sombra da cruz.

Não haviam andado muito quando se lhes juntou um Estranho, mas tão absorvidos se achavam em sua negra decepção que não O observaram muito. Continuaram em sua conversa, externando os pensamentos de seu coração. Raciocinavam sobre as lições que Cristo lhes dera e que pareciam incapazes de compreender. Enquanto falavam sobre os acontecimentos que se haviam desenrolado, Jesus anelava consolá-los. Testemunhara-lhes a dor; compreendera as contraditórias idéias que lhes traziam à mente

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o pensamento: pode esse Homem que consentiu em que assim O humilhassem, ser o Cristo? Irreprimível era sua dor, e choravam. Jesus sabia que o coração deles Lhe estava unido pelo amor, e almejava enxugar-lhes as lágrimas, e enchê-los de alegria e contentamento. Devia, porém, dar-lhes lições que nunca haveriam de esquecer. "Ele lhes disse: Que palavras são essas que, caminhando, trocais entre vós, e por que estais tristes? E, respondendo um cujo nome era Cléopas, disse: És Tu só peregrino em Jerusalém, e não sabes as coisas que nela têm sucedido nestes dias?" Luc. 24:17 e 18. Contaram-Lhe sua decepção quanto a Seu Mestre, "varão profeta, poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo"; mas "os principais dos sacerdotes e os nossos príncipes", disseram, "O entregaram à condenação de morte, e O crucificaram". Coração ferido pela decepção, lábios trêmulos, ajuntaram: "E nós esperávamos que fosse Ele o que remisse Israel; mas agora, sobre tudo isso, é já hoje o terceiro dia desde que essas coisas aconteceram." Luc. 24:19-21.

É estranho que os discípulos não se lembrassem das palavras de Cristo, e não compreendessem que Ele predissera os acontecimentos que se desenrolaram. Não percebiam que a última parte de Sua predição se verificaria do mesmo modo que a primeira, e que ao terceiro dia Ele ressuscitaria. Esta era a parte que deviam ter recordado. Os sacerdotes e os príncipes não o esqueceram. No dia "depois da preparação, reuniram-se os príncipes dos sacerdotes e os fariseus em casa de Pilatos, dizendo: Senhor, lembramo-nos de que aquele enganador, vivendo ainda, disse: Depois de três dias ressuscitarei". Mat. 27:62 e 63. Mas os discípulos não lembraram essas palavras.

"E Ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na Sua glória?" Luc. 24:225 e 26. Os discípulos cogitavam quem poderia ser esse Estranho, que lhes penetrava a alma e falava com tal calor, ternura e simpatia, e ao mesmo tempo com tanta esperança. Pela primeira vez, depois de Cristo haver sido entregue, começaram a sentir-se esperançosos. Olhavam muitas vezes, cheios de interesse, para seu Companheiro e pensavam que Suas palavras eram exatamente as que Cristo haveria dito. Estavam cheios de pasmo, e o coração começou a pulsar-lhes com jubilosa expectativa.

Começando com Moisés, o próprio Alfa da história bíblica, Cristo expôs em todas as Escrituras as coisas que Lhe diziam

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respeito. Houvesse primeiro Se manifestado a eles, e seu coração teria ficado satisfeito. Na plenitude de seu gozo, não teriam ambicionado nada mais. Mas era-lhes necessário compreender os testemunhos dados a respeito dEle pelos símbolos e profecias do Antigo Testamento. Sobre estes devia estabelecer-se sua fé. Cristo não operou nenhum milagre para os convencer, mas foi Seu primeiro trabalho o explicar-lhes as Escrituras. Haviam considerado Sua morte a ruína de todas as suas esperanças. Agora Ele lhes mostrou pelos profetas que ali se achava a mais vigorosa prova de sua fé.

Ensinando esses discípulos, mostrou Jesus a importância do Antigo Testamento como testemunha de Sua missão. Muitos professos cristãos desprezam hoje aquela porção das Escrituras, pretendendo não ter mais utilidade. Não é isto, porém, ensino de Cristo. Tão alto o estimava, que disse certa vez: "Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite." Luc. 16:31.

É a voz de Cristo que fala através dos patriarcas e profetas desde os tempos de Adão até às cenas finais deste mundo. O Salvador é tão claramente revelado no Antigo Testamento como no Novo. É a luz do passado profético que apresenta a vida de Cristo e os ensinos do Novo Testamento de maneira clara e bela. Os milagres de Cristo são uma prova de Sua divindade; mas uma prova mais forte ainda de que Ele é o Redentor do mundo, encontra-se comparando as profecias do Antigo Testamento com a história do Novo.

Com provas tiradas da profecia, deu Cristo aos discípulos uma idéia correta do que Ele devia ser na humanidade. A expectativa deles, de um Messias que devia tomar Seu trono e o régio poder segundo os desejos dos homens, os desorientara. Isso interferia com a devida apreensão de Sua descida da mais elevada à mais baixa posição que se podia ocupar. Cristo desejava que as idéias de Seus discípulos fossem puras e verdadeiras em todos os sentidos. Deviam compreender, tanto quanto possível, o que se relacionava com o cálice de sofrimento que Lhe fora aquinhoado. Mostrou-lhes que o tremendo conflito que ainda não podiam compreender, era o cumprimento do concerto feito antes de serem postos os fundamentos do mundo. Cristo devia morrer, como deve morrer todo transgressor da lei, se continuar em pecado. Tudo isso devia ocorrer, mas não devia terminar em derrota, e sim numa gloriosa e eterna vitória. Jesus lhes disse que cumpria fazer todo esforço para salvar o mundo do pecado. Seus seguidores deviam viver como Ele viveu, e trabalhar como Ele trabalhou, com intenso, perseverante esforço.

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Assim discursou Jesus para os discípulos, abrindo-lhes a mente para compreenderem as Escrituras. Os discípulos estavam fatigados, mas a conversação não esmoreceu. Palavras de vida e segurança caíam dos lábios do Salvador. Mas ainda os olhos deles estavam fechados. Ao falar-lhes da ruína de Jerusalém, olharam com lágrimas para a condenada cidade. Mal suspeitavam ainda, no entanto, quem era seu companheiro de viagem. Não pensavam que o objeto de sua conversação ia ali caminhando ao lado deles; pois Cristo Se referia a Si mesmo como se fosse outra pessoa. Pensavam que era um dos que tinham ido assistir à grande festa, e regressava agora para casa. Jesus andava tão cautelosamente como eles sobre as rudes pedras, parando de quando em quando com eles para descansar um pouco. Assim prosseguiam pela montanhosa estrada, ao passo que Aquele que em breve tomaria Seu lugar à direita de Deus, e que podia dizer: "É-Me dado todo o poder no Céu e na Terra" (Mat. 28:18), caminhava ao seu lado.

Enquanto andavam, o Sol baixara e, antes de os viajantes chegarem a seu destino, já os trabalhadores nos campos haviam deixado o labor. Quando os discípulos estavam para entrar em casa, o Estranho pareceu como se fosse continuar a viagem. Mas os discípulos sentiram-se atraídos para Ele. Desejavam ouvi-Lo mais. "Fica conosco", disseram. Ele não parecia disposto a aceitar-lhes o convite, mas insistiram, dizendo: "Já é tarde, e já declinou o dia." Cristo concordou com esse rogo, e "entrou para ficar com eles". Luc. 24:29.

Houvessem os discípulos deixado de insistir no convite, e não teriam ficado sabendo que seu Companheiro de viagem era o Senhor ressuscitado. Cristo nunca força a Sua companhia junto de ninguém. Interessa-Se pelos que dEle necessitam. Com prazer penetra no mais modesto lar, e anima o mais humilde coração. Mas se os homens são demasiado indiferentes para pensar no Hóspede celestial, ou pedir-Lhe que neles habite, Ele passa. Assim sofrem muitos grande perda. Não conhecem a Cristo mais que os discípulos, enquanto Ele lhes caminhava ao lado.

A simples refeição da noite, composta de pão, é prontamente preparada. É colocada diante do Hóspede, que tomou assento à cabeceira da mesa. Estende então as mãos para abençoar o alimento. Os discípulos recuam assombrados. Seu Companheiro estende as mãos exatamente da mesma maneira como o fazia o Mestre. Olham outra vez, e eis que Lhe vêem nas mãos os sinais dos cravos. Ambos exclamam imediatamente: É o Senhor Jesus! Ressuscitou dos mortos!

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Erguem-se para lançar-se-Lhe aos pés em adoração, mas Ele desaparece diante de seus olhos. Contemplando o lugar que fora ocupado por Aquele cujo corpo estivera havia pouco no sepulcro, dizem um para o outro: "Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho nos falava, e quando nos abria as Escrituras?" Luc. 24:32.

Mas com essas grandes novas a comunicar, não se podiam sentar e conversar. Desapareceram-lhes a fadiga e a fome. Deixam a refeição intata e, cheios de alegria, põem-se imediatamente a caminho outra vez pela mesma estrada por onde tinham vindo, apressando-se para dar as alvissareiras novas aos discípulos na cidade. Em alguns lugares o caminho não é seguro, mas sobem pelas partes íngremes, escorregando na lisura das rochas. Não vêem, não sabem que estão sendo protegidos por Aquele que com eles viajara pelo mesmo caminho. Tendo na mão o cajado de peregrino, avançam sempre, desejando ir mais depressa do que ousam fazê-lo. Perdem o trilho, mas tornam a encontrá-lo. Correndo aqui, tropeçando acolá, vão sempre para a frente, tendo bem próximo ao lado, por todo o caminho, o invisível Companheiro.

A noite é escura, mas resplandece sobre eles o Sol da Justiça. Salta-lhes de gozo o coração. Parecem estar em um mundo novo. Cristo é um Salvador vivo. Não mais O pranteiam como morto. Cristo ressurgiu - repetem uma e muitas vezes. Esta é a mensagem que vão levar aos outros contristados. Necessitam contar-lhes a maravilhosa história do caminho de Emaús. Precisam dizer-lhes quem Se lhes uniu no caminho. Levam consigo a maior de todas as mensagens anunciadas ao mundo, uma mensagem de boas novas de que dependem as esperanças da raça humana para o tempo e a eternidade.

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Paz Seja Convosco

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Chegando a Jerusalém, os dois discípulos entram pela porta oriental, aberta à noite em ocasião de festas. As casas estão escuras e silenciosas, mas os viajantes seguem seu caminho por entre as estreitas ruas, à luz da Lua que vem surgindo. Vão ao cenáculo, onde Jesus passara as primeiras horas da última noite, antes de Sua morte. Ali sabem que hão de encontrar a seus irmãos. Tarde embora, sabem que os discípulos não dormirão, enquanto não tiverem a certeza do que aconteceu ao corpo de seu Senhor. Encontram a porta da câmara fechada a trave, por segurança. Batem pedindo entrada, mas nenhuma resposta. Tudo quieto. Dão então seu nome. A porta é cautelosamente aberta, eles entram, e Outro, invisível, entra com eles. Novamente é trancada a porta, para evitar espias.

Os viajantes encontram-se todos num estado de surpresa. As vozes dos presentes irrompem em ações de graças e louvores, dizendo: "Ressuscitou verdadeiramente o Senhor, e já apareceu a Simão." Luc. 24:34. Então os dois viajantes, ofegando em razão da pressa com que tinham feito a jornada, contam a maravilhosa história de como Jesus lhes aparecera. Apenas a terminam, enquanto alguns declaram não o poder crer, por ser demasiado bom para ser verdade, eis que outra Pessoa Se acha perante eles. Todos os olhos se fixam no Estranho. Ninguém batera, pedindo entrada. Nenhuma pisada fora ouvida. Os discípulos sobressaltam-se

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e cogitam que quererá isso dizer. Ouvem então uma voz que não é outra senão a do Mestre. Claras e distintas soam-Lhe as palavras saídas de Seus lábios: "Paz seja convosco."

"E eles, espantados e atemorizados, pensavam que viam algum espírito. E Ele lhes disse: Por que estais perturbados, e por que sobem tais pensamentos aos vossos corações? vede as Minhas mãos e Meus pés, que sou Eu mesmo; apalpai-Me e vede; pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho. E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés." Luc. 24:36-40.

Olham às mãos e aos pés feridos pelos cruéis cravos. Reconhecem-Lhe a voz, diversa de qualquer outra que já tenham ouvido. "E, não o crendo eles ainda por causa da alegria, e estando maravilhados, disse-lhes: Tendes aqui alguma coisa que comer? Então eles apresentaram-Lhe parte de um peixe assado, e um favo de mel. O que Ele tomou e comeu diante deles." Luc. 24:41 e 42. "De sorte que os discípulos se alegraram, vendo o Senhor." A fé e o júbilo substituíram a incredulidade e, possuídos de sentimentos que as palavras não logram exprimir, reconheceram e confessaram seu Salvador ressuscitado.

Por ocasião do nascimento de Jesus, os anjos anunciaram: Paz na Terra, e boa vontade para com os homens. E agora, em Sua primeira aparição aos discípulos, depois de ressurgido, o Salvador a eles Se dirige com as benditas palavras: "Paz seja convosco." Luc. 24:36.

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Jesus está sempre pronto a comunicar paz às almas carregadas de dúvidas e temores. Espera que Lhe abramos a porta do coração, convidando: Fica conosco. Ele diz: "Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a Minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo." Apoc. 3:20.

A ressurreição de Cristo era um símbolo da final ressurreição de todos quantos nEle dormem. O semblante do Salvador ressuscitado, Sua maneira, Sua linguagem, tudo era familiar aos discípulos. Como Jesus ressurgiu dos mortos, assim hão de ressuscitar os que nEle dormem. Reconheceremos os nossos amigos, da mesma maneira que os discípulos a Jesus. Talvez hajam sido deformados, doentes, desfigurados nesta vida mortal, ressurgindo em plena saúde e formosura; no entanto, no corpo glorificado, será perfeitamente mantida a identidade. Então conheceremos assim como também somos conhecidos. I Cor. 13:12. No rosto, glorioso da luz que irradia da face de Cristo, reconheceremos os traços daqueles que amamos.

Quando Jesus Se encontrou com os discípulos, relembrou-lhes as palavras que lhes dissera antes de Sua morte, de que se deviam cumprir todas as coisas que a Seu respeito estavam escritas na lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos. "Então abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras. E disse-lhes:

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Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dos mortos; e em Seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém. E destas coisas sois vós testemunhas." Luc. 24:46-48.

Os discípulos começaram a perceber a natureza e a extensão de sua obra. Deviam proclamar ao mundo as maravilhosas verdades que Cristo lhes confiara. Os acontecimentos de Sua vida, morte e ressurreição, as profecias que indicavam esses acontecimentos, a santidade da lei divina, os mistérios do plano da salvação, o poder de Jesus para remissão dos pecados - de todas essas coisas eram eles testemunhas, e deviam dá-las a conhecer ao mundo. Deviam proclamar o evangelho de paz e salvação, mediante o arrependimento e o poder do Salvador.

"E havendo dito isto, assoprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados lhes são perdoados; e aqueles a quem retiverdes lhes são retidos." João 20:22 e 23. O espírito Santo não Se manifestara ainda plenamente; pois Cristo ainda não fora glorificado. A mais abundante comunicação do espírito não se verificou senão depois da ascensão de Cristo. Enquanto não houvesse sido recebido, os discípulos não podiam cumprir a missão de pregar o evangelho ao mundo. Mas o espírito foi agora dado para um fim especial. Antes de os discípulos poderem cumprir seus deveres oficiais em relação com a igreja, Cristo soprou sobre eles Seu espírito. Estava-lhes confiando um santíssimo legado, e desejava impressioná-los com o fato de que, sem o Seu Santo  espírito , não se podia realizar esta obra.

O espírito de Cristo é o sopro da vida espiritual na alma. A comunicação do espírito é a transmissão da vida de Cristo. Reveste o que O recebe com os atributos de Cristo. Unicamente os que são assim ensinados por Deus, os que possuem a operação interior do espírito, e em cuja vida se manifesta a vida de Cristo, devem-se colocar como homens representativos, para servir em favor da igreja.

"Aqueles a quem perdoardes os pecados", disse-lhes Cristo, "são perdoados; e aqueles a quem os retiverdes lhes são retidos." João 20:23. Cristo não dá aqui permissão, para qualquer homem julgar a outros. No Sermão do Monte, Ele proíbe fazê-lo. É a prerrogativa de Deus. Sobre a igreja em sua qualidade de corpo organizado, porém, Ele coloca uma responsabilidade para com os membros individuais. A igreja tem o dever, para com os que caem em pecado, de advertir, instruir e, se possível, restaurar. "Que ...

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redarguas, repreendas, exortes", diz o Senhor, "com toda a longanimidade e doutrina." II Tim. 4:2. Lidai fielmente com os que fazem mal. Adverti toda alma que se acha em perigo. Não deixeis que ninguém se engane a si mesmo. Chamai o pecado pelo seu verdadeiro nome. Declarai o que Deus disse com relação à mentira, à transgressão do sábado, ao roubo, à idolatria e a todos os outros males. "Os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus." Gál. 5:21. Se eles persistirem no pecado, o juízo que haveis declarado segundo a Palavra de Deus é sobre eles proferido no Céu. Preferindo pecar, renunciam a Cristo; a igreja deve mostrar que não sanciona seus atos, do contrário ela própria desonra ao Senhor. Deve dizer a respeito do pecado o mesmo que declara o Senhor. Deve tratar com ele segundo as instruções divinas, e sua ação é ratificada no Céu. Aquele que desdenha a autoridade da igreja, despreza a do próprio Cristo.

Há, porém, na questão, um aspecto mais feliz. "Aqueles a quem perdoardes os pecados lhes são perdoados." João 20:23. Seja, acima de tudo, conservado este pensamento. No trabalho em prol dos que se acham em erro, dirigi todo olhar para Cristo. Tenham os pastores terno cuidado pelo rebanho do pasto do Senhor. Falem ao extraviado da perdoadora misericórdia do Salvador. Animem o pecador a arrepender-se e a crer nAquele que pode perdoar. Declarem, sobre a autoridade da palavra de Deus: "Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça." I João 1:9. Todos quantos se arrependem têm a afirmação: "Tornará a apiedar-Se de nós; subjugará as nossas iniqüidades, e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do mar." Miq. 7:19.

Seja o arrependimento do pecador aceito pela igreja com coração agradecido. Conduza-se o arrependido da treva da incredulidade para a luz da fé e da justiça. Coloque-se sua trêmula mão na amorável mão de Jesus. Tal remissão é ratificada no Céu.

Unicamente nesse sentido tem a igreja poder de absolver o pecador. A remissão dos pecados só pode ser obtida por meio dos méritos de Cristo. A nenhum homem, a nenhum corpo de homens, é dado o poder de libertar da culpa a alma. Cristo encarrega Seus discípulos de pregar a remissão dos pecados em Seu nome entre todas as nações; eles próprios, porém, não foram dotados do poder de tirar uma só mancha de pecado. O nome de Jesus é "debaixo do Céu" o único que "há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos". Atos 4:12.

Quando Jesus Se encontrou pela primeira vez com os discípulos no cenáculo, Tomé não se achava com eles. Ouviu a narração dos outros, e teve abundantes provas de que Jesus tinha ressuscitado; mas a tristeza e a incredulidade enchiam-lhe o coração.

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Ao ouvir os discípulos contarem as maravilhosas manifestações do ressurgido Salvador, isso apenas o levou a imergir em mais profundo desespero. Se Jesus tivesse realmente ressuscitado dos mortos, não havia mais esperança de um literal reino terrestre. E feria sua vaidade pensar que o Mestre Se revelasse a todos os discípulos menos a ele. Estava decidido a não crer, e por uma semana inteira aninhou aqueles infelizes pensamentos, que pareciam tanto mais sombrios quando contrastavam com a esperança e a fé dos irmãos.

Durante esse tempo, declarava repetidamente: "Se eu não vir o sinal dos cravos em Suas mãos e não meter o dedo no lugar dos cravos, e não meter minha mão no Seu lado, de maneira nenhuma o crerei." João 20:25. Não queria ver através dos olhos dos irmãos, nem exercer fé dependente do testemunho deles. Amava ardentemente ao Senhor, mas permitira que ciúme e incredulidade lhe tomassem posse da mente e do coração.

Vários discípulos fizeram, então, do familiar cenáculo, sua habitação temporária, e à noite todos, com exceção de Tomé, aí se reuniam. Uma noite, decidiu reunir-se com os demais. Não obstante sua incredulidade, tinha uma vaga esperança de que as boas novas fossem verdadeiras. Enquanto os discípulos tomavam a refeição da tarde, conversavam acerca dos testemunhos que Jesus lhes dera nas profecias. "Chegou Jesus, estando as portas fechadas, e apresentou-Se no meio, e disse: Paz seja convosco." João 20:26.

Voltando-Se para Tomé, disse: "Põe aqui o teu dedo, e vê as Minhas mãos; e chega a tua mão, e mete-a no Meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente." João 20:27. Essas palavras mostravam que Ele conhecia os pensamentos e as palavras de Tomé. O duvidoso discípulo sabia que nenhum dos companheiros vira a Jesus, havia uma semana. Não podiam ter contado ao Mestre sua incredulidade. Reconheceu como seu Senhor Aquele que Se achava diante dele. Não desejou mais provas. O coração saltou-lhe de alegria, e lançou-se aos pés de Jesus, exclamando: "Senhor meu, e Deus meu!" João 20:28.

Jesus lhe aceitou o reconhecimento, mas reprovou brandamente sua incredulidade: "Porque Me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram." João 20:29. A fé de Tomé teria sido mais agradável a Cristo, se ele tivesse sido pronto a crer pelo testemunho de seus irmãos. Seguisse hoje o mundo o exemplo de Tomé, e ninguém haveria de crer para salvação; pois todos quantos recebem a Cristo devem fazê-lo mediante o testemunho de outros.

Muitos que são dados à dúvida se desculpam dizendo que, se lhes fosse apresentada a prova que Tomé teve de seus

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companheiros, creriam. Não compreendem estes que eles têm, não somente essa prova, mas muito mais. Muitos que, à semelhança de Tomé, esperam que desapareça todo motivo de dúvida, nunca hão de realizar seu desejo. Confirmam-se gradualmente na incredulidade. Os que se educam a olhar para o lado sombrio, a murmurar e queixar-se, não sabem o que fazem. Estão lançando as sementes da dúvida, e terão também uma colheita de dúvidas a ceifar. Num tempo em que a fé e a confiança são de todo essenciais, muitos se encontrarão assim impotentes para esperar e crer.

Na Sua maneira de tratar com Tomé, Jesus deu uma lição para Seus seguidores. Seu exemplo nos mostra como devemos tratar aqueles cuja fé é fraca, e põem suas dúvidas em destaque. Jesus não esmagou a Tomé com censuras, nem entrou com ele em discussão. Revelou-Se ao duvidoso. Tomé fora muito irrazoável em ditar as condições de sua fé, mas Jesus, por Seu generoso amor e consideração, derribou todas as barreiras. Raramente se vence a incredulidade pela discussão. Antes isso como que a põe em guarda, encontrando novo apoio e desculpa. Mas revele-Se Jesus, em Seu amor e misericórdia, como o Salvador crucificado e, de muitos lábios dantes contrários, ouvir-se-á a frase de reconhecimento, proferida por Tomé: "Senhor meu, e Deus meu!" João 20:28.

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Mais Uma Vez à Beira-Mar

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Jesus indicara aos discípulos um encontro na Galiléia; e logo depois da semana da Páscoa, para ali dirigiram os passos. Sua ausência de Jerusalém durante a festa, seria interpretada como desafeto e heresia, de modo que ficaram até o fim; acabada que foi, porém, voltaram-se alegremente para sua terra, ao encontro do Salvador, segundo as instruções dEle recebidas.

Sete dos discípulos iam em grupo. Trajavam as humildes vestes de pescador; eram pobres em bens do mundo, mas ricos no conhecimento e observância da verdade, o que à vista do Céu, os colocava na mais alta posição como mestres. Não haviam estudado nas escolas dos profetas, mas por três anos foram instruídos pelo maior educador que o mundo já conheceu. Sob Suas instruções se tornaram elevados, inteligentes, enobrecidos, instrumentos mediante os quais os homens poderiam ser conduzidos ao conhecimento da verdade.

Grande parte do tempo do ministério de Cristo, fora passado próximo ao Mar da Galiléia. Ao se reunirem os discípulos num lugar onde parecia que não haviam de ser perturbados, acharam-se rodeados de recordações de Jesus e de Suas poderosas obras. Nesse mar, quando o coração deles estava cheio de terror, e a terrível tempestade os precipitava para a destruição, caminhara Jesus por cima das ondas, a fim de os livrar. Ali fora a tempestade acalmada à Sua voz. Ao alcance da vista estava a praia em que mais de dez mil pessoas foram alimentadas com alguns pães e uns peixinhos. Não muito distante estava Cafarnaum, testemunha de tantos milagres. E ao espraiarem os discípulos o olhar por

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todo esse cenário, enchia-se-lhes a mente de palavras e atos do Salvador.

A tarde estava agradável, e Pedro, que ainda sentia muito de seu antigo amor por barcos e pesca, propôs que se fizessem ao mar e atirassem as redes. Todos se prontificaram a seguir-lhe o exemplo; estavam necessitados de alimento e de roupa, o que seria suprido com o resultado de uma bem-sucedida noite de pesca. Assim se afastaram nos botes, mas nada apanharam. Toda a noite labutaram, mas sem resultado. Durante fatigantes horas, falaram sobre o Senhor ausente e relembraram os admiráveis acontecimentos que presenciaram em Seu ministério à beira-mar. Interrogaram-se quanto ao próprio futuro, e se entristeceram ante as perspectivas.

Todo esse tempo, um solitário Observador, na praia, os acompanhava com a vista, ao passo que Ele próprio Se achava invisível. Por fim raiou a manhã. O barco estava apenas a pouca distância da terra, e os discípulos viram de pé na praia um Estranho que os abordou com a pergunta: "Filhos, tendes alguma coisa de comer?" Quando responderam: "Não", "Ele lhes disse: Lançai a rede para a banda direita do barco, e achareis. Lançaram-na, pois, e já não a podiam tirar, pela multidão dos peixes." João 21:5 e 6.

João reconheceu o Estranho e exclamou para Pedro: "É o Senhor." Pedro ficou tão arrebatado, tão alegre, que em sua ansiedade se lançou à água e dentro em pouco se encontrou ao lado do Mestre. Os outros discípulos vieram no bote, puxando a rede com os peixes. "Logo que desceram para terra, viram ali brasas, e um peixe posto em cima, e pão." João 21:9.

Estavam demasiado surpresos para perguntar de onde viera o fogo e a comida. "Disse-lhes Jesus: Trazei dos peixes que agora apanhastes." João 21:10. Pedro correu para a rede que ele lançara, e ajudou os irmãos a arrastá-la para a praia. Depois de tudo pronto, Jesus convidou os discípulos para comer. Partiu o alimento e o dividiu entre eles, sendo conhecido e reconhecido por todos os sete. O milagre feito na encosta da montanha, para alimentar os cinco mil, acudiu-lhes à memória; mas estavam tomados de misterioso respeito e, em silêncio, contemplavam o Salvador ressuscitado.

Recordavam vivamente a cena junto ao mar, quando Jesus lhes ordenara que O seguissem. Lembraram-se de como, ao Seu mando, se haviam feito ao mar alto e lançado a rede, e a pesca fora tão abundante que a enchera a ponto de romper-se. Então Jesus os convidara a deixar os barcos de pesca e lhes prometera torná-los pescadores de homens. Fora para trazer-lhes esta cena à lembrança

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aprofundar-lhes a impressão, que Ele tornara a realizar o milagre. Seu ato era uma renovação da comissão confiada aos discípulos. Isso lhes mostrava que a morte de seu Mestre não lhes diminuíra a obrigação para com a obra que lhes designara. Embora houvessem de ser privados de Sua companhia em pessoa, e dos meios de subsistência providos por sua antiga ocupação, o Salvador ressuscitado cuidaria deles ainda. Enquanto estivessem fazendo Sua obra, Ele providenciaria quanto às suas necessidades. E Jesus tinha um desígnio em ordenar-lhes que deitassem a rede do lado direito do barco. Daquele lado estava Ele, na praia. Era o lado da fé. Se trabalhassem em ligação com Jesus - combinando-se Seu divino poder com o esforço humano deles - não deixariam de ter êxito.

Outra lição tinha Cristo a ensinar, a qual dizia respeito especialmente a Pedro. A negação do Senhor por parte do mesmo era um vergonhoso contraste com sua anterior profissão de lealdade. Ele desonrara a Cristo e incorrera na desconfiança dos irmãos. Estes pensavam que Pedro não teria permissão de ocupar sua posição anterior entre eles, e ele próprio sentia haver perdido o direito ao depósito que lhe fora confiado. Antes de ser chamado a retomar sua obra apostólica, devia dar, perante todos eles, testemunho de seu arrependimento. Sem isso, seu pecado, embora dele se houvesse arrependido, poderia destruir-lhe a influência como ministro de Cristo. O Salvador deu-lhe oportunidade de reconquistar a confiança dos irmãos e, tanto quanto possível, afastar a mancha que trouxera sobre o evangelho.

Aí se dá uma lição a todos os seguidores de Cristo. O evangelho não transige com o mal. Não pode desculpar o pecado. Os pecados secretos devem em segredo ser confessados a Deus; mas o pecado público requer pública confissão. A vergonha do discípulo de Cristo é lançada sobre Cristo. Faz com que Satanás triunfe e tropecem as almas vacilantes. Dando provas de arrependimento, deve o discípulo remover a injúria, tanto quanto esteja ao seu alcance.

Enquanto Cristo e os discípulos comiam juntos à beira-mar, perguntou o Salvador a Pedro, referindo-Se a seus irmãos: "Simão, filho de Jonas, amas-Me mais do que estes?" Pedro declarara: "Ainda que todos se escandalizem em Ti, eu nunca me escandalizarei." Mat. 26:33. Agora, porém, ele se deu mais verdadeira estimação: "Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo", disse. Nenhuma veemente afirmação de que seu amor é maior que o dos irmãos. Não exprime a própria opinião quanto à dedicação que tem. Apela para Aquele que lê todos os motivos do coração, a fim de que julgue sua sinceridade - "Tu sabes que Te amo". E Jesus lhe recomenda: "Apascenta os Meus cordeiros." João 21:15.

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De novo aplicou Jesus a prova a Pedro, repetindo as palavras anteriores: "Simão, filho de Jonas, amas-Me?" Desta vez não perguntou a Pedro se O amava mais do que seus irmãos. A segunda resposta foi idêntica à primeira, livre de exageros: "Sim, Senhor; Tu sabes que Te amo." Jesus lhe disse: "Apascenta as Minhas ovelhas." Uma vez mais o Salvador fez a probante pergunta: "Simão, filho de Jonas, amas-Me?" Pedro se entristeceu; julgou que Cristo duvidasse de seu amor. Sabia que seu Senhor tinha motivo para dele desconfiar e, com dor, respondeu: "Senhor, tu sabes tudo; Tu sabes que eu Te amo." Outra vez Jesus lhe disse: "Apascenta as Minhas ovelhas." João 21:16 e 17.

Três vezes negara Pedro abertamente o Senhor, e três vezes tirou Jesus dele a certeza de seu amor e lealdade, insistindo naquela penetrante pergunta, seta aguda ao seu ferido coração. Jesus revelou perante os discípulos reunidos a profundeza do arrependimento de Pedro, e mostrou quão completamente humilhado se achava o discípulo outrora jactancioso.

Pedro era naturalmente ousado e impulsivo, e Satanás se aproveitara dessas características para o derrotar. Mesmo antes da queda de Pedro, Jesus lhe dissera: "Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos." Luc. 22:31 e 32. Chegara então esse tempo, e era evidente a transformação de Pedro. As incisivas, penetrantes perguntas do Senhor não provocaram réplica ousada, presunçosa; e, em virtude de sua humilhação e arrependimento, Pedro estava mais bem preparado do que nunca para agir como pastor junto ao rebanho.

A primeira obra que Cristo confiara a Pedro, ao restaurá-lo ao ministério, foi apascentar os cordeiros. Era essa uma tarefa em que Pedro pouca experiência tinha. Requeria grande cuidado e ternura, muita paciência e perseverança. Ela o chamava a servir aos mais novos na fé, a ensinar os ignorantes, a abrir-lhes as Escrituras e a educá-los para a utilidade no serviço de Cristo. Até então, Pedro não estava apto para fazer isso, nem mesmo para compreender a importância desse trabalho. Mas esta foi a obra a que Cristo então o chamou. Para isso o preparara sua própria experiência de sofrimento e arrependimento.

Antes de sua queda, Pedro estava sempre falando desavisadamente, levado pelo impulso do momento. Sempre pronto a corrigir os outros, exprimia os próprios pensamentos, antes de ter idéia clara a respeito de si mesmo ou do que ia dizer. O Pedro convertido, porém, era bem diverso. Conservava o antigo fervor, mas a graça de Cristo lhe regulava o zelo. Não mais era

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impetuoso, confiante em si mesmo, presumido, mas calmo, dominado e dócil. Podia então alimentar tanto os cordeiros como as ovelhas do rebanho de Cristo.

A maneira de o Salvador proceder para com Pedro encerrava uma lição para ele e para seus irmãos. Ensinava-lhes a tratar o transgressor com paciência, simpatia e amor pleno de perdão. Embora Pedro houvesse negado a seu Senhor, o amor que Ele lhe tinha nunca esmoreceu. Amor assim deve o subpastor sentir pelas ovelhas e cordeiros confiados ao seu cuidado. Lembrando sua própria fraqueza e fracasso, Pedro devia tratar com o rebanho tão ternamente como o fizera Cristo com ele.

A pergunta dirigida a Pedro por Cristo era significativa. Ele mencionou apenas uma condição de discipulado e serviço. "Amas-Me?" disse Ele. É esta a qualificação essencial. Ainda que Pedro possuísse todas as outras, sem o amor de Cristo, não podia ser um fiel pastor do rebanho do Senhor. Conhecimento, liberalidade, eloqüência, gratidão e zelo são todos auxiliares na boa obra; mas sem o amor de Jesus no coração, a obra do ministro cristão é um fracasso.

Jesus caminhava sozinho com Pedro, pois havia alguma coisa que lhe desejava comunicar a ele só. Antes de Sua morte, tinha-lhe dito: "Para onde Eu vou não podes agora seguir-Me, mas depois Me seguirás." A isso replicara Pedro: "Por que não posso seguir-Te agora? Por ti darei a minha vida." João 13:36 e 37. Ao falar assim, mal sabia a que alturas e profundidades o havia Cristo de conduzir. Pedro fracassara ao sobrevir a prova, mas outra vez lhe seria dado ensejo de demonstrar seu amor por Cristo. A fim de que se fortalecesse para a prova suprema de sua fé, o Salvador desvendou-lhe o seu futuro. Disse-lhe que, depois de viver vida de utilidade, quando os anos se fizessem sentir em suas forças, haveria então realmente de seguir a seu Senhor. Jesus disse: "Quando eras mais moço, te cingias a ti mesmo, e andavas por onde querias: mas, quando já fores velho, estenderás as tuas mãos; e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queiras. E disse isto significando com que morte havia ele de glorificar a Deus." João 21:18 e 19.

Assim deu Jesus a conhecer a Pedro a própria maneira de sua morte; predisse mesmo o estender de suas mãos sobre a cruz. Outra vez disse ao discípulo: "Segue-Me." Pedro não ficou desanimado pela revelação. Estava pronto a sofrer qualquer espécie de morte por seu Senhor.

Até então Pedro conhecera a Cristo segundo a carne, como muitos O conhecem hoje; mas não mais deveria estar assim

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limitado. Não O conhecia como antes, em sua convivência com Ele na humanidade. Amara-O como homem, como mestre enviado pelo Céu; amava-O agora como Deus. Estivera a aprender a lição de que para ele Cristo era tudo em todos. Agora estava preparado para partilhar da missão de seu Senhor, missão de sacrifício. Quando, afinal, o levaram à cruz, foi, por solicitação sua, crucificado de cabeça para baixo. Julgava demasiada honra sofrer pela mesma maneira que seu Mestre.

Para Pedro, as palavras "Segue-Me", foram cheias de ensino. Não somente para sua morte, mas para cada passo de sua vida, era dada essa lição. Até então, Pedro fora inclinado a agir independentemente. Tinha procurado fazer projetos para a obra de Deus, em lugar de esperar para seguir o plano divino. Nada poderia ele lucrar, no entanto, por antecipar-se ao Senhor. Jesus ordenara-lhe: "Segue-Me." Não corras adiante de Mim. Então não terás de enfrentar sozinho as hostes de Satanás. Deixa-Me ir na tua frente, e não serás vencido pelo inimigo.

Enquanto Pedro caminhava ao lado de Jesus, viu que João os seguia. Apoderou-se dele o desejo de conhecer o futuro daquele, e "disse a Jesus: Senhor, e deste que será? Disse-lhe Jesus: Se Eu quero que ele fique até que Eu venha, que te importa a ti? Segue-Me tu". João 21:20 e 22. Pedro devia ter considerado que seu Senhor lhe revelaria tudo quanto lhe fosse melhor conhecer. É dever de cada um seguir a Cristo, sem indevida ansiedade quanto ao trabalho designado a outros. Ao dizer a respeito de João: "Se Eu quero que ele fique até que Eu venha", Cristo não afirmou de maneira alguma que esse discípulo havia de viver até à segunda vinda do Senhor. Afirmou simplesmente Seu supremo poder, e que mesmo que Ele quisesse que tal fosse assim, isso de maneira alguma deveria afetar a obra de Pedro. O futuro tanto de João como de Pedro estava nas mãos de seu Senhor. Obediência em O seguir, eis o dever exigido de cada um.

Quantos hoje em dia são como Pedro! Interessam-se nos negócios dos outros, ficam ansiosos por conhecer-lhes o dever, ao passo que estão em perigo de negligenciar o seu próprio. É nossa obra olhar a Cristo e segui-Lo. Veremos erros na vida dos outros, e defeitos em seu caráter. A humanidade está circundada de fraquezas. Em Cristo, porém, acharemos perfeição. Olhando para Ele seremos transformados.

João viveu até avançada velhice. Testemunhou a destruição de Jerusalém, e a ruína do majestoso templo - símbolo da ruína final do mundo. Até seus derradeiros dias seguiu João bem de perto ao Senhor. A nota predominante de seu testemunho à igreja,

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era: "Amados, amemo-nos uns aos outros"; "quem está em caridade está em Deus, e Deus nele." I João 4:7 e 16.

Pedro fora restaurado em seu apostolado, mas a honra e a autoridade que recebera de Cristo não lhe outorgaram supremacia sobre seus irmãos. Isso tornara Jesus claro quando, em resposta à pergunta dele: "E deste que será?" dissera: "Que te importa a ti? Segue-Me tu." João 21:23. Pedro não foi honrado como cabeça da igreja. O favor que Cristo lhe mostrara em perdoar-lhe a apostasia e confiar-lhe o apascentar do rebanho, e a fidelidade do próprio Pedro em seguir a Cristo, granjearam-lhe a confiança dos irmãos. Tinha muita influência na igreja. Mas a lição que Cristo lhe ensinara junto ao Mar da Galiléia, Pedro a manteve consigo no decorrer de toda a vida. Escrevendo sob inspiração do espírito de DEUS às igrejas, disse:

"Aos presbíteros que estão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória que se há de revelar: Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho. E, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa de glória." I Ped. 5:1-4.

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Ide, Ensinai a Todas as Nações

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Achando-Se a um passo de Seu trono celestial, deu Cristo aos discípulos a comissão. "É-Me dado todo o poder no Céu e na Terra", disse Ele. "Portanto ide, ensinai todas as nações." Mat. 28:18 e 19. "Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a criatura." Mar. 16:15. Várias vezes foram as palavras repetidas, a fim de que os discípulos lhes apreendessem o significado. Sobre todos os habitantes da Terra, elevados e humildes, ricos e pobres, devia a luz do Céu resplandecer em claros, poderosos raios. Os discípulos deviam ser colaboradores de seu Redentor na obra de salvar o mundo.

A comissão fora dada aos doze quando Cristo Se encontrara com eles no cenáculo; devia, porém, ser transmitida agora a um maior número. Em uma montanha da Galiléia se realizou uma reunião na qual se congregaram todos os crentes que podiam ser convocados. Para essa reunião, o próprio Cristo, antes de Sua morte, designara o tempo e o lugar. O anjo, no sepulcro, relembrara os discípulos de Sua promessa de os encontrar na Galiléia. A promessa foi repetida aos crentes reunidos em Jerusalém durante a semana da Páscoa, e por intermédio destes chegara a muitos outros, isolados, que pranteavam a morte de seu Senhor. Com vivo interesse aguardavam todos esse encontro. Dirigiram-se ao lugar de reunião por desvios, chegando ali de várias direções, a fim de evitar as suspeitas dos ciumentos judeus. Chegaram cheios de antecipações, falando entre si calorosamente das novas que lhes haviam sido transmitidas acerca de Cristo.

Ao tempo designado, cerca de quinhentos crentes estavam reunidos em pequenos grupos na encosta da montanha, ansiosos

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por saber tudo quanto fosse possível colher dos que tinham visto Jesus depois da ressurreição. Os discípulos passavam de grupo em grupo, dizendo tudo quanto haviam visto e ouvido do Salvador, e raciocinando sobre as Escrituras, como Ele fizera com eles. Tomé contava de novo a história de sua incredulidade, e dizia como se lhe haviam dissipado as dúvidas. De súbito, achou-Se Jesus no meio deles. Ninguém podia dizer de onde nem como viera. Muitos dos presentes nunca O tinham visto; em Suas mãos e pés, porém, divisaram os sinais da crucifixão; Seu semblante era como a face de Deus, e quando O viram, adoraram-nO.

Alguns, porém, duvidaram. Assim será sempre. Há os que acham difícil exercer fé e se colocam do lado da dúvida. Estes perdem muito por causa de sua incredulidade.

Foi esta a única entrevista que Jesus teve com muitos dos crentes, depois de Sua crucifixão. Chegou e falou-lhes, dizendo: "É-Me dado todo o poder, no Céu e na Terra." Os discípulos O haviam adorado antes de Ele falar; mas Suas palavras, proferidas por lábios que haviam estado selados pela morte, os comoveram com poder particular. Ele era agora o Salvador ressuscitado. Muitos deles O haviam visto exercer poder na cura de doentes e dominar instrumentos satânicos. Acreditavam que possuía poder para estabelecer Seu reino em Jerusalém, poder para dominar toda oposição, poder sobre os elementos da natureza. Fizera emudecer as águas revoltas; caminhara por cima das espumejantes vagas; erguera para a vida os mortos. Agora declarava que Lhe era dado "todo o poder". Suas palavras levaram a mente dos ouvintes acima das coisas terrenas e temporais, às celestiais e eternas. Foram erguidos à mais elevada concepção de Sua dignidade e glória.

As palavras de Cristo, na encosta da montanha, foram o anúncio de que Seu sacrifício em favor do homem era pleno, completo. As condições para a expiação haviam sido cumpridas; realizara-se a obra para que Ele viera a este mundo. Achava-Se a caminho para o trono de Deus, a fim de ser honrado pelos anjos, os principados e as potestades. Entrara em Sua obra mediadora. Revestido de ilimitada autoridade, dera aos discípulos a comissão: "E disse-lhes: Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado." Marcos 16:15-16.

Os judeus foram feitos depositários da sagrada verdade; o farisaísmo, porém, os tornara os mais exclusivistas, os mais

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fanáticos de toda a raça humana. Tudo que dizia respeito aos sacerdotes e aos príncipes - seu vestuário, seus costumes, suas cerimônias, e tradições - tudo os tornava inaptos para ser a luz do mundo. Consideravam-se a si mesmos, a nação judaica, como sendo o mundo. Mas Cristo comissionou Seus discípulos a proclamarem uma fé e um culto que nada encerravam de segregação ou nacionalismo; uma fé que se adaptaria a todos os povos, todas as nações, todas as classes de homens.

Antes de deixar os discípulos, Cristo declarou positivamente a natureza de Seu reino. Trouxe-lhes à memória o que lhes disse anteriormente a respeito do mesmo. Disse-lhes não ser desígnio Seu estabelecer no mundo um reino temporal, mas sim espiritual. Não havia de governar como rei terrestre no trono de Davi. De novo lhes abriu as Escrituras, mostrando que tudo por que Ele passara fora ordenado no Céu, nos conselhos entre Seu Pai e Ele próprio. Tudo fora predito por homens inspirados pelo espírito de DEUS. Disse-lhes: Vedes que tudo quanto vos revelei acerca de Minha rejeição como o Messias, veio a cumprir-se. Verificou-se tudo quanto disse a respeito da humilhação que Eu devia suportar e da morte de que devia morrer. Ao terceiro dia, ressuscitei. Examinai mais diligentemente as Escrituras e vereis que, em todas essas coisas, se cumpriram as especificações da profecia a Meu respeito.

Cristo ordenou aos discípulos que fizessem a obra que lhes deixara nas mãos, começando em Jerusalém. Jerusalém fora o cenário de Sua alarmante condescendência para com a raça humana. Lá sofrera Ele, sendo rejeitado e condenado. A terra da Judéia era Seu berço. Ali, revestido da humanidade, andara com os homens, e poucos haviam discernido quão perto o Céu chegara da Terra, quando Jesus Se achava entre eles. Em Jerusalém devia começar a obra dos discípulos.

Em vista de tudo quanto Cristo ali sofrera e do não apreciado trabalho que realizara, os discípulos poderiam ter pedido um campo mais prometedor; não fizeram, entretanto, essa petição. O próprio terreno em que Ele espalhara a semente da verdade devia ser cultivado pelos discípulos, e a semente brotaria, produzindo abundante colheita. Em sua obra, teriam os discípulos de sofrer perseguição por causa do ciúme e o ódio dos judeus; mas isso fora suportado pelo Mestre, e não deviam dela fugir. As primeiras ofertas de misericórdia, cumpria apresentá-las aos assassinos do Salvador.

E existiam em Jerusalém muitos que tinham crido secretamente em Jesus, e muitos que haviam sido iludidos pelos sacerdotes e os príncipes. Também a estes devia o evangelho ser

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apresentado. Deviam ser chamados ao arrependimento. Cumpria patentear a admirável verdade de que unicamente por meio de Cristo se poderia obter remissão de pecados. Enquanto toda Jerusalém estava agitada com os emocionantes acontecimentos das últimas semanas, a pregação do evangelho causaria a mais profunda impressão.

Mas a obra não pararia aí. Dever-se-ia estender aos remotos confins da Terra. Cristo dissera aos discípulos: Fostes testemunhas de Minha vida de sacrifício em favor do mundo. Presenciastes Meus labores por Israel. Embora não quisessem vir a Mim para ter vida, se bem que sacerdotes e principais Me tivessem feito o que lhes aprouve, embora Me rejeitassem segundo a predição das Escrituras, terão ainda outra oportunidade de aceitar o Filho de Deus. Vistes que a todos quantos vêm a Mim, confessando os pecados, Eu os aceito livremente. Aquele que vem a Mim, de maneira nenhuma o lançarei fora. Todos quantos quiserem, serão reconciliados com Deus e receberão vida eterna. A vós, Meus discípulos, confio esta mensagem de misericórdia. Seja anunciada primeiro a Israel, e depois a todas as nações, línguas e povos. Proclame-se a judeus e gentios. Todos quantos crerem, serão reunidos em uma igreja.

Mediante o dom do Santo espírito , receberiam os discípulos maravilhoso poder. Seu testemunho seria confirmado por sinais e maravilhas. Seriam operados milagres, não somente pelos apóstolos, mas também pelos que lhes recebessem a mensagem. Disse Jesus: "Em Meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão." Mar. 16:17 e 18.

Naquela época era muitas vezes empregado o envenenamento. Homens sem escrúpulos não hesitavam em afastar, por essa maneira, os que estavam no caminho de suas ambições. Jesus sabia que a vida dos discípulos seria assim posta em perigo. Muitos julgariam estar servindo a Deus ao matar Suas testemunhas. Portanto, prometeu protegê-los contra esses perigos.

Os discípulos deviam ter o mesmo poder que Cristo possuía para curar "todas as enfermidades e moléstias entre o povo". Curando em Seu nome as doenças do corpo, davam testemunho de Seu poder para a cura da alma. Mat. 4:23. E um novo dom foi então prometido. Deviam pregar entre outras nações, e receberiam poder de falar outras línguas. Os apóstolos e seus cooperadores eram homens iletrados, todavia mediante o derramamento do espírito de Jesus, no dia de Pentecoste, sua linguagem, fosse no próprio idioma ou num estrangeiro, tornou-se pura, simples e correta, tanto nas palavras como na pronúncia.

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Assim deu Cristo aos discípulos sua missão. Tomou plenas medidas para a seqüência da obra, assumindo Ele próprio a responsabilidade do êxito da mesma. Enquanto Lhe obedecessem à palavra e trabalhassem em ligação com Ele, não poderiam falhar. Ide a todas as nações, ordenou-lhes. Ide às mais longínquas partes do globo habitado, mas sabei que Minha presença ali Se achará. Trabalhai com fé e confiança, pois nunca virá tempo em que Eu vos abandone.

A comissão do Salvador aos discípulos incluía todos os crentes. Abrange todos os crentes em Cristo até ao fim dos séculos. É um erro fatal supor que a obra de salvar almas depende apenas do pastor ordenado. Todos a quem veio a celestial inspiração, são depositários do evangelho. Todos quantos recebem a vida de Cristo são mandados trabalhar pela salvação de seus semelhantes. Para essa obra foi estabelecida a igreja, e todos quantos tomam sobre si os seus sagrados votos, comprometem-se, assim, a ser coobreiros de Cristo.

"O espírito e a esposa dizem: Vem. E quem ouve, diga: vem." Apoc. 22:17. Todo aquele que ouve deve repetir o convite. Seja qual for a vocação de uma pessoa na vida, seu primeiro interesse deve ser ganhar almas para Cristo. Talvez ela não seja capaz de falar às congregações; pode, no entanto, trabalhar em favor dos indivíduos. Pode comunicar-lhes as instruções recebidas do Senhor. O ministério não consiste apenas em pregar. Exercem-no os que aliviam os doentes e os sofredores, ajudam os necessitados, dirigem palavras de conforto aos desanimados e aos de pouca fé. Por perto e por longe encontram-se almas vergadas ao peso de um sentimento de culpa. Não são as penas, as labutas, a pobreza que degradam a humanidade. É a culpa, o mau proceder. Isso traz desassossego e descontentamento. Cristo quer que Seus servos ajudem as almas enfermas de pecado.

Os discípulos deviam começar sua obra onde se achavam. O mais duro campo, o menos prometedor, não devia ser passado por alto. Cumpre, assim, a cada um dos obreiros de Cristo começar onde está. Em nossa própria família pode haver almas sequiosas de simpatia, famintas do pão da vida. Talvez haja crianças a serem educadas para Cristo. Há pagãos às nossas próprias portas. Façamos fielmente a obra que nos fica mais próxima. Depois, estendamos nossos esforços tão longe quanto a mão de Deus no-la indicar. A obra de muitos parecerá ser restringida pelas circunstâncias; mas seja onde for, se executada com fé e diligência, far-se-á sentir até às mais remotas partes da Terra. Quando Cristo estava no mundo, Sua obra parecia limitada a um estreito campo; no entanto multidões de todas as terras ouviram-Lhe a

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mensagem. Deus Se serve muitas vezes dos mais simples meios para produzir os maiores resultados. É Seu plano que cada parte de Sua obra dependa de outra parte, como uma roda dentro de outra, funcionando todas em harmonia. O mais humilde obreiro, movido pelo espírito de Jesus, poderá tocar cordas invisíveis, cujas vibrações hão de soar até aos confins da Terra e produzir melodias através dos séculos eternos.

Mas cumpre não perder de vista a ordem: "Ide por todo o mundo." Mar. 16:15. Somos chamados a erguer os olhos para as terras distantes. Cristo derruba o muro divisório, os separadores preconceitos de nacionalidade, ensinando amor por toda a família humana. Ergue os homens do estreito círculo que o egoísmo lhes prescreve; apaga todas as fronteiras territoriais e as artificiais distinções de classe. Não faz diferença entre vizinhos e estranhos, amigos e inimigos. Ensina-nos a olhar a toda alma necessitada como nosso irmão, e o mundo como nosso campo.

Quando o Salvador disse: "Ide, ensinai todas as nações", disse também: "Estes sinais seguirão aos que crerem: Em Meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão." Mar. 16:17 e 18. A promessa é tão vasta como a comissão. Não que todos os dons sejam comunicados a cada crente. O espírito de DEUS reparte "particularmente a cada um como quer". I Cor. 12:11. Mas os dons do Seu espírito são prometidos a todo crente segundo sua necessidade para a obra do Senhor. A promessa é, hoje, exatamente tão categórica e digna de confiança, como nos dias dos apóstolos. "Estes sinais seguirão aos que creram." Mar. 16:17. Este é o privilégio dos filhos de Deus, e a fé deve lançar mão de tudo quanto é possível possuir como apoio.

"Porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão." Este mundo é um vasto hospital, mas Cristo veio curar os enfermos, proclamar liberdade aos cativos de Satanás. Era em Si mesmo saúde e vigor. Comunicava Sua vida aos doentes, aos aflitos, aos possessos de demônios. Não repelia ninguém que viesse receber Seu poder vivificador. Sabia que os que Lhe pediam auxílio haviam trazido sobre si mesmos a doença; todavia, não Se recusava a curá-los. E quando a virtude provinda de Cristo penetrava nessas pobres almas, sentiam a convicção do pecado, e muitos eram curados de suas enfermidades espirituais, bem como das do corpo. O evangelho possui ainda o mesmo poder, e por que não deveríamos testemunhar hoje idênticos resultados?

Cristo sente as misérias de todo sofredor. Quando os espíritos maus arruínam o organismo humano, Cristo sente essa ruína. Quando a febre consome a corrente vital, Ele sente a agonia.

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E está tão disposto a curar o enfermo hoje, como quando Se achava em pessoa na Terra. Os servos de Cristo são Seus representantes, instrumentos pelos quais opera. Ele deseja, por intermédio dos mesmos, exercer Seu poder de curar.

Na maneira por que o Salvador curava, havia lições para os discípulos. Uma ocasião, ungiu com terra os olhos de um cego, dizendo-lhe: "Vai, lava-te no tanque de Siloé. ... Foi pois, e lavou-se, e voltou vendo." João 9:7. A cura só se podia operar pelo poder do grande Médico; todavia, Cristo fez uso dos simples agentes da natureza. Conquanto não recomendasse as medicações compostas de drogas, sancionou o emprego de remédios simples e naturais.

A muitos dos aflitos que foram curados, disse Cristo: "Não peques mais, para que te não suceda alguma coisa pior." João 5:14. Assim ensinou que a doença é o resultado da violação das leis de Deus, tanto naturais como espirituais. Não existiria no mundo a grande miséria que há, se tão-somente os homens vivessem em harmonia com o plano do Criador.

Cristo fora o guia e mestre do antigo Israel, e ensinara-lhe que a saúde é o prêmio da obediência às leis divinas. O grande Médico que curava os doentes da Palestina, falara a Seu povo da coluna de nuvem, dizendo-lhe o que devia fazer, e o que Deus faria por ele. "Se ouvires atento a voz do Senhor teu Deus", disse, "e obrares o que é reto diante de Seus olhos, e inclinares os teus ouvidos aos Seus mandamentos, e guardares todos os Seus estatutos, nenhuma das enfermidades porei sobre ti, que pus sobre os egípcios; porque Eu sou o Senhor que te sara." Êxo. 15:26. Cristo deu a Israel definidas instruções acerca de seus hábitos de vida, e assegurou-lhe: "E o Senhor de ti desviará toda a enfermidade." Deut. 7:15. Quando cumpriam as condições, verificavam-se as promessas. "Entre as suas tribos não houve um só enfermo." Sal. 105:37.

Estas lições são para nós. Há condições que devem ser observadas por todos os que queiram conservar a saúde. Cumpre aprenderem todos quais são essas condições. Deus não Se agrada da ignorância com respeito a Suas leis, sejam naturais, sejam espirituais. Devemos ser coobreiros Seus, para restauração da saúde do corpo bem como da alma.

E devemos ensinar os outros a conservar e a recuperar a saúde. Empregar para os doentes os remédios providos por Deus na natureza, bem como encaminhá-los Àquele que, unicamente, pode restaurar. É nossa obra apresentar os doentes e sofredores a Cristo, nos braços de nossa fé. Devemos ensinar-lhes a crer no grande Médico. Lançar mão de Sua promessa, e orar pela

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manifestação de Seu poder. A própria essência do evangelho é restauração, e o Salvador quer que induzamos os enfermos, os desamparados e os aflitos a se apoderarem de Sua força.

O poder do amor estava em todas as curas de Cristo, e unicamente participando desse amor, pela fé, podemos ser instrumentos para Sua obra. Se negligenciamos pôr-nos em divina ligação com Cristo, a corrente de energia vitalizante não pode fluir em abundantes torrentes de nós para o povo. Houve lugares em que o próprio Salvador não pôde realizar muitas obras poderosas, devido à incredulidade. Assim agora a incredulidade separa a igreja de seu divino Ajudador. Fraco é seu apego às realidades eternas. Por sua falta de fé, fica Deus decepcionado, e é roubado de Sua glória.

É fazendo a obra de Cristo que a igreja tem a promessa de Sua presença. Ide, ensinai a todas as nações, disse Ele; "e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos" Mat. 28:20. Tomar o Seu jugo é uma das primeiras condições para receber-Lhe o poder. A própria vida da igreja depende de sua fidelidade em cumprir a comissão do Senhor. Certo, negligenciar essa obra é convidar a fraqueza e a decadência espirituais. Onde não há ativo trabalho em benefício de outros, o amor diminui e definha a fé.

É intento de Cristo que Seus ministros sejam educadores da igreja na obra evangélica. Cumpre-lhes ensinar o povo a buscar e salvar os perdidos. É esta, porém, a obra que estão fazendo? Ai! quantos estão porfiando por avivar a centelha da vida numa igreja prestes a perecer! Quantas igrejas são cuidadas como ovelhas enfermas, pelos que deviam estar buscando a ovelha perdida! E todo o tempo milhões e milhões estão perecendo sem Cristo.

O amor divino moveu-se a suas insondáveis profundidades em favor dos homens, e os anjos maravilham-se de ver nos objetos de tão grande amor uma gratidão meramente superficial. Os anjos pasmam de quão limitada é a apreciação que o homem tem do amor de Deus. O Céu se indigna ante a negligência manifestada para com a alma dos homens. Queremos saber como Cristo o considera? Como sentiria um pai, uma mãe, soubessem eles que, estando seu filho perdido no frio e na neve, fora desdenhado e deixado a perecer pelos que o poderiam haver salvado? Não ficariam terrivelmente ofendidos, furiosamente indignados? Não os acusariam com uma ira tão ardente como suas lágrimas, tão intensa como seu amor? Os sofrimentos de cada homem são os sofrimentos de um filho de Deus, e os que não estendem a mão em socorro de seus semelhantes quase a perecer, provocam-Lhe a justa ira. Esta é a ira do Cordeiro. Aos que professam ser companheiros de Cristo, e todavia se têm mostrado indiferentes às

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necessidades dos semelhantes, declarará Ele no grande dia do Juízo: "Não sei de onde vós sois; apartai-vos de Mim, vós todos os que praticais a iniqüidade." Luc. 13:27.

Na comissão dada aos discípulos, Cristo não somente lhes delineou a obra, mas deu-lhes a mensagem. Ensinai o povo, disse, "a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado". Os discípulos deviam ensinar o que Cristo ensinara. O que Ele falara, não só em pessoa, mas através de todos os profetas e mestres do Antigo Testamento, aí se inclui. É excluído o ensino humano. Não há lugar para a tradição, para as teorias e conclusões dos homens, nem para a legislação da igreja. Nenhuma das leis ordenadas por autoridade eclesiástica se acha incluída na comissão. Nenhuma dessas têm os servos de Cristo de ensinar. "A lei e os profetas" com a narração de Suas próprias palavras e atos, eis os tesouros confiados aos discípulos para serem dados ao mundo. O nome de Cristo é-lhes senha, distintivo, traço de união, autoridade para seu modo de proceder, bem como fonte de êxito. Coisa alguma que não traga a assinatura dEle há de ser reconhecida em Seu reino.

O evangelho tem de ser apresentado, não como uma teoria sem vida, mas como força viva para transformar a vida. Deus deseja que os que recebem Sua graça sejam testemunhas do poder da mesma. Aceita francamente aqueles cuja maneira de proceder mais ofensiva Lhe tem sido; quando se arrependem, comunica-lhes Seu divino espírito, coloca-os nos mais altos postos de confiança e envia-os ao acampamento dos desleais, para Lhe proclamar a ilimitada misericórdia. Quer que Seus servos dêem testemunho de que, mediante Sua graça, podem os homens possuir caráter semelhante ao de Cristo e regozijar-se na certeza de Seu grande amor. Quer que testifiquemos de que Ele não pode ficar satisfeito, enquanto a raça humana não for reavida e reintegrada em seus santos privilégios de filhos e filhas de Deus.

Em Cristo se resumem a ternura do pastor, a afeição do pai e a incomparável graça do compassivo Salvador. Apresenta Suas bênçãos nos mais fascinantes termos. Não Se contenta apenas em anunciar essas bênçãos; oferece-as da maneira mais atrativa, para despertar o desejo de as possuir. Assim devem Seus servos apresentar as riquezas da glória do inexprimível Dom. O maravilhoso amor de Cristo abrandará e subjugará os corações, quando a simples reiteração de doutrinas nada conseguiria. "Consolai, consolai o Meu povo, diz o vosso Deus." "Tu, anunciador de boas novas a Sião, sobe tu a um monte alto. Tu, anunciador de boas novas a Jerusalém, levanta a tua voz fortemente; levanta-a, não temas, e dize às cidades de Judá:

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Eis aqui está o vosso Deus. ... Como pastor apascentará o Seu rebanho; entre os Seus braços recolherá os cordeirinhos, e os levará no Seu regaço." Isa. 40:1, 9-11. Falai ao povo dAquele que "traz a bandeira entre dez mil", e que é "totalmente desejável". Cant. 5:10 e 16. As palavras, meramente, não o podem dizer. Seja refletido no caráter e manifestado na vida. Cristo pousa para ser retratado em cada discípulo. A todos predestinou Deus para serem "conformes à imagem de Seu Filho". Rom. 8:29. Em cada um se tem de manifestar ao mundo o longânimo amor de Cristo, Sua santidade, mansidão, misericórdia e verdade.

Os primeiros discípulos saíram pregando a Palavra. Eles revelaram Cristo em sua vida. E o Senhor andava com eles, "confirmando a Palavra com os sinais que se seguiram". Mar. 16:20. Estes discípulos se prepararam para a obra. Antes do dia de Pentecoste se reuniram e tiraram dentre eles todas as desinteligências. Estavam de um mesmo sentimento. Acreditavam na promessa de Cristo, de que a bênção seria dada, e oravam com fé. Não pediam a bênção apenas para si; estavam preocupados com a responsabilidade quanto à salvação de almas. O evangelho devia ser levado até aos confins da Terra, e eles reclamavam a doação do poder que Cristo prometera. Foi então que o espírito de Cristo foi derramado, e milhares se converteram num dia, sendo batizados em Seu nome!

Assim pode ser agora. Em vez das especulações dos homens, seja pregada a Palavra de Deus. Tirem os cristãos do meio deles as dissensões, e entreguem-se a si mesmos a Deus para salvação dos perdidos. Peçam a bênção com fé, e ela há de vir. O derramamento do espírito, nos dias apostólicos, foi a "chuva temporã" (Joel 2:23), e glorioso foi o resultado. Mas a "chuva serôdia" será mais abundante.

Todos quantos consagram a Deus alma, corpo e espírito, estarão constantemente recebendo nova dotação de poder físico e mental. As inesgotáveis provisões do Céu acham-se à sua disposição. Cristo lhes dá o alento de Seu próprio espírito, a vida de Sua própria vida. O espírito Santo (Cristo) desenvolve Suas mais elevadas energias para operarem no coração e na mente. A graça divina amplia-lhes e multiplica-lhes as faculdades, e toda perfeição da divina natureza lhes acode em auxílio na obra de salvar almas. Mediante a cooperação com Cristo, são completos nEle e, em sua fraqueza humana, habilitados a realizar os feitos da Onipotência.

O Salvador anela manifestar Sua graça e estampar Seu caráter no mundo inteiro. Este é Sua comprada possessão, e deseja tornar as pessoas livres, puras e santas. Embora Satanás trabalhe para impedir esse desígnio, mediante o sangue derramado pelo mundo, há triunfos a serem realizados, triunfos que trarão

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glória a Deus e ao Cordeiro. Cristo não Se manifestará enquanto a vitória não for completa, e Ele vir "o trabalho de Sua alma". Isa. 53:11. Todas as nações da Terra ouvirão o evangelho de Sua graça. Nem todos a receberão; mas "uma semente O servirá; falará do Senhor de geração em geração". Sal. 22:30. "E o reino, e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o Céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo" (Dan. 7:27), e "a Terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar". Isa. 11:9. "Então temerão o nome do Senhor desde o poente, e a Sua glória desde o nascente do Sol." Isa. 59:19.

"Quão suaves são sobre os montes os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina! ... exultai juntamente, desertos... porque o Senhor consolou o Seu povo. ... O Senhor desnudou o Seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da Terra verão a salvação do nosso Deus." Isa. 52:7-10.

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Para Meu Pai e Vosso Pai

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Chegou o momento de Cristo ascender ao trono do Pai. Estava prestes a voltar para as cortes celestiais, como divino vencedor, levando consigo os troféus da vitória. Antes de Sua morte, declarara ao Pai: "Eu acabei a obra que Tu Me encarregaste que fizesse." João 17:4, Versão de Figueiredo. Depois de Sua ressurreição, demorou-Se na Terra por algum tempo, a fim de que os discípulos ficassem familiarizados com Ele em Seu corpo ressurgido e glorificado. Agora estava pronto para as despedidas. Tornara autêntico o fato de que era um Salvador vivo. Os discípulos não necessitavam mais de relacioná-Lo com o sepulcro. Podiam pensar nEle como glorificado perante o Universo celestial.

Como local de Sua ascensão, escolheu Jesus aquele tantas vezes consagrado por Sua presença, enquanto habitava entre os homens. Não o Monte Sião, o lugar da cidade de Davi, não o Monte Moriá, sítio do templo, deviam ser assim honrados. Ali fora Jesus escarnecido e rejeitado. Ali as ondas de misericórdia, voltando ainda em mais poderosa vaga de amor, foram devolvidas por corações duros como as pedras. Dali Jesus, fatigado e oprimido de coração, saíra em busca de descanso no Monte das Oliveiras. O santo shekinah, partindo do primeiro templo, pousara sobre a montanha oriental, como se relutasse em abandonar a escolhida cidade; assim estava Cristo sobre o Olivete, contemplando com o coração anelante a Jerusalém. Os bosques e depressões da montanha

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haviam sido consagrados por Suas orações e lágrimas. Essas mesmas encostas ecoaram as triunfantes aclamações da multidão que O proclamava rei. Na descida desse monte encontrara Ele um lar em companhia de Lázaro, em Betânia. No Jardim de Getsêmani, ao sopé do Olivete, orara e Se angustiara sozinho. Desse monte devia ascender ao Céu. No cume do mesmo pousarão Seus pés quando vier outra vez. Não como varão de dores, mas como glorioso e triunfante rei estará sobre o Monte das Oliveiras, enquanto as aleluias dos hebreus se misturarão com os hosanas dos gentios, e as vozes dos remidos, qual poderosa hoste, hão de avolumar-se na aclamação: "Coroai-O Senhor de todos."

Com os onze discípulos, dirige-Se Jesus agora para o monte. Ao passarem pela porta de Jerusalém, muitos olhares curiosos seguem o pequeno grupo, chefiado por Aquele que, poucas semanas antes, fora condenado pelos principais, e crucificado. Não sabiam os discípulos que essa seria sua última entrevista com o Mestre. Jesus passou o tempo em conversa com eles, repetindo as anteriores instruções. Ao aproximarem-se de Getsêmani, Ele guardou silêncio, a fim de que se lembrassem das lições que lhes dera na noite de Sua grande agonia. Olhou outra vez para a videira pela qual representara a união de Sua igreja consigo e com o Pai; repetiu as verdades que então desdobrara. Tudo quanto O rodeava eram recordações de Seu não retribuído amor. Os próprios discípulos, que tão caros Lhe eram ao coração, na hora de Sua humilhação O vituperaram e abandonaram.

Por trinta e três anos peregrinara Cristo na Terra; suportara-lhe o desdém, o insulto e a zombaria; fora rejeitado e crucificado. Agora, quando prestes a ascender para Seu trono de glória - ao repassar as ingratidões do povo que viera salvar - não retiraria dele Sua simpatia e amor? Não se concentrariam Seus afetos naquele reino onde era apreciado e onde imaculados anjos esperavam Suas ordens para as cumprir? - Não; eis Sua promessa aos amados que deixa na Terra: "Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos." Mat. 28:20.

Chegando ao Monte das Oliveiras, Jesus vai abrindo o caminho até o cume, à vizinhança de Betânia. Ali Se detém, e os discípulos reúnem-se-Lhe em torno. Raios de luz parecem irradiar-Lhe do semblante, enquanto os contempla amorosamente. Não lhes lança em rosto suas faltas e fracassos; as derradeiras palavras que lhes chegam aos ouvidos, vindas dos lábios do Senhor, são da mais profunda ternura. Com as mãos estendidas numa

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bênção, e como numa firme promessa de Seu protetor cuidado, ascende Jesus lentamente dentre eles, atraído para o Céu por um poder mais forte que qualquer atração terrestre. Ao subir mais e mais, os assombrados discípulos, numa tensão visual, buscam um último vislumbre de seu Senhor assunto. Uma nuvem de glória O oculta aos seus olhos; e ao recebê-Lo o carro da nuvem de anjos, soam-lhes ainda aos ouvidos as palavras: "Eis que Eu estou convosco todo os dias, até à consumação dos séculos." Mat. 28:20. A flutuar veio baixando até eles, ao mesmo tempo, a mais suave e mais jubilosa música produzida pelo coro angélico.

Enquanto os discípulos continuam a olhar para cima ouvem, qual música maviosa, vozes que se lhes dirigem. Voltam-se e vêem dois anjos em forma humana, os quais lhes falam, dizendo: "Varões galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que

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dentre vós foi recebido em cima no Céu, há de vir assim como para o Céu O vistes ir." Atos 1:11.

Esses anjos eram do grupo que estivera esperando numa nuvem brilhante, para acompanhar Jesus à morada celestial. Os mais exaltados, dentre a multidão angélica, eram os dois que foram ao sepulcro na ressurreição de Cristo e com Ele estiveram durante Sua vida na Terra. Ardente era o desejo com que o Céu aguardava o fim de Sua estada num mundo manchado pela maldição do pecado. Chegara agora a ocasião de o Universo celestial receber o seu Rei. Não ansiaram os dois anjos unir-se à multidão que saudava a Jesus? Em simpatia e amor pelos que Ele deixara, porém, ficaram para os confortar. "Não são porventura todos espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?" Heb. 1:14.

Cristo ascendera ao Céu na forma humana. Os discípulos viram a nuvem recebê-Lo. O mesmo Jesus que andara, e falara e orara com eles; Aquele que partira com eles o pão; que com eles estivera nos botes, no lago; e que fizeram com eles, naquele mesmo dia, a penosa subida do Olivete - o mesmo Jesus fora agora para partilhar do trono do Pai. E os anjos lhes asseguraram que Aquele mesmo que viram subir ao Céu, voltaria outra vez assim como subira. Virá "com as nuvens, e todo o olho O verá". Apoc. 1:7. "Porque o mesmo Senhor descerá do Céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão." I Tess. 4:16. "Quando o Filho do homem vier em Sua glória, e todos os santos anjos com Ele, então Se assentará no trono da Sua glória." Mat. 25:31. Então se cumprirá a promessa do próprio Senhor aos discípulos. "Se Eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para Mim mesmo, para que onde Eu estiver estejais vós também." João 14:3. Bem se podiam os discípulos regozijar na esperança da vinda do Senhor.

Quando voltaram a Jerusalém, o povo olhava para eles com espanto. Pensava-se que, depois do julgamento e crucifixão de Cristo, se mostrariam abatidos e envergonhados. Seus inimigos esperavam ver-lhes no rosto uma expressão de tristeza e derrota. Ao invés disso, havia simplesmente alegria e triunfo. Sua fisionomia era iluminada por uma felicidade que não provinha da Terra. Não lamentavam malogradas esperanças, mas estavam cheios de louvor e ações de graças a Deus. Com regozijo contavam a maravilhosa história da ressurreição de Cristo e de Sua ascensão ao Céu, e seu testemunho foi recebido por muitos.

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Não mais tinham os discípulos qualquer desconfiança do futuro. Sabiam que Jesus estava no Céu e que continuavam a ser o objeto de Seu compassivo interesse. Sabiam que tinham um amigo junto ao trono de Deus e estavam ansiosos por apresentar ao Pai suas petições em nome de Jesus. Em solene respeito curvavam-se em oração, repetindo a firme Promessa: "Tudo quanto pedirdes a Meu Pai, em Meu nome, Ele vo-lo há de dar. Até agora nada pedistes em Meu nome; pedi, e recebereis, para que o vosso gozo se cumpra." João 16:23 e 24. Estenderam mais e mais alto a mão da fé, com o poderoso argumento: "Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós." Rom. 8:34. E o Pentecoste lhes trouxe plenitude de alegria na presença do Consolador, exatamente como Cristo prometera.

Todo o Céu estava esperando para saudar o Salvador à Sua chegada às cortes celestiais. Ao ascender, abriu Ele o caminho, e a multidão de cativos libertos à Sua ressurreição O seguiu. A hoste celestial, com brados de alegria e aclamações de louvor e cântico celestial, tomava parte na jubilosa comitiva.

Ao aproximar-se da cidade de Deus, cantam, como em desafio, os anjos que compõem o séquito:

 

"Levantai, ó portas, as vossas cabeças;

Levantai-vos, ó entradas eternas,

E entrará o Rei da Glória"!

 

Jubilosamente respondem as sentinelas de guarda:

"Quem é este Rei da Glória?"

Isto dizem elas, não porque não saibam quem Ele é, mas porque querem ouvir a resposta de exaltado louvor:

"O Senhor forte e poderoso,

O Senhor poderoso na guerra.

Levantai, ó portas, as vossas cabeças,

Levantai-vos, ó entradas eternas,

E entrará o Rei da glória"!

Novamente se faz ouvir o desafio: "Quem é este Rei da Glória?" pois os anjos nunca se cansam de ouvir o Seu nome ser exaltado. E os anjos da escolta respondem:

"O Senhor dos Exércitos;

Ele é o Rei da Glória!" Sal. 24:7-10.

Então se abrem de par em par as portas da cidade de Deus, e a angélica multidão entra por elas, enquanto a música prorrompe em arrebatadora melodia.

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Ali está o trono, e ao seu redor, o arco-íris da promessa. Ali estão querubins e serafins. Os comandantes das hostes celestiais, os filhos de Deus, os representantes dos mundos não caídos, acham-se congregados. O conselho celestial, perante o qual Lúcifer acusara a Deus e a Seu Filho, os representantes daqueles reinos imaculados sobre os quais Satanás pensara estabelecer seu domínio - todos ali estão para dar as boas-vindas ao Redentor. Estão ansiosos por celebrar-Lhe o triunfo e glorificar seu Rei.

Mas Ele os detém com um gesto. Ainda não. Não pode receber a coroa de glória e as vestes reais. Entra à presença do Pai. Mostra a fronte ferida, o atingido flanco, os dilacerados pés; ergue as mãos que apresentam os vestígios dos cravos. Aponta para os sinais de Seu triunfo; apresenta a Deus o molho movido, aqueles ressuscitados com Ele como representantes da grande multidão que há de sair do sepulcro por ocasião de Sua segunda vinda. Aproxima-Se do Pai, em quem há alegria a cada pecador que se arrepende; que sobre ele Se regozija com júbilo. Antes que os fundamentos da Terra fossem lançados, o Pai e o Filho Se haviam unido num concerto para redimir o homem, se ele fosse vencido por Satanás. Haviam-Se dado as mãos, num solene compromisso de que Cristo Se tornaria o fiador da raça humana. Esse compromisso cumprira Cristo. Quando, sobre a cruz soltara o brado: "Está consumado" (João 19:30), dirigira-Se ao Pai. O pacto fora plenamente satisfeito. Agora Ele declara: "Pai, está consumado. Fiz, ó Meu Deus, a Tua vontade. Concluí a obra da redenção. Se a Tua justiça está satisfeita, 'quero que, onde Eu estiver, também eles estejam comigo'." João 17:24.

Ouve-se a voz de Deus proclamando que a justiça está satisfeita. Está vencido Satanás. Os filhos de Cristo, que lutam e se afadigam na Terra, são "agradáveis... no Amado". Efés. 1:6. Perante os anjos celestiais e os representantes dos mundos não caídos, são declarados justificados. Onde Ele está, ali estará a Sua igreja. "A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram." Sal. 85:10. Os braços do Pai circundam o Filho, e é dada a ordem: "E todos os anjos de Deus O adorem." Heb. 1:6.

 

Com inexprimível alegria, governadores, principados e potestades reconhecem a supremacia do Príncipe da Vida. A hoste dos anjos prostra-se perante Ele, ao passo que enche todas as cortes celestiais a alegre aclamação: "Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças"! Apoc. 5:12.

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Hinos de triunfo misturam-se com a música das harpas angélicas, de maneira que o Céu parece transbordar de júbilo e louvor. O amor venceu. Achou-se a perdida. O Céu ressoa com altissonantes vozes que proclamam: "Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre." Apoc. 5:13.

Daquela cena de alegria celestial, chega até nós na Terra, o eco das maravilhosas palavras do próprio Cristo: "Eu subo para Meu Pai e vosso Pai, Meu Deus e vosso Deus." João 20:17. A família no Céu e a família na Terra, são uma só. Para nosso bem subiu nosso Senhor, para nosso bem Ele vive. "Portanto pode também salvar perfeitamente os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles." Heb. 7:25.

 

Se você tem o desejo de conhecer este livro (O Desejado de Todas as Nações), escrito em 1898 pela profetiza de DEUS, Ellen G. White, envie-nos um E-mail...

 

Impedido pela humanidade, Cristo não poderia estar em todos os lugares pessoalmente, então foi para vantagem deles (os discípulos) que Ele deveria deixá-los, ir para o Pai, e enviar o Espírito Santo para ser o Seu sucessor na terra. O Espírito Santo é Ele mesmo, despido da personalidade da humanidade e independente dela. Ele representaria a Si mesmo como estando presente em todos os lugares pelo Seu Espírito, como o Onipresente. “Mas o Consolador, O Espírito Santo, a quem o Pai enviará, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito” [ João 14:26]. “Mas eu vos digo a verdade; convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei” [João 16:7]. Manuscript Releases Volume Fourteen, page 23 and 24.

 

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