LIÇÃO 8 – O BOM PASTOR

Dr. José Carlos Ramos
D.min., é professor de Daniel e Apocalipse
 

O quadro de Jesus como o Bom Pastor predomina em João 10. O pensamento chave da lição é: "Como Bom Pastor, Jesus oferece tudo o que precisamos para termos uma vida abundante." Em seguida, ela afirma: "Nossa vida provém da Sua morte." Esse pensamento é, no mínimo, paradoxal com a imagem de um rebanho nos antigos campos da Palestina, tranqüilamente pastando sob o olhar, guia e amparo de um pastor. Naquelas circunstâncias, o bem-estar das ovelhas dependia diretamente da integridade física do pastor. Se este permanecesse com elas, vivo e com saúde, forte e com disposição, estariam bem. Mas, se, por exemplo, uma fera atacasse o rebanho, e o pastor, ao defendê-lo, viesse a ser morto, as ovelhas se perderiam; seriam dispersas e destruídas.

Aqui o quadro é exatamente o oposto: é o fato de o Bom Pastor ser morto que garante salvação para as ovelhas. Duas vezes, no contexto do ataque de um predador, Jesus afirma que dá a vida por elas (vs. 11 e 15); e é precisamente morrendo que o Pastor impede que sejam arrebatadas e propicia que alcancem a vida eterna (v. 28).

Este paradoxo é compreendido apenas quando se considera a cruz na perspectiva correta. A morte do Pastor não significa a derrota do rebanho; ao contrário, significa a vitória, pois, ao Jesus morrer, o inimigo do rebanho foi derrotado. É por isso que, também duas vezes, Ele afirma que dá a vida pelas ovelhas para então a reassumir (vs. 17 e 18). Como será demonstrado no comentário da última lição, a ressurreição de Jesus é a prova irrefutável de que a vitória foi ganha no Calvário. E esta vitória não é exclusiva do Pastor; pertence, por direito, igualmente às ovelhas. De fato, a morte de Jesus inicialmente as dispersa (16:32), mas finalmente as congrega em um só corpo (11:51 e 52). Partilhar desta vitória depende exclusivamente de decidirmos por Seu pastorado em nossa vida. "As Minhas ovelhas ouvem a Minha voz; Eu as conheço, e elas Me seguem" (10:27).

Tão decisivo tema se faz presente desde antes do capítulo do Bom Pastor. Já na festa dos Tabernáculos, Jesus convida os pecadores a virem a Ele e a crerem nEle (7:37 e 38); depois Se apresenta como a Luz do mundo, garantindo a quem O segue "a luz da vida" (8:12); então, a veracidade de Suas palavras é comprovada com a cura do "cego de nascença" (9:1-7). Este, expulso do aprisco do judaísmo, é recebido por Jesus (vs. 35-38), o que é reiterado em 10:4 e 9: "Depois de fazer sair todas as [ovelhas] que Lhe pertencem, vai adiante delas, e elas O seguem... Se alguém entrar por Mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem."

Seguir a Jesus exige que você entre; mas o ato de entrar é simultâneo com o ato de sair. Você entra para o redil do Bom Pastor saindo do antigo redil do engano, do pecado e da morte. Sempre foi assim, e agora não é diferente. Apocalipse 18:4 soa bastante familiar nesse contexto: "Retirai-vos dela [de Babilônia], povo Meu".

Domingo – A Festa dos Tabernáculos

A lição informa satisfatoriamente o que a festa dos Tabernáculos celebrava e como era comemorada; fala também do seu cumprimento em Cristo. Acrescentamos apenas que, segundo Levítico 23, o ano litúrgico de Israel comportava inicialmente sete festas, quatro na primavera (Páscoa, Pães Asmos, Primícias e Pentecostes) e três no outono (Tabernáculos, Trombetas e Expiação). As primeiras ocorriam na época da colheita dos cereais; as últimas, na colheita dos frutos.

Essas festas comportavam um significado escatológico, apontando as do primeiro grupo mais especificamente para a primeira vinda de Jesus, e as do segundo, para a segunda vinda. Com efeito, no plano da escatologia realizada na História, Jesus Se ofereceu como nossa Páscoa (isto é, nosso Cordeiro pascal, um tema bem presente no Evangelho de João), Seu corpo sacrificado na cruz é o verdadeiro pão asmo (cf 6:48), Sua ressurreição, "as primícias dos que dormem" (I Cor. 15:21 e 23), e a descida do Espírito Santo, cinqüenta dias depois (Atos 2), o verdadeiro Pentecostes. Ainda nesta linha de raciocínio, certos eventos ocorridos a partir de 1º de novembro de 1755, e tidos como evidência da chegada do tempo do fim, foram como autênticos toques de "trombeta" anunciando que logo o juízo, representado pelo antigo dia da Expiação, começaria o que ocorreu em 1844. Finalmente, Tabernáculos, uma festa plena de regozijo, apontaria para o Reino de Deus, quando o Seu tabernáculo estará conosco para sempre (Apoc. 21:3).

Assim delineado, este aspecto escatológico das festas tem levado alguns a suporem que Jesus, em Sua primeira vinda, cumpriu apenas as festas de primavera, cabendo-nos, portanto, por obrigação, a comemoração das de outono. Entretanto, à luz da escatologia realizada em Cristo, explorada pelo Evangelho de João (ver comentário introdutório à primeira lição do trimestre), observamos que Jesus, em Sua primeira vinda, efetivou-Se como o cumprimento final de todas estas festas, e não apenas das de primavera. A maior evidência disto é João 7, onde Cristo Se apresenta como o verdadeiro antítipo de uma das festas do outono, Tabernáculos. Como a lição afirma, "por Suas declarações..., Jesus deixou claro que era a Ele que a festa se referia. Os atos poderosos de Deus, celebrados na Festa dos Tabernáculos, se tornam realidades presentes na pessoa e nos ensinos de Jesus."

Segunda – O grande Eu Sou

A lição tece excelente comentário também sobre este ponto, demonstrando que o emprego da fórmula "Eu Sou" por Jesus em referência a Si mesmo é uma clara indicação de Sua divindade plena. "Nas declarações ‘EU SOU’ de Jesus, vemos uma afirmação de Sua divindade. Ele é o Yahweh do Antigo Testamento, encarnado para conduzir o Seu povo, como prometeu pelos profetas. Ele é plena e verdadeiramente Deus, no sentido mais elevado, mesmo enquanto caminhava na Terra revestido da humanidade."

Para Israel, Deus Se revelou como "Eu Sou" principalmente em dois memoráveis contextos históricos: o êxodo (Êxo. 3:14; cf. Deut. 32:39), e a previsão do retorno do cativeiro babilônico (Isa. 43:10, entre outros textos. Neste, "testemunhas" em favor do Deus "Eu Sou" são interpeladas; o contexto joanino inclui o testemunho). Ambos os eventos são figurativos da redenção trazida por Jesus. Por exemplo, no Apocalipse, tanto o êxodo como o retorno do cativeiro apontam para a final libertação do povo de Deus. Mas em João, em sua ênfase na escatologia já realizada em e por Jesus, ser Este identificado por "Eu sou" significa que esta libertação se encontra ao dispor do pecador (8:32 e 36), e os que crêem nEle já a desfrutam. Como a lição deixa claro, "a salvação futura prometida pelos profetas se tornou realidade presente nEle. ... Ele pode trazer as glórias prometidas do reino futuro do Antigo Testamento aos que crêem nEle agora. Estar em relação com Jesus é ter a abundância do reino futuro agora pela fé."

Portanto, como "Eu sou", Jesus é a encarnação do Deus verdadeiro que Se revelou nas páginas do Antigo Testamento e que entrou em concerto com o Seu povo; é também Aquele através do qual todas as bênçãos deste concerto se efetivam.

Ainda acrescentaria que há três categorias de "Eu sou" empregadas por Jesus em João:

(1) Como fórmula nominal predicativa neutra, em 6:20 e 18:5, 6 e 8.

(2) Como fórmula nominal predicativa específica. Esta é a mais freqüente, ocorrendo quando Jesus Se identifica substancialmente com o elemento essencial de Seu ensino.

Referências diretas:

(2.1) 6:35, 41, 48 e 51 – "Eu sou o pão..."

(2.2) 8:12 – "Eu sou a luz do mundo" (também 9:5; 12:46)

(2.3) 10:7 e 9 – "Eu sou a porta..."

(2.4) 10:11 e 14 – "Eu sou o bom pastor"

(2.5) 11:25 – "Eu sou a ressurreição e a vida"

(2.6) 14:6 – "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida"

(2.7) 15:1 e 5 – "Eu sou a videira..."

Referências indiretas:

(2.8) 4:26 – "Eu sou [o Messias]"

(2.9) 13:13 – "Eu sou [Mestre]"

(3) Como fórmula com sentido essencial absoluto, sem dúvida a que mais evidencia Sua divindade plena – 8:24, 28 e 58.

Terça – Um cego divertido

O maior número de curas no ministério de Jesus é de cegos. No Antigo Testamento, dar vistas a um cego é algo atribuído a Deus (Êxo. 4:11; Sal. 146:8). Assim, quando Jesus cura um cego, fica subentendido que Ele realiza uma "obra de Deus". Ademais, é declarado que, nos dias messiânicos, os olhos dos cegos seriam abertos (Isa. 35:5). Portanto, João, neste capítulo, comprova que Jesus é, de fato, o Messias.

Diferença deste relato com o de outras curas de cegos: o homem curado teve prontidão de mente e firmeza de palavra para testemunhar diante do povo e autoridades a cura alcançada, exaltando assim a pessoa de Jesus. Ele O conheceu posteriormente e creu nEle, tornando-se uma representação viva daquele que crê e se torna discípulo do Mestre. O cego finalmente foi expulso da Sinagoga. Esta é uma ação definida contra um seguidor de Jesus. Esboça-se aqui o fato de que a experiência do Mestre é a experiência do discípulo (ver João 15:20).

Sentido de julgamento na narrativa: Os líderes são levados a uma verdadeira crise de consciência (a lição fala em termos de "sério dilema para os fariseus"), pois ao discutirem com o ex-cego revelam a própria cegueira. Jesus assim é pintado como a luz do mundo em conflito com as trevas, o que confirma Suas prerrogativas muito bem expostas no discurso na festa dos Tabernáculos. A lição, com justiça, classifica esse milagre de "parábola viva para ilustrar Sua vida e Seus ensinos".

Para alguns, o texto de João 9 encerra, em sua abertura, um problema. Os discípulos perguntaram se fora o próprio cego que pecara (ou seus pais), para que nascesse cego, e Jesus não lhes corrigiu a pergunta (v. 2). Como poderia alguém pecar para nascer cego? Os rabis, às vezes, afirmavam, com base em Gênesis 25:22, que um infante poderia pecar no ventre materno. Afirmavam também que o pecado dos pais poderia resultar que um filho nascesse doente, e apelavam para o segundo mandamento para sustentar esta hipótese: "... visito a iniqüidade dos pais nos filhos...". Por exemplo, alguém poderia nascer leproso por ter a mãe, quando grávida, se prostrado diante de um ídolo. Em outras palavras, a conotação do conceito rabínico, ao contrário da idéia por trás do mandamento, era de caráter mais biológico que espiritual.

Jesus não perdeu tempo divagando sobre conjecturas rabínicas e foi direto ao ponto. Ele já reconhecera que o pecado gera a doença (ver João 5:14), mas dentro, naturalmente, da perspectiva correta. Aqui, a razão da doença era outra, e o episódio lembra a experiência de Jó: "... foi para que se manifestem nele as obras de Deus" (João 9:3) Jesus foi solicitado a dar um parecer sobre a causa da doença, mas respondeu sobre o propósito dela.

Quarta – Jesus, o Bom Pastor (comentário próprio também para sexta-feira)

O aspecto pastoral do ministério de Jesus é particularmente joanino, mas não exclusivo do quarto Evangelho. Mateus e Lucas também O apresentam como pastor, ao registrarem a parábola da ovelha perdida (Mat. 18:10-14; Luc. 15:3-7).

Os três evangelistas exploram o tema com ênfases próprias. Mateus registra a parábola no contexto das orientações de Cristo aos líderes da Igreja quanto a como tratarem um membro faltoso (18:15-20), seguidas da importância do perdão no relacionamento humano (vs. 21-35). Em Lucas, a parábola realça o amor de Deus pelos perdidos e Seu empenho pela restauração deles (15:7 e 10); a idéia é o relacionamento salvífico entre pastor e ovelha (v. 6). Em João, este relacionamento é ampliado ("o bom Pastor dá a Sua vida pelas ovelhas"), com a inclusão de novos elementos: há um contraste com falsos pastores e mercenários (lição de amanhã), as verdadeiras ovelhas "ouvem a Sua voz", e há um outro aprisco de onde ovelhas serão igualmente recolhidas.

Ênfases próprias não significam falta de qualquer paralelo. Em Mateus e Lucas, o pastor sai em busca da ovelha perdida, isto é, da ovelha que está fora do aprisco e longe do pastor. Em João, o Pastor encontra o ex-cego expulso da sinagoga, uma ovelha fora de qualquer aprisco, e o recolhe para o Seu próprio convívio. Em Lucas, fariseus e escribas murmuram acintosamente que Jesus "recebe pecadores" (15:2); em João, Ele recebe alguém "nascido todo em pecado" (9:34-39); neste Evangelho, falsos pastores perfidamente apartam, do aprisco, uma ovelha, enquanto em Mateus fica evidenciado que poderá ocorrer o momento em que, esgotados todos os recursos, alguém seja afastado do "redil" da Igreja (18:17 e 18).

Os termos gregos vertidos "pastor" e "pastorear" comportam o mesmo sentido do hebraico. Pastor é aquele que rege, que gira o cajado em favor da ovelha, tanto para guiá-la como especialmente para defendê-la. Essa função de defensor prosseguia até durante a noite, quando pastor e ovelhas dormiam; mesmo assim, continuavam a ser pastoreadas por ele, tal como durante o dia, quando eram conduzidas a "pastos verdejantes" e "águas tranqüilas". Isso transparece no comentário que a lição tece sobre o fato de Jesus ser tanto o Bom Pastor como a porta por onde as ovelhas "entram e saem". "Qualquer ladrão ou animal selvagem que tentasse acesso às ovelhas teria que passar fisicamente pelo pastor. Onde não havia cavernas, um abrigo cercado de pedras era construído com uma só abertura com tamanho suficiente para que o pastor a bloqueasse com seu corpo enquanto dormia. Então, quando Jesus Se descreveu como o Bom Pastor e como a porta das ovelhas, Seus ouvintes reconheceram que esses conceitos eram dois modos diferentes de descrever a mesma atividade."

Assim, Jesus é o Bom Pastor, o supremo regente de Seu povo. A ligação do capítulo 10 com o capítulo 9 é óbvia no verso 21. Os pastores de Israel haviam expulsado uma ovelha, o homem nascido cego, e Cristo a reconduziu.

Quinta – Mercenários e ladrões

A lição pergunta o que ladrões e mercenários fazem pelas ovelhas que demonstre serem exatamente isso. A resposta é satisfatória. Questão mais pertinente ainda é o que eles fazem para que sejam ladrões e mercenários. Jesus responde que são falsos pastores porque não entram pela porta (10:1), apropriada figura dEle, o único meio de salvação que existe (portanto, a única forma existente de salvação é "entrar por Ele").

O verdadeiro pastor é aquele que tem a Jesus como norma e modelo, e aí está a diferença fundamental entre "o pastor e o mercenário" e entre "o pastor e o ladrão".

Em que sentido "todos quantos vieram antes de Mim são ladrões e salteadores" (v. 8)? Naturalmente Moisés, Isaías, Jeremias, e outros fiéis do passado, incluindo o próprio João Batista (ver 1:30), não se enquadram nessa classificação. O que Jesus quer dizer?

Jesus não Se referiu à seqüência cronológica, porque na realidade ninguém pode se antecipar a Jesus no tempo. O precursor afirmou que Aquele que veio depois dele já existia antes dele (1:30). E acerca de Abraão, Jesus disse que antes que ele passasse a existir "Eu sou" (8:58). O que Jesus tem em vista são elementos que se antecipam a Ele, que Lhe tomam a dianteira, que se apressam a pastorear à revelia dEle. Jesus é o "caminho, e a verdade, e a vida" (14:6), e aqueles que "não entram pela porta" enveredam por um caminho escuso, apóiam-se na mentira e no engano, e logram apenas "roubar, matar e destruir" (10:10).

A exemplo dos fariseus nos dias de Jesus, muitos se tornam líderes para a perdição própria e dos liderados. São cegos que passam a guiar cegos, e outro destino não lhes cabe senão cair "no barranco" (Mat. 15:14). Alguns, por exemplo, enveredam para a especulação profética, interpretando profecias em total desarmonia com a Igreja; logo um bom número de crentes está acreditando em fantasias. Outros começam a alardear supostos pecados da Igreja e de seus líderes, erros administrativos que estão sendo cometidos; querem dirigir a obra a seu próprio modo e dali a pouco é mais um grupo dissidente que surge. Outros ainda passam a questionar as doutrinas da Igreja, as fortes colunas que Deus levantou para sustentar este movimento; e não faltam ouvidos para lhes ouvir e bocas para lhes dizer "amém!".

Com raras exceções, o naufrágio na fé de todos estes é assunto decidido. Faz algum tempo, perguntei a um desses "líderes": "você poderá até se arrepender e reintegrar-se à Igreja; mas... e aqueles que você desviou e que nunca mais voltarão? Quem responderá por eles?"

O tempo, infelizmente, veio comprovar que a minha pergunta tinha razão de ser.


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